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  N°3933 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 20 de Dezembro de 2011

Um império à deriva

O escritor e jornalista Baptista-Bastos fez, nas páginas do DN (14 12 2011), uma pergunta difícil de ser respondida: “Quem está por detrás de Merkel?” Não se trata de uma pergunta retórica, mas de um questionar sério, daqueles que se fazem quando a única certeza que nos anima é a de não termos certezas, apenas hipóteses de trabalho. Gostaria de ensaiar mais uma hipótese de resposta: Merkel representa uma ideia de Europa que se estiolou, que foi superada pela força das coisas, sem disso se ter apercebido. Representa uma Europa que avançou para o euro, não pensando ser este um instrumento para uma União política e uma verdadeira identidade europeia, mas como um mero contrato de acesso a dívida barata no mercado financeiro global por parte de Estados, bancos e grandes empresas, uma espécie de “cartel de devedores”, usando uma expressão certeira do economista Jean-Jacques Rosa.
Na verdade, entre 2002 e 2010, o euro foi muito mais longe do que a facção política a que Merkel pertence, poderia supor. O euro fez parte de uma vaga de aprofundamento das cumplicidades e afinidades entre as nações, as empresas, os cidadãos europeus. Não são apenas os alunos Erasmus que se cruzaram por todas as Universidades, ou o turismo que, com o euro, se transformou em turismo interno. São também as empresas e os mercados, que se mesclaram, que se entrosaram ao ponto de já ninguém saber onde começa ou termina a nacionalidade do capital, material e humano, de muitas empresas. A crise da dívida soberana não começou quando se descobriu que um governo conservador grego falsificava as contas públicas (a novidade seria que tal não tivesse ocorrido), mas quando Merkel gritou aos mercados, durante cinco meses, o artigo 125 do TFUE (que impede o resgate de países endividados, na lógica do “cartel da dívida”). Nessa altura, a confiança perdeu-se. Dos mercados, na Zona Euro. Dos países europeus, uns nos outros. Dos bancos entre si. Dos cidadãos, nos seus sistemas políticos e na ideia europeia (cada vez mais identificada com austeridade imposta).
O império de Merkel, como Baptista-Bastos bem sugeriu, não se confunde com a sociedade alemã, que parece desejosa de a colocar na Oposição. É o império de uma facção política, transversal a todos os países europeus, que quer manter a Europa dentro de baias limitadas, onde julga poder exercer o seu poder. O seu projecto de uma austeridade infinita e irracional traduz um desejo de punir povos que ultrapassaram os limites de controlo, que a moeda comum acabou por sacudir. Mas também um desejo de regresso e regressão, como se pode verificar por esse espantoso escândalo que é o comunicado final do Conselho Europeu de 9 de Dezembro. Uma violação dos Tratados e da tradição democrática ocidental, pelo menos desde a Bill of Rights inglesa de 1689, e do “no taxation without representation”, da Revolução Americana de 1776. O império, paroquial e provinciano, de Merkel - que quer continuar a alimentar a sua dívida a taxas favoráveis - não transporta nenhum futuro para a Europa, mas pode arrastá-la para o pior do seu passado. Por isso não a podemos temer, nem a devemos subestimar.
JTM/DN


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