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  N°3599 (Nova Série), Quinta-Feira, 4 de Novembro de 2010
figuras de jade
Joaquim Angélico Guerra

António Aresta*

O padre jesuíta Joaquim Guerra ( 1908-1993) é , verdadeiramente, um caso à parte no panorama da sinologia portuguesa, não só pela magnitude da obra que nos deixou, mas sobretudo pela metodologia inovadora que concebeu para resolver complexos problemas linguísticos, lexicográficos e de tradução literária.
Pelas lições da história vemos que tudo o que é iluminado pela centelha de génio só é tardiamente compreendido e estimado, e este caso não fugirá a essa regra, que a preguiça , a indolência e a inveja dos homens faz com que seja metódica.
Joaquim Angélico de Jesus Guerra, de seu nome completo, era natural da Beira Baixa, de Lavacolhos, perto do Fundão.
Em virtude da turbulência da primeira república, principalmente a questão religiosa com a perseguição ao clero e a expulsão dos jesuítas, os seus estudos religiosos foram iniciados no estrangeiro, em Espanha.
Entrou para os Jesuítas em 1925, em Oya, na Galiza. Vale a pena recordar algumas passagens de uma importante entrevista de cariz autobiográfico que concedeu ao Padre Henrique Rios dos Santos, SJ , no dia 29 de Dezembro de 1992 e publicada na revista ‘Asianostra’ , em Macau, corria o ano de 1994 : “No meio da minha vocação missionária é que veio a minha vocação para jesuíta. Quando me encontrava já no noviciado, a providência de Deus trouxe de Macau, também para jesuíta o Padre Pedro Hui, tio do conhecido advogado Philip Xavier. Foi ele quem me ensinou os primeiros rudimentos de cantonês”.
A vida continua sem sobressaltos, até ao momento de rumar ao Oriente, com destino a Xangai : “embarcamos no D’Artagnan II, com destino a Shanghai, juntamente com muitos outros missionários e missionárias. Em Singapura, na Missão Portuguesa, preveniram-me de que talvez não fosse mesmo para Shanghai pois era muito necessário um Professor de Filosofia no Seminário de Macau. E de facto, ao chegar a Hong Kong, o Padre António Maria Alves, SJ, homem dos cinco continentes, pôs-se-me de joelhos a pedir ajuda. E fiquei no Seminário de S.José dois anos a ensinar Filosofia, Matemática, etc.”.
O caminho para Xangai foi retomado em 1935, ingressando na Faculdade de Teologia de Bellarmino, ordenando-se em 1937. Para “além do óptimo ambiente internacional dessas pessoas devotadíssimas à causa chinesa e cristã, fui depois um ano para Pequim e Tientsin, para o Instituto Chabanel, estudar mandarim. Passei uns meses na Missão dos Padres Jesuítas Canadianos, onde me apanhou a grande cheia de Hopei e o começo da invasão japonesa”.
Puxando pela memória, recorda com nitidez : “Em plena Guerra, atravessando o campo de batalha, regressei a Macau para ensinar, uma vez mais Filosofia, por dois anos. Deixe-me contar-lhe só um episódio. A certa altura da viagem, desesperado, digamos, mais pela sede do que pela fome, pedi a uma mulher que estava a vender, para me preparar um chá. Mas, quando a vi buscar água no rio que eu via pejado de cadáveres e eu me encontrei a beber o chá assim preparado, é que pude avaliar como um homem em necessidade perde ou pode perder a sensibilidade”.
Esta vida aventurosa na China, ao serviço da missionação e da cultura e, porque não dizê-lo, representando Portugal, teve, também , um momento dramático e de grande aflição. Foi preso, sumariamente julgado e condenado à morte. Milagrosamente perdoado e solto. A barbárie comunista tinha e tem destas incongruências radicais. De qualquer modo, o seu testemunho pode ser lido e apreciado no livro “Condenado à Morte”, editado em 1963.
