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  N°3398 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 2 de Mar¬o de 2010

COMITIVA DE MACAU VISITOU ALDEIAS EM RECONSTRUÇÃO
Habitantes de Sichuan enfrentam o futuro com o sismo nos túneis da memória

Percorrendo as duas dezenas de quilómetros que ligam Guangyuan à vila Long Tan, os olhos são obrigados a abarcar a distância de vales imensos e de vegetação variada, até se encontrarem com casas acabadas de erguer, ainda por pintar, rodeadas de tijolos e pedaços de madeira dispersos. O JTM seguiu a visita oficial de Cheong U à província de Sichuan, mas escolheu outros trilhos, feitos de pessoas que sobreviveram aos estragos causados pelo sismo de 2008 e que contam estórias de surpresa e de força

A casa nº 06797 cheira a novo. Paredes caiadas e dois jovens casados de fresco compõe o arranjo de flores que repousa sobre a mesa da sala. É dia de festa na aldeia, retirada a 19km a sul de Guangyuan. Bandeirinhas coloridas cruzam os pátios, ligando o cimento à madeira que decora as casas. Há dois anos poucos moravam ali. Foram obrigados a subir a serra, depois de um início de tarde num Maio primaveril.
O caminho que corta as 17 aldeias da vila Long Tan está entalado entre longas ravinas de um lado e montanhas elevadas do outro. Pelas 8h da manhã ainda se vê uma lua envergonhada a afastar nuvens que cobrem um imenso céu cinzento. Os pneus do carro fazem levantar uma nuvem clara de pó, enquanto se ouve o ranger da borracha contra a estrada ainda de terra e pedra. Lá fora tudo descansa em silêncio, vêem-se rios ao fundo e motas ocasionais que partem em direcção à cidade.
Vamos de curva em curva a espreitar de um lado e do outro pela janela, como moldura de quadros impressionistas, onde quase tudo parece bucólico e algo triste. A entrada da aldeia é anunciada por um pórtico de características chinesas. Neste final de Fevereiro, as árvores permanecem despidas e as portas das casas que despontam de longe a longe estão fechadas. Ainda há vestígios de novo Ano Lunar: candeeiros ocasionais, pendurados ora à borda da estradas ora no alpendre das casas.
Ouvem-se batuques ao fundo, sinais de alegria e boas-vindas. Saltam dragões e corpos humanos mascarados. Os cinco autocarros, que transportam a comitiva de Macau, liderada pelo Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, são recebidos entre aplausos e olhares curiosos. Aquela é uma das aldeias em que cada família recebeu cerca de 20 mil patacas do Governo da RAEM para o erguer de um novo lar.
MAIS UM DIA. Passava pouco da hora do almoço. Era um início de tarde igual a tantos outros, a vida da aldeia corria ligeira, havia terras para cuidar, idas à cidade já planeadas. Era mais um dia doze, anónimo, de um Maio igual a tantos dos que já tinham passado.
“Estava ali num campo, a semear, e caí de imediato tal foi o abanão”. Um sismo de magnitude oito na escala de richter apanhou Wui Xiu Ying, na altura com 62 anos, completamente desprevenida. Mergulhou na terra que lhe dava de comer, sem perceber de imediato que raio tinha acontecido ali. A mulher, que conta agora com mais duas primaveras, gesticula muito, enquanto descreve através de uma voz áspera a surpresa e desorientação, causadas pelo maior sismo a afectar uma província chinesa desde 1976. “Senti muito o abalo, nem tive tempo para pensar”.
Depois de recuperar a firmeza nas pernas, foi até à sua casa e encontrou-a “completamente destruída”. As telhas faziam de chão e eram só cacos. Era uma aldeia feita em cacos aquela que rodeava Wui Xiu Ying. A noite que sucedeu ao dia 12 de Maio de 2008 foi passada numa tenda montada pelos habitantes da aldeia. “Era uma barraca enorme e foi lá que ficámos nos dias seguintes”.
