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  N°3549 (Nova Série), Quinta-Feira, 2 de Setembro de 2010
FIGURAS DE JADE
Manuel da Silva Mendes

“É a ocasião oportuna para se reabilitar a memória e o legado de Manuel da Silva Mendes, promovendo-se a edição da sua Obra Completa.”

António Aresta*

Manuel da Silva Mendes (1876-1931) é uma figura singular do pensamento português em Macau.
Professor e Reitor do Liceu, advogado de nomeada, coleccionador de obras de arte, cultor da filosofia taoista e com uma persistente intervenção cívica e política espalhada na imprensa de Macau, Manuel da Silva Mendes permanece, apesar de tudo, um desconhecido em Macau e também em Portugal.
Esse apagamento é um mistério, ou talvez não.
O embaixador Armando Martins Janeira falava nas figuras de silêncio quando se referia a personalidades esquecidas, como Luís de Almeida ou Wenceslau de Moraes. Esquecimento esse derivado do desleixo , da incúria ou da ignorância. Nas Escolas, por exemplo, hoje ensina-se uma cultura de plástico, descartável, adjectiva e envergonhada da História e das suas figuras maiores. Também, o ressurgimento da imagem de Camilo Pessanha muito ficou a dever ao meritório trabalho de Daniel Pires, justamente iniciado em Macau.
Bem instalado na sociedade de Macau, advogado de sucesso, (também advogou em Xangai), cujos proventos lhe permitiram a construção de uma casa apalaçada, deleitou-se com a formação de uma grande e diversificada colecção de arte chinesa, da qual era um apaixonado estudioso. Valiosa deveria ser, seguramente, a sua biblioteca particular.
Lá esteve empoleirado na varanda do Leal Senado, na cerimónia da proclamação da República Portuguesa, que em Macau ocorreu no dia 11 de Outubro . O governador era Eduardo Marques e lá estavam Camilo Pessanha, Álvaro Melo Machado, António Nascimento Leitão, Pedro Nolasco da Silva Júnior, entre muitos outros.
Em Macau, acompanhava angustiadamente a política portuguesa: “ anda no ar, ou melhor, dentro de todos nós um pressentimento de mau agouro não já para a República, mas para o país. Que isto não vai bem, não há quem o não sinta profundamente. A queda do último ministério foi sentida nesta colónia, não como uma crise ministerial, mas como uma crise nacional. Reata-nos a consolação, nesta colónia, de vermos que não há aqui quem não ponha de parte afeições partidárias, se as tem, até mesmo os desafectos à actual forma de governo, se os há, para olharem de preferência para a nossa existência nacional”. Estas palavras foram escritas em O Progresso , de 14 de Fevereiro de 1915.
Era assim que exercia a sua cidadania participativa, liderando a opinião pública, sistematizando os problemas com erudição e com cultura. Aqui e além, umas ferroadas anticlericais e um surpreendente humor. Por todas essas qualidades, era lido e muito apreciada a arquitectura lógica do seu discurso.
Divergindo em termos de ideias políticas , de concepções filosóficas, éticas ou estéticas de outras figuras da cultura portuguesa de Macau, tais como José Miranda e Lima (1782-1848), Leôncio Alfredo Ferreira (1849-1920) ou Camilo Pessanha (1867-1926), Manuel da Silva Mendes foi assumidamente um taoista, perfilhando essa singular ontologia de valores cuja espiritualidade faz de nós despojados seres morais .
Foi, ainda, o primeiro estudioso português da filosofia chinesa, sobre a qual publicou diversos trabalhos. Interessou-se também pela estética, pelas religiões , pela instrução pública e pela situação política chinesa.
Um ano após o seu prematuro desaparecimento, com cinquenta e cinco anos incompletos, o Encarregado de Governo, João Pereira de Magalhães, propôs à Família de Manuel da Silva Mendes a aquisição de tão valioso espólio a fim de dotar o Museu Luís de Camões.
Vale a pena recordar o que Manuel da Silva Mendes tinha escrito, em 1914, no jornal O Progresso , sobre o museu: “E temos um museu oficial em cujo recheio figuram como principal ornamento …. chifres de Timor ! “.
É claro que doravante tudo mudou. Devagarinho.
O Macau que temos e o Macau que conhecemos muito ficou a dever a este homem de cultura que acreditava no primado do espírito sobre a materialidade e no diálogo entre os povos.
A sua obra dispersa pela imprensa foi recuperada, parcelarmente, em três ocasiões bem espaçadas no tempo.
A primeira vez, pelo incontornável Luís Gonzaga Gomes que republicou no jornal Notícias de Macau, em 1962 e 1963, a maioria dos artigos que Manuel da Silva Mendes originalmente publicara em O Progresso , O Macaense, A Pátria , Jornal de Macau, A Voz de Macau, entre outros. Depois, reuniu tudo isso em três volumes, que intitulou , Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, em 1963 e 1964.
A segunda vez, no certame Quinzena de Macau, em 1979-1980, organizado por António da Conceição Júnior. Foram editados três pequenos volumes, tematicamente arrumados: Macau: Impressões e Recordações (organizado por Graciete Batalha), Sobre Arte (organizado por António Conceição Júnior) e Sobre Filosofia.
A terceira vez, em 1996 , a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude publica A Instrução Pública em Macau, com a organização e prefácio do autor destas linhas. Depois desta obra, Manuel da Silva Mendes entrou directamente para o monumental Dicionário de Educadores Portugueses, organizado por António Nóvoa, actual Reitor da Universidade de Lisboa.
Continua a ser imperfeito e difícil o conhecimento da obra completa de Manuel da Silva Mendes. Pela importância que ela possui para a história cultural, social e política de Macau e, ainda, o relevante contributo para os estudos orientais e sínicos, na área da filosofia , da estética ou dos estudos religiosos , justifica-se plenamente que se pondere a edição da Obra Completa de Manuel da Silva Mendes.
Dizia o Padre António Vieira, nos Sermões, que “são os livros uns mestres mudos que ensinam sem fastio, falam a verdade sem respeito, repreendem sem pejo, amigos verdadeiros, conselheiros singelos”.
2011 será oficialmente o Ano de Portugal na China, também o octogésimo aniversário da morte de Manuel da Silva Mendes.
É a ocasião oportuna para se reabilitar a memória e o legado de Manuel da Silva Mendes, promovendo-se a edição da sua Obra Completa.

*Docente e investigador. Ex-residente em Macau,
passa a escrever neste espaço às quintas-feiras.

 


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