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  N°3639 (Nova Série), Segunda-Feira, 20 de Dezembro de 2010
tribuna
Um cientista em cada dez aldrabões

Por saber que a investigadora portuguesa Maria do Carmo Fonseca acaba de ser galardoada com o Prémio Pessoa e que vai investir o valor do mesmo galardão na compra de um microscópio para o Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, onde dirige uma equipa de 350 pessoas, lembrei-me da pouca importância que se dá em Portugal aos cientistas que temos e que ajudam a projectar o bom nome do País em todo o mundo.
Os cientistas portugueses são exemplares, mas pouco conhecidos e reconhecidos cá dentro. São gente dedicada, que trabalha com paixão horas a fio, sem qualquer outro interesse que o de ajudar a contribuir com soluções para os problemas que realmente importam à vida dos cidadãos. Por isso, é saudável ter em conta aquilo que dizem os cientistas. Lembro aqui, a propósito, uma entrevista do professor Sobrinho Simões, também distinguido em 2002 com o Prémio Pessoa, publicada recentemente na revista de domingo do DN e do JN. São julgamentos de um funcionário público, um trabalhador do Estado que é responsável pelo Instituto de Patologia e Imunologia Molecular, e que nada mais fez na vida que a investigação em prol do bem de todos. Não é um político, um empresário, um comentador ou um economista. É alguém que vê de fora a realidade do momento e que manifesta uma profunda desilusão com aquilo que vê e que sabe ser uma consequência do desleixo para o qual todos temos contribuído ao longo de décadas. São observações que vale a pena reter. Cito-o:
- “Admiramos o sucesso do aldrabão. Em Portugal não há censura social para a esperteza saloia nem para a corrupção a que passamos a chamar informalidade;
- Não perguntamos, não responsabilizamos, não exigimos, nem prestamos contas;
- A evasão e a fraude fiscal são duas das grandes marcas nacionais. A corrupção é outro crime sem castigo;
- A nossa tradição é empurrar os problemas com a barriga esperando que se resolvam por si. Quando as coisas dão para o torto somos injustos ou por excesso ou por defeito;
- Quem tem muito poder económico pode recorrer a expedientes e a mecanismos dilatórios que são usados de maneira desproporcionada. Quem não tem esse poder é totalmente vulnerável;
- Temos afecto pelo fulano que faz umas pequenas aldrabices, admiramos secretamente os grandes aldrabões, não punimos os prevaricadores. Na verdade somos contra a autoridade;
- Não temos cultura de avaliação. Fomos sempre muito bons a avaliar meios, mas nunca quisemos avaliar os resultados;
- Prefiro ficar sob o domínio da Europa do que ficar apenas entregue aos jogos políticos portugueses.”
Fim de citação.
JTM/DN


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