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  N°4149 (Nova Série), Sexta-Feira, 9 de Novembro de 2012

BANCA DE ANTÓNIO Chao ATRAI MAIS PESSOAS EM VÉSPERAS DE SÃO MARTINHO
O vendedor de castanhas que apazigua saudades

A dois dias de se comemorar o São Martinho a banca de António Chao começa a receber mais clientes. À frente de um negócio de família que começou há 60 anos, o senhor Chao contou ao JTM alguns dos segredos de assar castanhas numa máquina inventada pelo pai. Nesta época de festa, muitos aproveitam para matar as saudades dos magustos portugueses. Até o Governo faz encomendas. A banca Cheng Kei é a única que se avista nas ruas de Macau

fátima almeida
VIVIANA CHAN

Há momentos em que o fumo quase esconde as gotas de água que lhe escorrem pelo rosto. Disfarça-as. E os braços de António Chao acalmam o fogo. A máquina é uma invenção de família. Uma espécie de tômbola da sorte construída há 40 anos, mas que permite recuar ainda mais no tempo. Esta é uma história de pelo menos seis décadas, no Largo do Senado. Os dedos marcam apenas alguns metros de distância entre o passado e o presente. E a fotografia antiga não deixa dúvidas: o carrinho onde o pai vendia castanhas ficava somente meia dúzia de passos mais à frente – do local onde o podemos encontrar hoje - numa cidade que ainda parecia despida de gente, à medida que as luzes tombavam douradas sobre a calçada.
Tudo começou num golpe de necessidade. Com a arte de fazer face à vida, quando se parte da terra natal carregando esperanças. E na época nem era uma raridade como o é hoje, um espanto mesmo a poucos dias de se festejar o São Martinho. A fila de clientes é uma mistura de culturas. Há um aproximar de gente sobretudo quando se ouvem estalidos e o fumo se espalha e vai apagando as faces de quem espera por um saquinho. De repente alguém grita em português: “Olha, são castanhas!”. E confiamos no espanto de uma criança.
Quando o pai de António Chao chegou a Macau há 60 anos, sem um emprego, o seu carrinho de castanhas era um entre meia-dúzia. Hoje é o único. Para ganhar a vida o progenitor dividia o trabalho por estações. “Na altura não havia muitas oportunidades, por isso o meu pai vendia bebidas frescas no Verão e castanhas no Inverno”, explicou. “Depois as regras mudaram. Há cerca de 30 anos ficou decidido que só podíamos exercer uma actividade e tomámos a decisão de vender castanhas” acrescentou.
Não haveria de faltar muito para que António Chao assumisse o negócio. Lembra-se bem. Os pés do pai estavam inchados de cansaço, as pernas doridas do tempo, do vento, da água e do sol, a que se expôs anos a fio para hoje a família ainda fazer história. “A idade dele ia avançando e comecei a ajudá-lo. Foi por volta de 1985. Ou seja estou aqui há 27 anos”, recorda.
As memórias vão mais longe. “Havia quatro bancas de castanhas nesta zona. Durante 20 anos assavam as castanhas manualmente, mas depois o meu pai inventou esta máquina”, contou. Uma máquina que também parece um foguetão a despertar curiosidade, sobretudo quando as castanhas rebentam e os clientes arregalam os olhos. Às vezes avaria-se, mas a resposta é pronta. Não são precisos mais de 20 minutos para que o dono mude a peça que permite lançar uma nova chama. E tudo começa outra vez.
ARTE DE GERAÇÕES E SEGREDOS. As castanhas não levam o habitual golpe na barriga, mas António Chao tem outros segredos. Domina a técnica e garante que só a experiência aperfeiçoa o sabor. “Com esta máquina acredito que as castanhas ficam melhor, porque como está sempre a girar são assadas de maneira mais equilibrada”, refere.
Embora aquele forno rode de forma automática é muito o esforço exigido a António. Para garantir que todas as castanhas recebem o calor de uma chama coloca o seu braço dentro da máquina para as mexer. Depois de várias rotações, uma ou duas castanhas são abertas para ter a certeza que estão bem assadas. E se assim for escorregam para uma rede e são sacudidas, ficando prontas a vender num saquinho de papel.
