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  N°3666 (Nova Série), Quinta-Feira, 27 de Janeiro de 2011
figuras de jade
Fernando Lara Reis

(...) “Lara Reis integra-se em todas as colectividades e agremiações que então existiam em Macau, numa fraternidade socializadora e com contornos cívicos e humanistas. Estava em todas porque todas representavam Macau, todas eram Macau.”

António Aresta*

O Capitão Fernando Lara Reis (1892-1950) foi uma das figuras marcantes dessa larga elite do professorado que serviu no Liceu de Macau ao longo dos decénios. Foi um activo precursor da escola igualitária, democrática e inclusiva, com uma genuína preocupação com a formação integral do alunos.
Natural de Leiria, a sua formação fez-se no Colégio Militar e na Escola de Guerra, designada posteriormente como Academia Militar. Em 1915, como oficial de infantaria, faz uma comissão de serviço em Angola. Em 1917, já tenente e adido à recém formada estrutura da aviação militar, parte para França, integrando o Corpo Expedicionário Português, para combater na primeira grande guerra. Sofre um acidente com o avião militar e é internado no Hospital Militar de Paris. As lesões sofridas incapacitam-no para o serviço activo. É promovido a Capitão e passa à reserva em 1918.
É nomeado Professor Efectivo do 9º Grupo (Desenho e Trabalhos Manuais) no Liceu de Macau, em 1919, que será a escola de toda a sua vida, com a ressalva dos anos da Segunda Guerra Mundial em que leccionará em Goa, no Liceu Afonso de Albuquerque. Não fica, nesse ano, seguramente, indiferente à capitulação da Alemanha pelo Tratado de Versalhes, que coloca um ponto final na primeira Grande Guerra.
O Liceu de Macau tinha então 37 alunos e quando se apresenta, o Reitor era Humberto Severino de Aguiar, recém-empossado após o mandato de Mateus António de Lima. Em 1919 Macau e as Ilhas perfaziam 12 km2, um pequeno cosmos, como bem se percebe. O Bispo era D. José da Costa Nunes e o Governador, Henrique Correia da Silva. No Liceu, já lá estavam Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, Carlos Borges Delgado ou José Ferreira de Castro.
Monsenhor Manuel Teixeira, na importante monografia que dedicou ao Liceu de Macau, refere o seguinte: “nós, que vimos acompanhando a vida do Liceu desde há cerca de 50 anos e que vasculhamos todo o seu arquivo, não encontramos ainda um professor que tenha servido a sua escola com tanta dedicação como Lara Reis. É que ele não se limitava às suas funções de professor competentíssimo de desenho (…) A sua dedicação levava-o a tomar muitas outras iniciativas, sempre a bem dos alunos: exposições escolares anuais, em que ele sabia despertar o estímulo dos alunos e o interesse do público; festas e récitas frequentes, excursões culturais a Hong Kong, ‘picnics’ às ilhas, etc.”.
Esta dedicação exclusiva, uma doação permanente à causa da educação e da formação extra-curricular é apreciada pela comunidade e pelos seus pares e reconhecida pelos seus alunos. Da sua formação militar traz a disciplina, a ordem, a objectividade e o método que aliará à cultura da razão prática e ao saber profissional, guindando, desse modo a cadeira que lecciona de uma zona secundária e residual para um nível de plena paridade com as demais áreas do saber.
Os programas e as respectivas instruções pedagógicas, que então leccionará, poderemos vê-los no decreto-lei nº 6132 de 23 de Dezembro de 1919, que a Imprensa Nacional de Macau só publicará em 1922. Curiosamente, um sinal da grande instabilidade política então vivida, está no facto de a primeira parte desse decreto ter sido assinada em 26 de Setembro de 1919 pelo Presidente João do Canto e Castro, e a segunda parte, assinada em 30 de Dezembro de 1919, pelo Presidente António José de Almeida…
Esta capacidade pedagógica inovadora, que a documentação guardada no seu arquivo pessoal poderá certamente documentar, tornou-o popular entre os alunos que o reconheciam como um Mestre exigente.
Este pormenor não escapou a um antigo aluno, Hugo do Rosário, que diz,“recordo-me de um grande professor que nós tivemos, o Dr. Lara Reis, Professor de Desenho e de Trabalhos Manuais. No fundo da sala de aulas havia um dístico, no alto, que dizia ‘Quem Não Entende a Arte, Não a Estima’. Aprendemos a técnica do desenho sob várias perspectivas. Ele tinha um sistema pedagógico fantástico. E era um homem de muitos talentos”.
