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  N°4025 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 15 de Maio de 2012

LONGA-METRAGEM INSPIRADA NA OBRA “AMOR E DEDINHOS DE PÉ” ESTREOU HÁ 20 ANOS EM MACAU
Filme de amor sem açúcar

Aquela Macau de papel e memórias estava de repente na tela. Caras conhecidas do território misturavam-se com actores vindos de outros pontos do globo. Ruas e monumentos surgiam como cenários do início de século XX. Henrique de Senna Fernandes assistia da plateia à história que ele, na quietude das noites quentes, tinha criado. O filme “Amor e Dedinhos de Pé” de Luís Filipe Rocha estreou em Macau há 20 anos. Revivemos aquela noite no antigo “Complexo Escolar” e recordamos impressões sobre uma longa-metragem, que suscitou o aplauso de uns e a desilusão sentida de outros

raquel carvalho

Havia um malandro, bem parecido, que gozava da vida e de quem nela habitava. Uma jovem, nem bonita nem formosa, “Varapau de osso”, olhada de viés pelos rapazes. Sem proposta de casamento no parapeito da janela nem serenatas de conquista aos ouvidos. O safado e a mulher de que falamos encontraram-se na obra “Amor e Dedinhos de Pé” de Henrique de Senna Fernandes, em 1986, e reencontraram-se há 20 anos no filme de Luís Filipe Rocha. Numa adaptação livre, o realizador português leva à tela a história de Francisco Frontaria e de Victorina Vidal. O filme granjeou reacções positivas entre a comunidade local, mas Henrique de Senna Fernandes carregaria para sempre a mágoa de um final que era para ele “impensável”.
Foi em inícios de Maio de 1992 que os olhos de Macau viram, pela primeira vez, a longa-metragem “Amor e Dedinhos de Pé”. Uma “discreta estreia”, descrevia o Jornal de Macau, em sala pequena, mas bem composta. O auditório do “Complexo Escolar” – hoje Instituto Politécnico de Macau – seria o local escolhido, depois de prolongadas indecisões políticas e sem a presença do realizador. “O que se compreende mal – e certamente ninguém vai explicar – é qual a razão pela qual se minimizou a apresentação de uma obra em que Macau investiu (...) mais de uma dezena de milhões de patacas”, podia ler-se no jornal da época.
Numa noite de calor e humidade pachorrenta, Henrique de Senna Fernandes ignorava conflitos atrás do pano, imerso em emoções e expectativa. O ecrã abria-se e a história imaginada em inícios do século XX começava a rolar ao vivo e a cores. O escritor assistia às suas personagens a ganharam vida própria. Entre a cidade cristã e a cidade chinesa. Entre o escárnio e a justiça. Entre o gozo e a desgraça.
Embora Francisco Frontaria, interpretado por Joa-quim de Almeida, e Victorina Vidal, no corpo da actriz Ana Torrent, andassem por esse imaginário bordado por Henrique de Senna Fernandes, o rumo de semelhantes vidas seria bem diferente das linhas cosidas pelo escritor macaense. A página de jornal que relatou a novidade já augurava múltiplas sentenças entre a comunidade local.
“Alguma desilusão poderão ter tido os que tendo apreciado o romance que inspirou a película, esperavam que lhe seguisse fielmente a trama. Longe disso”, descrevia o jornalista João Fernandes, a quem o filme agradou. Ao contrário da maioria das longas-metragens portuguesas, aquela era até “imagine-se... – bem agradável de ver”. Elogiou-lhe a “excelente fotografia”, com a assinatura do galardoado Eduardo Serra, as “interpretações correctas”, em “alguns casos, acima da média” e o “som escorreito”.
Percepção bem distinta vinha de outra cadeira e outro coração. Durante duas horas, Henrique de Senna Fernandes navegou num mar revolto, segundo lembra o filho Miguel. “O meu pai estava muito emocionado. Com aquela sensação de que algo estava a acontecer baseado na sua obra”. No entanto, embora uma maré de orgulho lhe invadisse a alma, a viagem culminaria num atracar estremunhado. “Estava muito comovido e contente, mas ficou frustrado, porque o filme não ia ao encontro das soluções que ele tinha para a história”. A verdade é que o escritor macaense “nunca gostou muito” daquele neto, fruto de uma adaptação livre, feita por Luís Filipe Rocha e Izaías Almada.
“Como é que é possível?”, perguntava interiormente Henrique de Senna Fernandes. Para o autor do livro, aquele desfecho cinematográfico era “impensável”. “É uma interpretação machista da história. Para a sociedade de Macau não havia cabimento. Ele ficou sempre com isto na cabeça”, conta Miguel de Senna Fernandes ao JTM. O filho concorda com a análise do pai. “O eixo da obra dele é a mulher. O homem é sempre o reles bonitão, que gosta de grandes conquistas, mas que acaba por cair em desgraça e quem o resgata é sempre a mulher”. Na película, Francisco Frontaria, que depois ganha o nome de “Chico-Pé-Fede”, quebra esta lógica. “A partida dele é uma ingratidão para a mulher”.
Henrique de Senna Fernandes riu e sorriu naquela noite, mas com ele permaneceu “uma ponta de mágoa”. “Sempre lamentou isso”, recorda Miguel. O final aberto daquela história que ele tão bem conhecia era uma crueldade. “Ele achava que tinha de haver sempre um final justo e, na maioria, as suas histórias acabavam bem. Ele era benéfico para as personagens, até porque era um homem optimista por natureza”. No entanto, o brasileiro Izaías Almada entendia que esse desfecho mais doce e desejado pelo macaense seria “demasiada água com açúcar”, afirmou na altura da estreia.

