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  N°3447 (Nova Série), Segunda-Feira, 3 de Maio de 2010
MANIFESTAÇÕES DO 1º DE MAIO FAZEM 41 FERIDOS
Reivindicações resvalam em confrontos

Se as manifestações servem para escutar as necessidades da população, do volume dos megafones ninguém se pode queixar. Já o mesmo não se pode dizer dos confrontos que causaram 41 feridos, três dos quais ficaram internados, segundo um balanço oficial

ANA RELVAS FRANÇA

No fim do dia de sábado, num pequeno cartaz em negro desbotado ainda se lia “o Governo discrimina os habitantes de Macau”. Esta foi apenas uma das muitas queixas feitas durante uma manifestação que arrancou do Jardim Triangular e terá juntado, segundo números das autoridades, cerca de 1.500 pessoas nas ruas de Macau por ocasião do Dia Mundial do Trabalhador, que este ano teve contornos menos pacíficos do que nas últimas edições.
Se no ano passado as manifestações decorreram sem problemas de maior, no sábado a polícia foi obrigada a cerrar fileiras ante as investidas de um grupo de entre 800 a 1.000 pessoas cujo objectivo era mostrar os motivos da discórdia em plena Avenida Almeida Ribeiro.
A Polícia de Segurança Pública (PSP) já tinha feito saber, em reuniões com as próprias organizações, que a artéria estava excluída dos itinerários disponíveis e que todas as concentrações que a tivessem como destino seriam consideradas ilegais. E foi isso que a PSP repetiu, também através de um megafone, durante horas, do lado de lá das fileiras que garroteavam a Rua Visconde Paço de Arcos.
Enquanto que a primeira metade da manifestação - que integrava um grupo de cerca de 700 pessoas, associadas em parte aos protestos organizados por operários e jovens - seguiu o seu percurso até à sede do Governo sem qualquer incidente, já a segunda metade foi encontrar à sua espera agentes da polícia de choque, barreiras metálicas, carros de bombeiros e da polícia equipados com canhões de água. Este segundo grupo era constituído por elementos da Associação de Aliança dos Conterrâneos de Guangdong, Associação de Construção e Armanção de Ferro e Aço de Macau-China e Associação Unida pelo Poder de Subsistência, entre outros.
Os confrontos mais sérios começaram um pouco depois das 15 horas quando os manifestantes ergueram em braços os separadores de metal que os acometiam do lado de cá. Por breves momentos, a multidão conseguiu mesmo ganhar terreno e a imagem da San Ma Lo a ser invadida por trabalhadores insatisfeitos chegou a passar pela cabeça de muitos.
Poucos minutos depois, os manifestantes começaram então a arremessar pedras, garrafas de plástico e vidro e outros objectos contra a polícia de choque – que se protegeu usando os seus escudos numa espécie de “formação em tartaruga”. Mediante a escalada dos confrontos, o camião cisterna foi mandado avançar e a multidão foi dispersada com jactos de água.
Enxurradas de água, com pressão variável, foram caindo como uma cortina sobre os manifestantes. Os feridos mais graves registaram-se nessa altura. Entre eles, estava Carmo Correia, fotojornalista da agência Lusa, que foi arremetida contra uma das colunas de um prédio por um dos jactos mais fortes da tarde, tendo sofrido ferimentos na cabeça e na face, uma laceração na testa, fractura do osso facial e concussão cerebral.
A fotojornalista acabou por ser internada, bem como um agente policial, que apresentava uma laceração dos lábios e concussão cerebral ligeira, e um manifestante, com mais de 60 anos, que sofreu uma concussão cerebral ligeira, segundo os Serviços de Saúde (ver caixa).
No fim de cada investida, o chão reluzia com o sol a bater e a tinta dos cartazes escorria pelas cartolinas florescentes. Depois da bruma dissipada, sempre a mesma visão: um mesmo homem magro, bandeira nacional desfraldada, encostado às grades da polícia e por isso intocado pela água que descrevia um arco quando era expelida.
No calor dos confrontos, foram relegadas para segundo plano muitas das reivindicações, como as apresentadas pela Associação Unida pelo Poder de Subsistência dos Trabalhadores, que levou para a marcha fotografias ampliadas de páginas de jornais com trabalhadores em protesto e uma de Shuen Ka Hung, director dos Serviços para os Assuntos Laborais, marcada com um “X”.
“Queremos que seja dado emprego a toda a gente que é de Macau e que se fiscalize de uma vez a entrada de força de trabalho ilegal. Queremos também que Francis Tam cumpra a sua promessa de dar um subsídio aos desempregados”, salientou ao JTM Lee Sio Kuan, membro daquela associação.
Das reivindicações constava ainda outro alerta: “Chui Sai On prometeu as casas [19 mil fracções até 2012] e queremos ter a certeza que não se esquece”.
JUSTIFICAÇÕES E CRÍTICAS. Numa conferência de imprensa de rescaldo aos incidentes da tarde, a PSP assegurou, ao final da noite de sábado, que “os agentes apenas usaram os canhões de água e gás pimenta depois de os manifestantes terem arremessado pedras, barras de ferro, canas bambu e garrafas”.
Questionado sobre o motivo para a permanente interdição da San Ma Lou aos protestos, o comandante geral da PSP, Lei Siu Peng, justificou a opção com a natureza especial do próprio Primeiro de Maio. “Dado hoje [sábado] ser feriado, previa-se um número elevado de turistas em Macau e ponderando eventuais influências dos protestos sobre o trânsito, vida dos cidadãos, economia, turismo e imagem da cidade, a polícia entendeu não ser conveniente deixar passar o desfile pela avenida Almeida Ribeiro”, justificou, afastando liminarmente qualquer motivos de ordem política que têm sido esgrimidos por alguns líderes de organizações laborais e cívicas.
Parece ser esta a opinião de Ng Kuok Cheong que se fundiu com as preocupações dos vários grupos que saíram à rua e se encontravam no epicentro dos confrontos. Para o deputado, a polícia “está a seguir as indicações de altas patentes do Governo que não aceitam que os manifestantes passem na San Ma Lou” sendo esse impedimento “puramente político”.
Ng Kuok Cheong disse ainda que, depois destas demonstrações “o Governo vai ter mais informação mas não vai apresentar nenhuma mudança substancial” e que “a população está descontente porque nos últimos anos nada mudou”.
Já para Chan Meng Kam, o direito à expressão livre é indissociável do cumprimento da lei: “Macau é um local regido por leis próprias que toda a gente deve seguir e os manifestantes têm o direito aos seus protestos, mas devem respeitar a lei”. Para o deputado, as acções da polícia foram “adequadas”.
Mas, quanto ao bloqueio interposto aos jornalistas que se encontravam do outro lado da linha de resistência, facto que gerou severos protestos principalmente por parte dos profissionais de Hong Kong, Chan Meng Kam disse que “os jornalistas têm todo o direito de recolher toda a informação que precisarem” e que o que aconteceu aos jornalistas feridos deve ser alvo de investigação.

