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  N°4221 (Nova Série), Sexta-Feira, 1 de Mar¬o de 2013
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ESTUDO DIZ QUE ESCOLAS E PAIS PRECISAM DE DEDICAR MAIS TEMPO A LER COM AS CRIANÇAS
Capacidade de leitura abaixo da média

Quando o nível das perguntas sobe de tom os alunos locais fraquejam. Um estudo realizado por uma instituição de Hong Kong indica que a capacidade de leitura e compreensão dos jovens é “superficial”. A falta de promoção de hábitos de leitura nas escolas, a pressão e escassez de tempo dos pais são razões apontadas para justificar resultados abaixo da média

fátima almeida

Estão pouco habituados a adormecer com as histórias que saem dos livros. Quando chegam às escolas são os números e a pressão dos exames que comandam as aulas levando a que a capacidade para ler não evolua com a idade. Estes são apenas dois dos motivos que contribuem para que o nível de leitura, em chinês, dos alunos de Macau esteja longe de ser ideal.
De acordo com uma investigação elaborada pelo Centro para o Estudo e Desenvolvimento do Ensino da Língua Chinesa da Faculdade de Educação da Universidade de Hong Kong, os estudantes conseguem “ler textos de forma superficial”, apresentando dificuldades na compreensão de ideias mais aprofundadas, explicou o professor catedrático Tse Shek Kam, que ontem apresentou as conclusões deste trabalho encomendado pela DSEJ.
O estudo foi desenvolvido com a participação de alunos da primária ao secundário, tendo por base testes de cariz internacional, e revelou que quanto maior é o grau de ensino menor é a aptidão para ler. “Relativamente à diferença de capacidade de leitura entre alunos, esta é de maior dimensão nos anos de escolaridade mais baixos e menor entre os alunos do 3º ano de ensino secundário complementar”, explicou Tse Shek Kam.
Os alunos do 4º ano são “mais expressivos na capacidade de leitura ao nível inferior”, mas ao nível superior o seu desempenho já se revela “fraco”, sobretudo quando estão em causa diferentes tipos de leitura, registando assim uma taxa de respostas certas de 46,74 por cento. Os resultados do 6º ano são melhores, no geral, ao registar-se uma percentagem de 50,55 por cento, mas a capacidade de leitura “dos alunos do nível superior está abaixo da média”. A palavra “insatisfatório” surge ainda para descrever a prestação dos alunos do 3º ano do ensino secundário complementar nomeadamente em áreas mais específicas, como a criatividade.
A falta de imaginação também se reflecte na capacidade para analisar os diferentes tipos de texto. “Utilizando os testes de nível mundial verificámos que os alunos de Macau mostram compreender melhor textos informativos do que literários”, notou Tse Shek Kam.
ESCOLA, EXPLICAÇÕES E PAIS COMO LIMITE. Para melhorar o nível de leitura , Tse Shek Kam sugere que pais e professores desenvolvam mais actividades com livros e se afastem de formas convencionais. Um texto não tem apenas de ser interpretado olhando para uma folha de papel, mas poderá dar origem por exemplo a uma peça de teatro, exemplificou.
Passar mais tempo a desfrutar dos livros pode ser um meio não só para elevar a capacidade de leitura, mas também para desenvolver outros domínios da vida escolar. Uma equação que, porém, ainda não é reconhecida por muitas famílias. “Os pais dão importância ao desempenho dos filhos, mas não percebem que a leitura é um ponto importante, e que se houver um bom nível de leitura a criança poderá ter um melhor desempenho na escola”, reiterou Tse Shek Kam.
A falta de tempo e a pressão nos estudos poderão também funcionar como um travão. “Os pais compram livros mais técnicos para ensinar como estudar e assim limitam a capacidade de leitura. Por outro lado, são ocupados e dedicam pouco tempo a ler com os filhos”, acrescentou ainda o académico, sugerindo que os livros façam mais parte dos quotidianos e a partir do jardim de infância.
Também os programas curriculares das escolas locais acabam por não incluir como prioridade o desenvolvimento da capacidade de leitura, observou Tse. “Os alunos conseguem chegar ao ensino secundário e têm de realizar muitos testes e as escolas para ajudar os alunos a passar nas provas não priorizam a leitura”, notou. “Os docentes devem criar vários grupos de leitura e focar-se mais nos alunos para desenvolver as suas capacidades”, sugestionou.
Sem tecer comparações directas com Hong Kong, por considerar que são realidades diferentes, Tse Shek Kam deixou patente, contudo, que na região vizinha o ensino privilegia mais as estratégias e a reflexão do que a absorção intacta de conteúdo e conhecimento o que permite maior capacidade de raciocínio. Por outro lado, recordou, na RAEHK há uma uniformização ao nível curricular, método que Macau tem ainda apenas em estudo. “Em Hong Kong há uma certa uniformização curricular mas em Macau as escolas têm objectivos muito diferentes entre si. A RAEM dá atenção, mas tem de lançar mais políticas e estratégias para melhorar o nível de leitura”, referiu.
Também os centros de explicações podem levar a que a capacidade de leitura não se desenvolva tanto. “É muito vulgar os alunos irem para os centros de explicações e os pais pensam que tal aumenta a sua capacidade de estudo, mas a nossa pesquisa demonstra que os alunos que frequentam aqueles espaços têm uma menor capacidade de leitura”.
Isto porque, refere Tse, os estudantes acabam por se focar muito nos trabalhos de casa e em exercícios, não deixando espaço para as histórias. Para Macau ter alunos a ler melhor o sistema educativo terá de se concentrar mais em cada indivíduo e nos seus talentos, bem como exigir que os professores ensinem além dos manuais, que muitas vezes são de nível médio. “Como em Macau é o mesmo Secretário que tutela as várias entidades que ajudam os alunos a desenvolver a capacidade de leitura, todas deviam explorar melhor as potencialidades de cada aluno. Por exemplo, devem ensinar os alunos sobredotados formas diferentes de leitura para que tenham mais capacidade de reflexão”.
Neste estudo, além dos alunos (865 do 4º ano, 1087 do 6º ano e 744 do 3º ano do ensino superior complementar) participaram pais, professores e pessoal da promoção de leitura, directores das escolas.

Ponderado exame do 12º ano e reforma curricular

A sugestão partiu da Associação dos Jovens Macaenses, aquando da apresentação das Políticas de Juventude, e a DSEJ parece tê-la acolhido. Ontem, Wong Kin Mou disse que o organismo está a pensar em criar um teste para os alunos que pretendem entrar no Ensino Superior. “Estamos a ponderar a criação de um exame geral para o acesso à universidade”, avançou. “Já estamos a fazer contactos com as instituições de ensino superior para que seja possível. Vamos ter mais novidades no futuro”, acrescentou o chefe de Departamento dos Recursos Recreativos da DSEJ. O objectivo é que os alunos que concorrem ao ensino superior mostrem que estão preparados para dar o passo. Já comentando os resultados do estudo sobre a capacidade de leitura dos alunos locais, Wong Kin Mou referiu que é essencial que se comecem a criar hábitos de leitura a partir dos três anos de idade. “Os pais muitas vezes perdem a altura ideal para formar o hábito da leitura”, apontou. “Estamos a fazer uma reforma na uniformização curricular apresentada pelo centro de Hong Kong. Ou seja um quadro geral dos currículos bem como um documento sobre as exigências e as apetências básicas dos alunos”, explicou.

 


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