Um filme “à moda Lisboa”

O desagrado de Henrique de Senna Fernandes não se ficou pelo destino que “Chico-Pé-Fede” e “Varapau de Osso” tomaram, mas também pela Macau pintada na película. “Na opinião dele, as cores de Macau não tinham sido bem interpretadas, era tudo muito escuro, a luminosidade da cidade não estava lá...”, recorda Miguel. “‘Não sei porque é que ele quis fazer uma Macau tão escura’”, desabafava Henrique de Senna Fernandes. Segundo o filho, “os tons de Macau não eram aqueles que ele conhecia e com que cresceu. Faltavam os amarelos, o sol, o campo aberto”.
Já Carlos Marreiros, que na altura era presidente do Instituto Cultural – organismo que financiou grande parte da longa-metragem – lembra-se de ter ficado tocado pela “belíssima fotografia e captação dos sombreados de Macau”. De “um bom filme” que prima pelo “rigor”, o arquitecto critica apenas a má pronuncia macaense, embora o “elenco fosse de luxo” e as personagens principais fizessem uma “boa interpretação”.
Miguel Senna Fernandes lamenta, por seu lado, que personagens secundárias, mas “fundamentais”, como Pablo ou Gonçalo Botelho (padrinho de Victorina Vidal), “tenham sido desprezadas e mal retratadas”. Ainda assim, diz, “todos os actores eram bons, embora alguns talvez não fossem os ideais para as personagens. Em alguns momentos parecia que aquilo nada tinha a ver connosco, enquanto macaenses”. O advogado e também escritor afirma, no entanto, aceitar as opções e a visão do realizador. “Temos de respeitar a interpretação do outro”.
Também José Maneiras sentiu a falta do ambiente de Macau, que havia sido “muito bem descrito no livro”. “O cineasta interpretou o romance de Henrique de Senna Fernandes à moda Lisboa, pensando num público mais vasto”, entende o arquitecto. A linguagem usada, recorda, foi o que mais o desagradou. “Fiquei um pouco chocado com uns palavrões à moderna, Macau era muito conservador naquela altura e essas palavras eram muito improváveis”.
Se fez um retrato fiel da época, Luís Filipe Rocha, afirma, em entrevista ao JTM, que não faz a “mínima ideia”. “Não vivi em Macau no final do século XIX, mas sim no final do século XX. O ‘retrato’ da realidade é sempre o que a história que se quer contar pede e determina”. O que o preocupa em cada filme, acrescenta, “é apenas contar bem uma boa história, não é retratar ‘a realidade’ passada, presente ou futura”.
Quanto às críticas ouvidas, o realizador de “Adeus, Pai” (1996) ou “A Outra Margem” (2006) diz encará-las como encara sempre todas as opiniões sobre os seus trabalhos. “Com muita curiosidade, atenção e respeito”, mas “também (e felizmente!) com a consciência de ter feito o filme que eu, seu autor, quis fazer”. O espectador mais exigente e mais crítico, garante, é ele próprio. “É só com a minha própria opinião crítica que lido sempre menos bem”.

