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  N°4149 (Nova Série), Sexta-Feira, 9 de Novembro de 2012
ESTUDANTES DE BERKELEY PARTILHAM MOTIVAÇÕES
Música atrai jovens para língua portuguesa

Numa das instituições de ensino superior mais prestigiadas do mundo, a Universidade da Califórnia em Berkeley, encontramo-nos com três jovens que estão a dar os primeiros passos na língua portuguesa. Foi a música que os levou até ao idioma luso. A curiosidade deu origem a uma paixão, que pode ser, segundo dizem, para a vida toda

raquel carvalho
na Califórnia

A música de Marisa Monte levou Hannah a procurar o significado de palavras. O sotaque espanhol de Roberto Carlos fez com que Rodolfo fosse procurar a língua materna do cantor brasileiro. Um disco da mãe de Marie despertou-lhe a vontade de compreender o sentimento que Cesária Évora expressava através de sílabas desconhecidas.
Todos eles nasceram na Califórnia, mas no sangue de cada um confluem diferentes mares. Hannah Beatriz é encontro de México e Cuba. Marie Lefebvre mistura de França e Filipinas. Rodolfo Saldanha traz o México no rosto, herança do pai e da mãe. Todos se encontraram com o português na Califórnia.
Marie, 20 anos, tem como línguas maternas o inglês e o francês. Já a fluência em espanhol veio com os anos de escola. Porque queria encher o espírito com mais idiomas, lançou-se nos caminhos do mandarim durante dois anos. “Mas era demasiado difícil, por isso, decidi regressar às línguas com base no latim”. Pensou em italiano, alemão e outros idiomas europeus. Foi um disco de Cesária Évora, companhia musical permanente em casa, que a despertou para a língua portuguesa. Desde então, passaram-se mais de dois anos de universidade, um acampamento em Minnesota com professores brasileiros e um curso de Verão.
O despertar para o idioma português também em Hannah Beatriz, 24 anos, aconteceu através da música. “Apaixonei-me por uma música brasileira e quis muito saber o seu significado”, recorda. Enquanto que Rodolfo Saldanha, 25 anos, ficou intrigado com o sotaque de Roberto Carlos, que cantava em espanhol e em português. “Comecei a fazer pesquisas na Internet e aí encontrei mais música, descobri literatura e paisagens, as praias do Brasil e o sul de Portugal. Fiquei a saber mais e a interessar-me pelos países de língua portuguesa”.
Rodolfo admite que sempre quis estudar História da América Latina e foi em Berkeley que encontrou um curso à sua medida. “Achei o enfoque muito interessante, porque oferecia estudos latino-americanos, que tinham como requisito o estudo de português e estudar num país estrangeiro que falasse português ou espanhol”. Antes disso, já tinha feito várias tentativas para começar a aprender português. “É muito difícil encontrar aulas. Procurei imenso até que encontrei uma professora. Paguei 60 dólares por três meses de aulas, mas depois as aulas foram canceladas. Isto foi antes da faculdade. Muitas aulas acabam por ser canceladas e outras são dadas com o enfoque no português e cultura do Brasil”.
Foi Berkeley a abrir-lhe as portas para a língua e para os segredos da cultura portuguesa. Há três semestres mergulhado nesse mundo, recorda oito semanas do último Verão que ainda o prenderam mais ao idioma. “Quando chegámos aos Açores, São Miguel, descobrimos um sotaque que não conhecíamos. Ficámos muito surpreendidos e também preocupados, porque parecia que não sabíamos falar português”, confessa Rodolfo, entre sorrisos.
Porém, durante o curso de Verão em Portugal, encontrou mais semelhanças do que diferenças. “Culturalmente acho-nos idênticos. A comida é semelhante, fisicamente acho que somos parecidos... até o clima é familiar. Quando cheguei a Portugal, senti-me como se estivesse na América Latina”. Rodolfo afirma ter notado “grandes diferenças entre Portugal e Espanha, a nível geográfico mas também nas pessoas, no modo de actuar”. Para o jovem estudante, Portugal está mais próximo da América Latina do que Espanha, apesar da língua. “O modo como as pessoas se tratam, o estilo de vida, a simpatia. Partilham o pouco que têm. Acho que os portugueses têm isso parecido com as pessoas da América Latina”.
PORTUGUÊS EM CADA CANTO. Surpreendente, para Marie, é a “predominância da língua portuguesa no mundo”. Cresceu na Califórnia, mas só depois de começar a aprender português é que se apercebeu da presença de uma forte comunidade. “Parece que em cada canto do mundo há falantes de português. Há muitas comunidades de portugueses e brasileiros no mundo inteiro e aqui também”.
As aulas de português também serviram para Rodolfo começar a ver a realidade de outro modo. “Há ligações entre Portugal e o resto do mundo que as pessoas não fazem ideia que existem. É muito interessante. Não sabia que ter aulas de português me daria uma perspectiva tão abrangente”. Por outro lado, ganhou asas para voar sobre um mundo ficcional sem barreiras. “Para mim é muito importante e interessante poder ler textos na língua de origem. Por exemplo, agora numa aula estamos a ler o ‘Ensaio sobre a cegueira’. Ter a possibilidade de ler o romance na língua em que foi escrito abre muitas portas e oferece imensas possibilidades”.
José Saramago conquistou tanto Rodolfo como Hannah e Marie, todos o referem como uma referência literária. Marie acrescenta ainda os nomes de Fernando Pessoa e de Florbela Espanca. Já Rodolfo salienta a lucidez de pensamento de Boaventura de Sousa Santos. Hannah salienta, por seu lado, a “ideia de fado e de tristeza” que sopra de Portugal, confessando que aprecia obras sem final feliz.
Apesar da dificuldade em aplicarem algumas regras gramáticas e da tentação de, por vezes, usarem palavras em espanhol ao invés de portuguesas, todos desejam que o futuro passe pelo idioma luso. “Se possível, gostava de dar aulas de português no ensino secundário ou universitário”, confessa Rodolfo, acalentando a vontade de, antes disso, estudar um ano em Portugal.
A Hannah agradaria um percurso semelhante. “Acho que gostava de trabalhar a nível académico. Mas ainda não conheço todos os países que falam espanhol e também não conheço muito bem os países que falam inglês. O meu plano é, por isso, aprender também outras línguas, embora queira melhorar o português”. Tanto ela como Rodolfo estão a preparar-se para em Janeiro partirem para o Brasil, onde ficarão um semestre. Depois de terminar o curso em Berkeley, “gostaria de fazer o meu mestrado em Portugal ou no México”, declara Hannah.
Marie espera que o seu futuro passe pelo sector privado. “Por exemplo, fazendo marketing para uma empresa do Brasil ou talvez para o Governo americano trabalhando no Caribe ou na América Latina, onde possa usar o francês, espanhol e português”.

 


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