Dois anos volvidos, já não se vêm destroços, vêem-se alicerces, tijolos amontoados e casas novas. Wui Xiu Ying, de cara rosada e pouco engelhada, não guarda espaço para comoção: “foi o que tinha de ser”. O susto ficou encerrado nos túneis da memória. “Antes morava lá em baixo, agora viemos para aqui”, resume de forma simples, apontando para o local com as mãos grandes e inchadas.
EM RUÍNAS. A vida de Liu Jian já começou numa aldeia de casas novas e pinheiros que resistiram ao sismo. Enquanto a mãe descreve a estória da menina que tem “nome de saúde e sucesso” - desejos para um lugar onde se recuperam vidas - a pequena Jian, agasalhada para Inverno rigoroso, encolhe-se entre os braços da progenitora, alheia a celebrações ou a desgraças.
Mei Lau estava na província de Hunan, onde o marido trabalhava, quando o sismo estalou em Sichuan, ainda Liu Jian não tinha visto a luz do dia. “Fomos chamados à aldeia para ver os estragos”. Daqueles primeiros momentos de impacto com uma realidade desfigurada, Mei Lau fala num “mau sentimento”, que não sabe descrever. Olhou para o lugar onde morava e viu-o “em ruínas”. “Estava tudo ao monte, tudo revirado”.
Agora tem nova casa, num nível acima da montanha. “E é construção perfeita e segura”, aquela que viu Liu Zhang chegar ao mundo, afirma. Com a filha ao colo, Mei Lau fixa os olhos num melhor futuro, em aldeia de estradas arranjadas “onde até já conseguem circular veículos”.
Liu Zhang também não estava na aldeia, quando o sismo abalou Long Tan. “Andava a procurar trabalho em Guangyuan e não pensei em nada assim”, descreve o jovem de 23 anos. De estrutura magra e pele morena, Zhang não consegue ordenar em palavras aquilo que lhe corre no pensamento.
Quando chegou à aldeia viu cenas repetidas de um filme inesperado: “pouco estava de pé”, recorda em frente à nova casa que tem cheiro a lua de mel. Acabado de casar, está confiante na vida nova. “Quero abrir um pequeno negócio”, confessa, meio tímido, entre os móveis que reluzem e as flores que enfeitam a pequena mesa no centro da sala.
RENASCER. Longe fica a “grande tristeza” que Li Chun Ying afirma ter sentido. Também esta mulher de 33 anos não estava na aldeia quando ocorreu o tremor de terra. “O meu marido e eu estávamos em Pequim a trabalhar. Chamaram-nos uma dúzia de dias depois”, conta, enquanto a filha abraça um saco de rebuçados, cuja embalagem mostra as Ruínas de São Paulo.
A casa de cortinados cor de pérola custou 178 mil renminbis, montante para o qual o governo do município e também o Executivo da RAEM contribuíram parcialmente. Li Chun Ying explica que contraiu um empréstimo de 30 mil renminbis, que “já está quase pago”. E agora, como é a vida? “Como sempre foi”.
Em 2008, de entre os 4.343 agregados familiares da vila Long Tan, 1.370 tiveram de reconstruir as suas casas. Entre estes, 882 foram abrangidos pelo projecto habitacional, apoiado pela RAEM, que prevê investir naquela província 4,8 mil milhões de patacas. Essas centenas de pessoas já estão nas novas casas desde o final do ano passado. Por toda a província de Sichuan, morreram mais de 85 mil pessoas e centenas de milhares ficaram feridas.
A vila que fica a quarenta minutos de carro da cidade de Guangyuan, ganhou nos últimos dois anos hortas e pomares – que se alinham airosos nos longos vales da província – novas estradas, ainda a serem alcatroadas, e redes de abastecimento de água. Long Tan vai-se reconstruindo sobre mágoas, abafadas pelo amarelo alegre das flores – que servem para fazer óleo vegetal - e que crescem em toda a província. Com a mesma força de sempre.

 


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