De novo em Macau, o padre Joaquim Guerra funda o “Colégio Estrela do Mar”, em 1955. A educação, a instrução e a transmissão de valores, eram realmente tarefas a que dedicava o melhor do seu tempo e da sua capacidade intelectual.
Aceitou o convite para leccionar a língua e a cultura chinesas em Lisboa, no Instituto Superior de Ciências e Política Ultramarina , da Universidade Técnica de Lisboa. Durante seis anos lectivos, aprofundou os seus conhecimentos e consolidou algumas ideias e intuições. Anteriormente, no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1960, tinha publicado um importante estudo “O chinês alfabético : solução adequada dum magno problema do mundo chinês”.
O desafio final viria mais tarde : “em Janeiro de 1973 a Editorial Verbo de Lisboa, pediu-me algumas traduções dos Clássicos Chineses para a sua Biblioteca Integral de Clássicos Mundiais (…) Correspondi com gosto. Pensei que a melhor maneira de o conseguir era com outros. E para isso tinha de regressar a Macau. Pedi a vários chineses e ao meu amigo Luís Gonzaga Gomes para nos lançarmos à tradução. Mas todos se negaram. Até o famosíssimo Cónego André Ngan, que escrevia como o Padre António Vieira, me respondeu : ‘ ah! esse chinês antigo não é para mim. Isso ultrapassa-me’. Não sei se era por modéstia ou se era por respeito à cultura chinesa”.
E o resto da história é conhecida. Ao longo de uma dúzia de anos, com perseverança, com estoicismo, com uma vontade inquebrantável, também com milagres para usar as suas próprias palavras, o padre Joaquim Guerra publicou em língua portuguesa a sua versão dos clássicos chineses. Esse plano editorial contou com o imprescindível apoio do Governo de Macau e com a generosidade de alguns particulares , como o Comendador Alberto Dias Ferreira ,que patrocinou a edição da “Prática da Perfeição” de Laoutsi.
Desse trabalho monumental, apenas cito os títulos seguintes : “Livro dos Cantares”, 1979 ; “Escrituras Selectas”, 1980 ; “Quadras de Lu e Relação Auxiliar”, 5 volumes, 1981-1983 ; “Quadrivolume de Confúcio”, 1984 ; “As Obras de Mâncio”, 1984 ; “O Livro das Mutações”, 1984 ; “A Prática da Perfeição”, 1987.
A recepção deste imenso labor na cultura portuguesa é imperfeita, silenciosa e lacunar, ás vezes mais parece que somos uma máquina em perpétuo esquecimento, sempre a recomeçar de novo, depois de tudo apagar.
Por ocasião do falecimento do padre Joaquim Guerra escrevi no jornal “Tribuna de Macau” , em 1993 ,um pequeno artigo evocativo da sua vida e obra. Dizia, então, que o seu passamento simbolizava o principio do fim da sinologia erudita portuguesa. Não me parecia viável, em termos conceptuais e metodológicos, que o pensamento estruturalista do padre Joaquim Guerra pudesse ser retomado e desenvolvido por terceiros. Não o foi . Outro Mestre sem discípulos.
Foram publicados alguns estudos importantes sobre a vida e a obra do Padre Joaquim Guerra, a saber : Jorge Bruxo, “Padre Joaquim Guerra , uma Biografia Intelectual”, Universidade de Macau, 2004 ; “Auto-Retrato do Padre Joaquim Guerra, SJ”, antologia de textos organizada por Jorge Bruxo, edição da Câmara Municipal do Fundão, 2008 ; Henrique Rios dos Santos, SJ , “Padre Joaquim Angélico Guerra, SJ , Um Globetrotter ao Serviço de Deus e da China”, edição do Instituto Internacional de Macau, 2008.
Os estudos biográficos renovam uma vida, são o renascimento de uma personalidade , dos seus valores e dos seus interesses. Para ensinar aos outros, que na sua versão da “Prática da Perfeição” (Daow-Tc Keq), LIII.226 , será um pouco este magno desígnio : “ apegue-me eu à Sabedoria, caminhando pela Grande Via, com o único receio de a abandonar”.

* Docente e investigador. Ex-residente em Macau.
Escreve neste espaço às quintas-feiras.

 


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