Alberto Maria da Conceição escreveu em 1944 sobre a Associação Escolar do Liceu, estas palavras comovidamente luzidias: “quem poderá jamais olvidar as festas de Natal, em que se distribuíam ricos brinquedos aos caloiros, do carnaval, em que se observava uma miscelânia de pitorescos fatos carnavalescos, e do ‘fim do ano’ em que se apresentava o Orfeão, se representavam peças e se liam trabalhos feitos pelos próprios alunos e finalmente se distribuíam prémios aos vencedores dos torneios realizados durante o ano escolar?”. A alma de tudo isto era Lara Reis, concluiu, e bem, Monsenhor Teixeira.
Lara Reis integra-se em todas as colectividades e agremiações que então existiam em Macau, numa fraternidade socializadora e com contornos cívicos e humanistas. Estava em todas porque todas representavam Macau, todas eram Macau.
Fundou a Liga dos Combatentes da Grande Guerra e providenciou a construção de um Ossário-Monumento dos Combatentes no Cemitério de S. Miguel.
Viajante cosmopolita, chegou a conversar com Mahatma Gandhi em Nova Deli, conseguia trazer essa mundivivência para dentro da sala de aula, enriquecendo sobremaneira a transmissão dos conhecimentos. José Maneiras, antigo aluno, lembra-se bem: “mas distingo o Professor Lara Reis por ter sido um professor excepcional, um homem eclético, mal humorado, mas com um grande coração. Era um solteirão muito viajado e muito organizado. Preparava as suas viagens ao longo do ano e durante as férias desaparecia por três meses. Nas aulas era um espanto ouvi-lo falar sobre o que ele conhecia acerca do mundo”.
Joaquim Morais Alves reteve a sua rigidez militar e a alcunha de “chega-me isso”, dada pelos alunos.
Já Leonel Barros enfatiza outra vertente: “havia um professor de desenho, muito metódico, chamado Lara Reis, a quem recordo como amigo e não como professor. Quando pintávamos, dizia-nos que o pincel só se podia limpar com a língua e tentava convencer-nos que aquilo não matava ninguém. Não nos deixava lavar o pincel sem ser com a língua.(…) Quando eu estou a desenhar, limpo sempre o pincel com a língua. A culpa de proceder desta forma foi de Lara Reis. (…) Eu aprendi muita coisa com ele, no que diz respeito também ao desenho gráfico”.
O trabalho que realizou, que coordenou ou que os alunos executaram sob a sua orientação está completamente perdido. Monsenhor Manuel Teixeira explica-nos porquê: “No antigo liceu, na Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, ostentavam-se vários quadros da sua lavra e dos seus alunos, que eram dignos de apreço. Também havia projecções de pontos, segmentos e polígonos nos vários quadrantes, feitos por ele com madeira, alfinetes, arames e linhas, que muito auxiliavam os alunos nos seus estudos. Infelizmente, quando em 1958, o Liceu passou para o Porto Exterior, tudo isso foi atirado para o lixo. Todas ou quase todas as exposições de artistas tanto portugueses como estrangeiros, realizadas em Macau, no seu tempo, foram da sua iniciativa ou patrocinadas por ele”.
Lara Reis foi benemérito e filantropo até ao fim.
O Arquivo Distrital de Leiria acolheu os manuscritos, mais de 32 volumes dos “Diários de Viagem” e “A Minha Vida”, um rico espólio que tem sido minuciosamente estudado por Acácio de Sousa e por Orlando Cardoso.
A casa de seus Pais, em Redinha, foi doada em 1941 e reconvertida em Escola Primária.
A sua casa em Macau foi doada à Santa Casa da Misericórdia, tendo o Rotary Clube de Macau nela instalado a “Clínica Anticancerosa Lara Reis”.
Reabilitando a memória de ilustres leirienses, a historiadora Celina Veiga de Oliveira fez uma conferência na Câmara Municipal de Leiria, no ano transacto, tendo evocado Graciete Batalha e Fernando Lara Reis, figuras gradas em Macau mas, infelizmente, quase desconhecidas em Portugal.
A história da educação de Macau não é assim tão rica ao ponto de se poder dar ao luxo de olvidar figuras como Fernando Lara Reis, pedagogo austero de grande rectidão moral e cuja memória ainda perdura nos seus antigos alunos.

* Docente e investigador.
Ex-residente em Macau.
Escreve neste espaço às quintas-feiras.

 


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