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  N°4221 (Nova Série), Sexta-Feira, 1 de Mar¬o de 2013
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ARQUITECTOS DEFENDEM QUE CIDADÃOS DEVEM CONSEGUIR FAZER PROPOSTAS DE CLASSIFICAÇÃO DE PATRIMÓNIO
“O abaixo-assinado público é fundamental”

A ideia parte em uníssono da voz de Carlotta Bruni e Rui Leão. Ambos defendem que os cidadãos de Macau devem ter a possibilidade, através de abaixo-assinados, de incluir conjuntos arquitectónicos na lista de património classificado. A dupla local recebeu ontem o Prémio de Conservação da Herança Cultural Ásia-Pacífico da UNESCO pelo projecto da sala de leitura da Escola Portuguesa de Macau

A biblioteca da Escola Portuguesa de Macau (EPM) tem agora o carimbo da UNESCO. Rui Leão e Carlotta Bruni receberam ontem, oficialmente, o Prémio de Conservação da Herança Cultural Ásia-Pacífico da UNESCO, na categoria “inovação”, com o projecto da sala de leitura da EPM. À margem da cerimónia, partilharam o desafio de criar um projecto no seio de outro já existente e defenderam a inclusão do edifício na lista de património classificado de Macau.
“Aqui o grande desafio que tivemos, apesar de ser uma obra relativamente pequena, era precisamente a coexistência com o edifício de Chorão Ramalho e como intervir no edifício dele não só de maneira a que não feri-lo, mas também de maneira a introduzir outra forma de olhar para a própria arquitectura que já cá estava”, confessa Rui Leão.
Os objectivos eram difíceis de alcançar, por um lado devido ao espaço limitado e, por outro, devido à necessidade de manter a ideia de jardim e luz natural. A intenção última, esclarece o arquitecto, era que “fosse muito discreto e ninguém desse pelo projecto”.
O prémio atribuído à dupla de arquitectos distingue a melhor “prática de conservação”, esclarece Tim Curtis, director do Departamento de Cultura da UNESCO, em Banguecoque, presente na cerimónia. “A intenção é encorajar o sector privado a ter uma perspectiva de conservação. É um prémio que reconhece a inovação. Neste caso em particular, é uma nova estrutura que se encaixa bem num contexto já existente”. A observação do painel de jurados, constituído por dez elementos, salienta a qualidade da sala de leitura criada em 2008, mas também do edifício no seu todo, desenhado em 1963.
“Creio que este prémio é muito importante para o património em Macau, principalmente para este edifício, que - do meu ponto de vista - é um edifico notável de modernismo e que em qualquer parte do mundo seria de primeira água. O júri não distingue apenas o nosso trabalho, mas também salienta a forma como o nosso trabalho distingue uma obra que já de si é altamente qualificada”, observa Rui Leão. Na opinião do arquitecto, incluir o conjunto arquitectónico na lista dos edifícios classificados de Macau deveria ser uma “prioridade”.
“Acho que é um primeiro passo fundamental. É um sinal que não só as comunidades macaense e portuguesa esperam, mas também um sinal que é preciso para mostrar que há realmente interesse em preservar o património e há condições para se assegurar o dito compromisso. Se não se consegue um compromisso aqui, julgo que existem muito poucos outros casos onde se justifique tanto um compromisso”, afirma Rui Leão.
CANALIZAR INVESTIMENTOS. Olhando para a cidade, ambos os arquitectos defendem que é preciso agir e dar voz aos residentes. “Se calhar tem de se arranjar outras estratégias para lidar com o património de maneira criativa”, sugere Carlotta Bruni. “Deveria ser possível que qualquer cidadão pusesse património na lista do património classificado. Não todo o património tem o mesmo valor, como sabemos, mas não é por isso que devemos deixar que sejam demolidos edifícios importantes para a cidade, como este, sem pensar nisso com consciência”, salienta.
Rui Leão sustenta a mesma ideia: “não tendo conhecimento sobre o que será o futuro conselho para o património, a figura do abaixo-assinado público era realmente fundamental para expressar uma vontade de valorizar e classificar o património”.
O arquitecto defende ainda que é necessário criar “formas de canalizar investimento, esforço, envolvimento de profissionais e a Administração na conservação dos edifícios”. Exemplos preocupantes não faltam. “Se formos dar um passeio ali à Avenida Cinco de Outubro é de levar as mãos à cabeça, porque há ali coisas que são relíquias, como a farmácia chinesa, a casa de chá... e está tudo ao abandono. Há coisas que não parecem ser prioritárias, mas eu acho que deviam ser”.
Durante a tarde de ontem, foi ainda lançado o livro “A Reading Room for the Portuguese School of Macau”, que abrange um enquadramento da obra de Chorão Ramalho no contexto do modernismo português em Macau, bem como um levantamento sobre o percurso de Rui Leão e Carlotta Bruni, com enfoque na intervenção premiada.

R.C.

 


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