O património como cenário

Quando o filme estreou, Anabela Ritchie tinha sido recentemente escolhida para presidente da Assembleia Legislativa. A memória faz-se vaga, embora seja presente “a reacção positiva da maior parte das pessoas. Na generalidade, gostaram de ver o filme, apesar de algumas terem ficado desiludidas com o final”. Do ponto de vista pessoal, Anabela Ritchie entende que a longa-metragem “conseguiu transportar para a tela a dinâmica da trama e o processo de transformação das personagens, bem como as diferenças entre a cidade cristã e a restante cidade”.
Em palavras descreve as cenas no salão nobre do Leal Senado e aquela em que surge o seu amigo Henrique de Senna Fernandes, no Teatro D. Pedro V, usado como salão de baile. “Muita gente que conhecíamos entrava no filme e os espaços também eram conhecidos”. Tudo soava a próximo e a familiar. Luís Filipe Rocha não se recorda ao certo do número de intervenientes do território. “Quanto a participantes locais (maioritariamente de Macau e alguns de Hong Kong) não posso precisar, mas entre actores e figurantes eram várias centenas”. Se a isto juntarmos “técnicos, colaboradores directos e indirectos, o total terá ultrapassado as seis ou sete centenas”, recorda o realizador português.
Foi no início do Outono de 1990 que a equipa de Luís Filipe Rocha começou a agitar as ruas do território. As filmagens que decorreram entre 15 de Outubro e 30 de Dezembro do mesmo ano encontrariam inusitados entraves, próprios de um Oriente longínquo e de uma produção quase babilónica. Como recorda o realizador, as dificuldades sentidas foram “todas!”.
“Desde logo as organizativas, financeiras, técnicas e artísticas que derivam de uma co-produção internacional, entre Macau, França, Espanha e Portugal, cuja principal etapa de realização - a rodagem - decorreu num local completamente excêntrico à produção cinematográfica”. Depois, houve o trabalho artístico e técnico realizado com actores, técnicos e responsáveis artísticos de diversas nacionalidades e culturas. “No ‘plateau’ falaram-se sete línguas diferentes”. E, finalmente, existia a enorme dificuldade de reconstituir “visual e culturalmente uma cidade soterrada pela ‘modernidade’ do século XX: a Macau do fim do século XIX”.
José Maneiras lembra-se precisamente dessa busca de “ambientes adequados”. “O salão nobre do Leal Senado foi adaptado. Durante uns tempos, esteve ocupado por luzes, andaimes, música...”. Já o silêncio do pavilhão do Jardim Lou Lim Ioc foi interrompido para se transformar num salão de chá. Ofuscar a contemporaneidade das ruas, visível em pequenos detalhes como placas ou anúncios publicitários, foi outro dos desafios. “Em algumas zonas foi colocada terra no chão e muitos planos ficaram condicionados porque era necessário esconder alguns pormenores que revelavam a época de rodagem”, descreve Carlos Marreiros.
Luís Filipe Rocha, na opinião do arquitecto, “foi muito rigoroso na escolha e uso de cenários de Macau. Com o património a ser sempre opção”. Segundo afirma, “devemos defender o nosso património/legado, mas tendo uma visão contemporânea. E este é um filme contemporâneo”.

