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  N°3398 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 2 de Mar¬o de 2010
segundo estudo agora publicado
Portugueses preferem as coligações

Mais de metade dos eleitores são favoráveis à ideia de que dois partidos se juntem para governar o País

HUGO COELHO

Os pequenos - comunistas, bloquistas e democratas-cristãos - , mas também os grandes habituados a alternar no poder - socialistas e os sociais-democratas -, todos concordam nisto: é melhor ter um Governo de coligação que um partido sozinho a governar o País.
A maioria dos eleitores (54,5%) dão sinais de estar cansados de passar cheques em branco nas urnas e oferecer maiorias absolutas a um partido e preferiam que os deputados se entendessem na Assembleia da República, segundo um estudo do Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), agora publicado.
A opinião é partilhada pelos parlamentares dos três partidos mais pequenos, mas contrasta com a posição dos do centro. No PS e no PSD, os partidos que mais apelam ao voto útil, perto de 80% dos deputados preferem Executivos de maioria absoluta, em nome da estabilidade política.
As conclusões foram apresentadas no Parlamento, que ainda há poucas semanas viu o Governo acenar com a demissão depois de a oposição aprovar leis com influência nas contas do Orçamento do Estado.
O Primeiro-Ministro, José Sócrates, não fez qualquer coligação ou acordo parlamentar, após as eleições de 2009, e governa com o apoio da minoria socialista. Se a oposição se juntar, pode derrubar o Executivo através de uma moção de censura ou de confiança.
André Freire, coordenador e autor do livro Representação Política em Portugal, culpa “o exercício musculado da maioria absoluta de José Sócrates” pela desconfiança dos eleitores em dar o poder a um partido. “Isto ficou claro com os resultados das eleições de 2009. A mensagem [dos cidadãos para os políticos] foi: ‘agora entendam- -se’.” Ao DN, o politólogo lembra que na altura em que foram realizados os inquéritos, entre 2007 e 2009, havia em Portugal uma “liderança disciplinada” e uma “grande tensão” entre o Governo e os vários grupos sociais.
Mas Freire avisa que a conjuntura pode ser apenas parte da explicação: “Ainda é cedo para dizer, mas podemos estar a entrar numa nova era [depois da bipolarização]. É preciso lembrar que o Parlamento votado em 2009 é o mais fragmentado desde 1987”.
1987 foi o ano em que Cavaco Silva conquistou a sua primeira maioria absoluta e uma data que é considerada um marco na estabilização da democracia. Até aí, a regra era que um Governo não durava uma legislatura. Desde então, os eleitores concentraram mais os votos nos partidos do centro, o que se traduziu em maiorias estáveis.
O último caso de uma coligação pós-eleitoral no Governo foi a PSD-CDS negociada entre Durão Barroso e Paulo Portas - e que depois teve Santana Lopes à cabeça. A coligação desfez-se quando Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia, mas provou que a direita é capaz de governar coligada.
Freire afirma que actualmente, em Portugal, “governar em coligação é um problema da esquerda”. O PS não se entende com o PCP ou o BE para formar Governo e tem-se virado para os partidos de direita para conseguir apoio em momentos cruciais como a votação do Orçamento.

Eleitores são esquerdistas ciosos dos bons velhos costumes

Quando a pergunta se faz assim de um folgo, “é de esquerda ou de direita?”, a maioria dos portugueses tem uma resposta diplomática na ponta da língua: “Sou do centro.” O “nim” é uma fórmula simples de resumir uma realidade bem mais complexa. Logo que se vai ao fundo da questão, os eleitores viram à esquerda na economia e tornam à direita nos valores. “Quando falamos do papel do Estado na economia, de combate às desigualdades, o eleitorado está alinhado com os partidos da esquerda. Mas, nos costumes, os portugueses estão mais próximos da direita,” explicou ao DN o politólogo André Freire. Os indicadores são muitos. Segundo um estudo do ISCTE - baseado em inquéritos a apoiantes dos cinco partidos realizados desde 2007 -, 94,7% dos eleitores defendem penas mais severas para os criminosos. Contra a legalização do casamento homossexual, já aprovada no Parlamento, pronunciaram-se 64,9%. E 58% defenderam que deve ser exigido aos imigrantes a adaptação aos costumes nacionais de Portugal. Quando as perguntas são sobre o papel do Estado na economia, os portugueses mostram que o seu coração bate à esquerda. Mais de 98% pensam que deviam ser feitos esforços maiores para reduzir as desigualdades de rendimentos. Em percentagem idêntica estão os que consideram que saúde e educação devem ser sobretudo garantidas pelo Estado.

 


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