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  N°3639 (Nova Série), Segunda-Feira, 20 de Dezembro de 2010
China, Peregrinações 2
Com Sihanouk, príncipe do Camboja, em Pequim

 

 

 

Sihanouk e a sua mulher, Monique

Foi há um ror de anos, mas creio que ainda vale a pena recordar a história, até porque o príncipe Norodom Sihanouk, do alto dos seus 88 anos festejados a 31 de Outubro passado, continua vivo, embora doente e alquebrado, no seu palácio em Phnom Penh. É o “rei-pai” do povo cambojano, e muito admirado pelos chineses.
Em Fevereiro de 1979 tive a sorte de jantar duas vezes com Sihanouk, o senhor do Camboja que vivia então em Pequim no seu exílio prateado, dourado. Fiz depois um artigo para o “Diário de Notícias”, (eu era correspondente do jornal em Pequim) que transformei numa espécie de entrevista porque fui anotando num pequeno bloco tudo o que Sihanouk ia dizendo no decorrer do jantar.
Agora conto toda a história.
Eu trabalhava nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras, há quase dois anos. Em 1978 começara o kaifeng, a abertura da sociedade chinesa já com Deng Xiaoping como vice-primeiro ministro, e sentia-se alguma liberdade. Completamente free-lancer, sem autorização de ninguém, comecei a escrever para os jornais portugueses “Diário de Notícias” e “Expresso”, a enviar três crónicas por semana, pelo telefone, para a Rádio Macau e para a Rádio Difusão, Antena Um, em Lisboa. Falei nestas novas tarefas ao meu amigo Jaime Martins, brasileiro de Jundiaí, S. Paulo, filho de pai português, que trabalhava para os chineses na Rádio Pequim desde 1965. Também sem autorização de ninguém, o Jaime decidiu igualmente assumir-se como jornalista e começou a escrever para o Estadão, o jornal Estado de S. Paulo, um dos mais importantes do Brasil.
Foi na qualidade de jornalistas que enviámos uma carta, em francês, ao príncipe Sihanouk, solicitando uma entrevista conjunta Portugal-Brasil. Uma semana depois recebemos um telefonema de um dos assessores do ilustre cambojano, convidando-nos para jantar com Sihanouk na sua sumptuosa residência em Pequim. Lá fomos ambos, de fato e gravatinha, coisa que o Jaime já não colocava ao pescoço há uns bons vinte anos. Primeira surpresa, havia mais sete ou oito jornalistas, ingleses, norte-americanos, franceses. O príncipe, então com 56 anos, recebeu-nos à porta do seu palácio, de cabeça rapada por causa de um ritual budista que cumpria todos os anos, e um sorriso quase tão grande como a praça Tiananmen.
Afinal o jantar era dedicado à Imprensa Internacional sedeada em Pequim e Sihanouk avisou-nos no seu excelente francês, - a sua mulher, Monique, sempre presente era, é filha de pai francês e mãe cambojana -, com buchas em inglês, que não dava entrevistas a ninguém, mas como éramos jornalistas no decorrer do jantar podíamos fazer-lhe as perguntas que muito bem entendêssemos. E registar o que ele dissesse. Foi assim, num banquete repleto de iguarias, regado com champagne “francês”, made in China (os chineses fazem vinhos sofríveis, até champagne, há umas boas dezenas de anos) que fiquei a conhecer aquela, já na altura, mítica figura, exilado em Pequim desde 1970, a preparar-se para regressar ao seu infeliz Cambodja como rei, o que só se efectivaria em 1991.
Um mês depois do primeiro banquete, o Jaime Martins e eu recebemos novo convite do príncipe para outro jantar, também especialmente oferecido à Imprensa Internacional. Só o brasileiro e o português, eu próprio, eram os mesmos, todos os restantes jornalistas, uns dez, eram gente diferente.
E tal como da primeira vez, antes da opípara ceia, Sihanouk começou por nos mostrar o palácio onde vivia. Escondido por altos muros cinzentos, era o edifício onde funcionara a Embaixada da França, até 1949, no velho bairro das Legações Estrangeiras, quase no coração de Pequim. O príncipe elogiou os chineses que lhe proporcionavam condições para viver como um príncipe e acrescentava, “mais je suis un prince”, no exílio, mas um príncipe. Na Coreia do Norte, o seu amigo comunista Kim Il-Sung, mandara construir para o príncipe, de raiz, um palácio com sessenta quartos, onde ele passava parte do ano.
Fomos ver os seus luxos asiáticos, em Pequim. Uma enorme piscina interior aquecida onde ele dizia nadar todos os dias e depois instalámo-nos nas poltronas do seu cinema privativo onde Sihanouk nos mostrou os filmes que realizou (é um apaixonado pelo cinema), tipo documentário de propaganda, nos anos cinquenta e sessenta do século passado, quando o Camboja era, na sua opinião, “um reino próspero e feliz”. E, como os jornalistas eram todos homens, não se esqueceu de referir, com saber de experiência feita, os atributos físicos, a beleza da mulher cambojana. Sabe-se hoje que o “rei-pai” tem, pelo menos, catorze filhos de sete mulheres diferentes.
Em 2004, Sihanouk abdicou do trono a favor do seu filho Norodom Sihamoni que o pai considera o mais inteligente da prole. É o personagem vivo que, desde 1941, mais cargos políticos desempenhou, de rei a simples cidadão honorário, de ministro a conselheiro de Estado. Está por isso no Guiness Book of Records. Completou 88 anos e não terá muitos mais anos de vida pela frente, a não ser que volte a dedicar-se a uma das suas paixões, o cinema, e siga o bom exemplo do nosso Manoel de Oliveira.
* Docente, investigador e escritor.


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