António Chao ainda se lembra da palavra “saco”, do português que aprendeu em pequeno na Escola Luso-Chinesa. Enquanto ajudava o pai prosseguia os estudos e haveria de seguir a arte da joalharia. Ainda hoje - enquanto o carrinho das castanhas espera um novo Outono – António desenvolve a sua veia de ourives.
Nesta época, o ritual é o mesmo todos os dias. Desde o meio-dia até às 21h, ou mais tarde se os clientes continuarem a fazer fila, António Chao enche baldes de castanhas para assar. Acrescenta apenas fortes pitadas de sal porque a natureza já cuidou do resto. “Não coloco nenhum aditivo. Há quem ponha óleo para ficarem mais brilhantes, mas acho que não é preciso”, refere.
Ao lado do carrinho está um cesto gigante cheio de castanhas, compradas em Hong Kong. São muitos os saquinhos que saem por dia, mas há números que António Chao prefere não revelar. “Quantas vendo por dia é segredo, é a alma do negócio como se diz”, ri-se. Dá apenas algumas pistas – as que começa por sentir no corpo. “Agora há cada vez mais pessoas a comprar, mas se chover é muito triste porque é difícil atrair clientes. Quando se faz sentir frio a sério as vendas também não são muitas porque as pessoas não saem tanto de casa. Mesmo para mim a sensação é estranha, porque sinto muito calor na parte da frente enquanto asso as castanhas, mas as costas estão geladas. Para a minha mulher ainda é pior, porque só apanha frio”, descreve.
QUANDO CHEGA A FESTA. António Chao diz não ter truques. Foram os anos que lhe ensinaram a técnica e só a experiência e umas pitadas de dedicação permitem garantir a qualidade. “As castanhas são fáceis de estragar, é preciso ter cuidado para as verificar”, assevera. E nestes dias não há mãos a medir. O cheiro a São Martinho também se sente em Macau. “Eu sei que no domingo se celebra a festa das castanhas. Temos mais clientes nesse dia. Compram para festejar com a família”, refere.
O tempo foi passando e António Chao tornou-se, pelo menos nas ruas de Macau, o único a manter uma das profissões que em Portugal caracteriza muitas ruas. E quando chega a altura “das quentes e boas” todos parecem querer provar. Até as autoridades locais. “O Governo também costuma encomendar-me castanhas para esta ocasião”, conta.
António Chao não é apenas um vendedor de castanhas, é também um apaziguador de saudades. “Costumo vir sobretudo na altura de São Martinho. Ajuda a matar as saudades”, confessa ao JTM Isabel. Ainda que considere que as castanhas em Macau não conseguem ser tão boas como as que se vendem em Portugal admite que permitem aquecer as memórias dos magustos lusos.
Para uma turista de Hong Kong não há dúvidas sobre o sabor. “Já não é a primeira vez que vimos aqui comprar. São mais saborosas do que em Hong Kong. Como gostei muito da última vez que estive em Macau, decidi voltar a comprar”, contou ao JTM Zamantha.
Enquanto os clientes vêm e vão António Chao e Lam Vun Peng continuam num rodopio. Entre Outubro e Março pouco os afasta dali. “Só paramos com o sinal número 8 de tufão”, desabafa António. E a história que o pai começou a escrever há 60 anos terá mais capítulos para contar. Foram muitas as páginas de imprensa e até os trabalhos escolares que se já centraram na vida da família Chao e António só pode prometer dedicação.
“Tenho mais três máquinas, porque aqueles técnicos que as faziam já não as podem fazer mais. Foi pensada pelo meu pai há 40 anos, então as pessoas que fabricaram já tem mais de 80, talvez”, referiu. E assim, Inverno após Inverno, a tradição permanecerá. “Vou continuar até não poder mais”. E até lá a festa prossegue entre crianças e adultos.

 


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