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  N°3933 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 20 de Dezembro de 2011

A dívida e a culpa

Vivemos acima das nossas possibilidades”, é a frase que mais se ouve, quando se pretende caracterizar a situação actual. Ela sintetiza um processo em que a dívida se teria progressivamente instalado no nosso quotidiano, até atingir as consequências que só agora, em termos colectivos, começamos a saber avaliar.
É um facto que o cocktail do dinheiro fácil se tornou num hábito induzido pela dupla ilusão de uma torneira europeia a jorrar cerca de 8 milhões de euros por dia, e de uma banca ávida e descontrolada que oferecia meios para tudo. E que ambos convergiram numa política cada vez mais tentada pela amplificação mediática e dócil de todas as promessas e de todos os anúncios, sem cuidar de garantir investimentos que gerassem, para lá das miragens, efectiva riqueza.
Criaram-se assim as circunstâncias em que a tão proclamada aposta na “modernidade” pareceu a muitos uma evidência, apesar do seu persistente vazio - ou talvez por causa dele! Só o tempo acabaria por revelar os seus pés de barro e os pesados equívocos que ela alimentava, deixando o País de novo sem meios, mas também sem ilusões. Foi então que muitos descobriam que a obrigação de pagar as dívidas não era, propriamente, uma “ideia de criança”... Sobretudo porque se tratou de “gerir” uma dívida galopante sem poupança interna, isto é, internacionalizando-a massivamente, acabando assim por a tornar tão invisível como potencialmente ilimitada, e tão irresistível como fatal.
Mas quando se repete que “vivemos acima das nossas possibilidades”, não se está só a apresentar uma análise económica, valha ela o que valer. Está-se também a assumir um juízo moral, e um juízo moral que historicamente sempre acompanhou o fenómeno da dívida. Porque a dívida instalou-se na cultura ocidental, e de um modo cada vez mais constante e avassalador, desde que se privilegiou de um modo absoluto a relação com o futuro, concebendo-o como um horizonte que acolhe e compatibiliza todas as promessas e expectativas, por mais contraditórias ou inviáveis que fossem.
Foi isso que, antes de todos, percebeu Nietzsche, o mais visionário dos filósofos do século XIX. Foi no segundo ensaio do seu livro A Genealogia da Moral, de 1887, que ele perspicazmente sugeriu que a sociedade não resulta da troca económica (como pensaram A. Smith ou K. Marx), nem assenta na troca simbólica (como viriam a defender as perspectivas antropológica ou psicanalítica), mas que ela se organiza a partir do crédito. Ou mais precisamente, da relação credor-devedor.
A grande intuição de Nietzsche foi a de que é a assimetria entre o crédito concedido e a dívida assumida que, desde os seus primórdios, está no fundamento de toda a vida social, antes mesmo da produção e do trabalho. Destacando a proximidade, em alemão, entre o conceito de dívidas (Schulden) e a noção de culpa (Schuld), Nietzsche defende que a chave da organização da sociedade se encontra na sua capacidade para fabricar homens capazes de prometer, e nos seus múltiplos mecanismos para obrigar a honrar as promessas feitas. Teria sido esta a origem da memória, que seria o lugar do mais remoto aparecimento da consciência individual, e nomeadamente dos sentimentos de medo, de má consciência ou de culpabilidade. De uma culpa que, como um dia escreveu Agustina Bessa-Luís, se viria a tornar paradoxalmente excitante.
Deixando de lado os detalhes destas fascinantes intuições de Nietzsche, é contudo impossível não ver aqui uma perspectiva antecipadora do que viria a ser o extraordinário poder na dívida nas sociedades contemporâneas. Um poder que consiste não só em estabelecer os parâmetros de todas as opções individuais - a liberdade alargar-se-á sempre, na proporção do crédito!... -, como em constituir, através da hiperbolização da culpa, a forma suprema do condicionamento individual e colectivo.
Acontece que, se assim for, é toda uma visão do mundo (e particularmente da distinção entre as esferas da economia real e da finança) que é preciso pôr em causa. Com a vantagem, note-se, de se começar logo a perceber melhor o porquê da persistência da crise...
JTM/DN


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