Protestos pela noite dentro

Os protestos iniciados na tarde de sábado continuaram pela madrugada, com cerca de duas dezenas de manifestantes a permanecer no meio da rua na zona do Patane. Por volta das duas horas da manhã, o próprio Secretário para a Segurança deslocou-se ao local para inspeccionar a situação e cerca de uma hora mais tarde a polícia acabou por remover as grades e pedir aos manifestantes e jornalistas que saíssem do meio da rua. A estrada reabriu, então, ao trânsito depois de ter estado encerrada durante 12 horas. Mesmo assim o grupo de manifestantes insistia em não sair, reivindicando melhor qualidade de vida, promessas que o Governo ainda não cumpriu, dizia um dos líderes do movimento, Fio Chi Wing. Pelas três horas, as autoridades detiveram outro líder dos protestos, Lee Siu Kwan, por alegadas agressões a um casal de nacionalidade australiana. Lee Siu Kwan seria colocado novamente em liberdade pelas seis horas e ontem à tarde defendeu-se das acusações convocando uma conferência de imprensa. Na altura, garantiu que só ajudou o casal a proteger-se, referindo que há um vídeo na internet que comprova isso mesmo e condenou a atitude da polícia, responsabilizando-a pelos actos de violência.

Dois feridos ainda internados

Os confrontos entre manifestantes e polícia causaram 41 feridos, de entre os quais 32 agentes da polícia, sete civis e dois jornalistas, segundo números divulgados no final da noite de sábado pela PSP. De acordo com o último balanço dos Serviços de Saúde, o Serviço de Urgência do Centro Hospitalar Conde de São Januário admitiu 16 feridos, três dos quais foram internados, embora um polícia tenha recebido ontem alta. Hospitalizados continuam a fotojornalista da Lusa Carmo Correia, que foi transferida para a enfermaria de cirurgia, e um manifestante com mais de 60 anos, que está em observação e tratamento, sendo que o estado de ambos é considerado “estável”. Nenhum dos feridos foi admitido na Unidade de Cuidados Intensivos.

 


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