Regresso improvável

A mala de Luís Filipe Rocha, que viveu em Macau entre Setembro de 1985 e Janeiro de 1992, partiu repleta de peripécias. Tantas que o realizador não é capaz de particularizar nenhuma. Da passagem pelo território confessa ter levado “uma experiência de vida”. Essa experiência, “em alguns aspectos a mais rica e a mais feliz de todas as que vivi, não só foi decisiva para a feitura do filme como dele constitui a parte, para mim, mais significativa”, revela.
No entanto, um regresso ao território para um novo filme parece-lhe improvável. “Não tenho nenhum projecto de filme para Macau. Acredito na máxima de que não devemos procurar de novo a felicidade num local onde já fomos felizes.” “Amor e Dedinhos de Pé” arrancaria aplausos no território, mas também além fronteiras. Esteve em cartaz no Cineteatro. Hoje em dia, é praticamente impossível comprar uma cópia do filme, mas não está prevista qualquer reedição. “Tanto quanto sei o produtor não pondera tal hipótese”, explica Luís Filipe Rocha.
O que o havia feito arrancar para esta aventura pelo desconhecido foi a “inexistência de uma memória cinematográfica de um convívio cultural e civilizacional de quase cinco séculos”. Quebrou a ausência e o silêncio. Levou as imagens de Macau até diferentes ecrãs. Com amor, dedinhos de pé e menos açúcar do que alguns desejavam. Mas a seu gosto.

PERFIL: Luís Filipe Rocha

Luís Filipe Rocha, natural de Lisboa, onde nasceu em 1947, é um cineasta que – segundo os críticos – se insere na linha do Novo Cinema. De acordo com a sua biografia oficial, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa (1971). Mas antes disso, na década de 60, já integrava o Cénico de Direito como actor, assistente de direcção, dramaturgo, tradutor e produtor. Exila-se no Brasil em 1973, período durante o qual colaborou na área teatral com Izaías Almada. É como assistente de realização e documentarista que inicia em 1974 a sua actividade cinematográfica, dando à luz, dois anos depois, a obra de estreia: “Barronhos - Quem Teve Medo do Poder Popular?”. Seguiu-se “A Fuga” (1976), “Cerromaior” (1981), “Sinais de Vida” (1984) e “Amor e Dedinhos de Pé” (1992). Luís Filipe Rocha realizou depois “Sinais de Fogo” (1995), o êxito de bilheteiras “Adeus Pai” (1996) e “Camarate” (2001). Em 2003, “A Passagem da Noite”, protagonizado por Leonor Seixas, arrecadou o Prémio de Melhor Filme e Argumento no Festival de Olympia (Pyrgos, Grécia). O último trabalho foi “A Outra Margem” (2007), premiado em festivais de cinema do México e Canadá.

“A Trança Feiticeira” em série televisiva

O livro “A Trança Feiticeira”, escrito por Henrique de Senna Fernandes e que chegou à tela de cinema em 1997, deverá ser agora transformado em série televisiva. “Os produtores do filme estão a pensar fazer uma série de televisão para a China continental e depois para Macau”, revela Miguel de Senna Fernandes ao JTM. Por enquanto, ainda não existem datas para o projecto avançar nem outros detalhes. No entanto, “também já falámos numa reedição nem que seja limitada do filme”, acrescenta o filho do escritor macaense falecido em 2010. A trama da obra “A Trança Feiticeira” gira em torno da intolerância provocada pelo amor entre um jovem rico de origem portuguesa e uma rapariga chinesa com poucos recursos financeiros.

R.C.

 


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