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  N°3389 (Nova Série), Sexta-Feira, 19 de Fevereiro de 2010
tribuna
“O teu bem faz-me tão mal”

Maria José Nogueira pinto

Dia de S. Valentim e dos Namorados, vá-se lá saber porquê. Uma homenagem ao consumo introduzida no nosso mercado pelas grandes cadeias e superfícies, feita de inutilidades em forma de coração. Mas também ofertas, como pequenos sinais de amor, que prevalecem, ainda, sobre uma outra realidade, oculta e emergente, um mau sinal dos tempos.
Sete das 26 mulheres assassinadas, vítimas de violência doméstica, tinham menos de 22 anos. Uma em cada quatro jovens é vítima de violência no namoro. O sexo forçado já não é considerado como uma violação. Ao fim de cinco anos de namoro, Daniel assassinou Joana. Na reportagem, ouvem-se as vozes femininas e infantis, descrevendo processos de dominação, insensibilidade, falta de respeito. A violência no namoro, um “desnamoro” no qual as subtilezas da sedução, o tempo doce do enamoramento, o enaltecimento, em crescendo, de sentimentos mútuos de atracção e amor se perdem, ou não chegam sequer a existir, ganha dimensão num quadro em que se jogam quase só relações de força e de domínio. Porquê?
Uma infantilidade promovida para além do razoável, o medo a crescer, a solidão, o primado da fantasia em vidas induzidas e virtuais, a liberdade sexual confundida com pura libertinagem aliadas a uma mão-cheia de estereótipos errados, explicam muito deste fenómeno.
Na relação do namoro, em regra, o rapaz é altamente idealizado pela rapariga. Essa idealização dá-lhe um poder que usa mal: humilhação verbal, pressão psicológica, manifestações de domínio que elas confundem com ciúmes, com paixão... As dificuldades no rompimento começam com a própria dificuldade em identificar a violência, aumentam com os riscos de perseguição, a vergonha, a relutância em aceitar o logro, em reagir, a falta de apoios.
O formato do namoro alterou-se completamente. É, hoje, uma pré-conjugalidade em que os actores parecem não ter crescido e para que a sociedade olha com a maior ligeireza. Assume-se o facto de estes jovens, lançados em experiências afectivas quase de não retorno, têm afinal duas idades: a do seu bilhete de identidade, e uma outra, datada por um amadurecimento lento, em atraso permanente com a sua liberdade, uma escassa claridade de consciência que os leva a agir ao acaso. As famílias alargadas, os amigos e a vizinhança são supostos não intervir. Uma cultura de “vive e deixa viver” assente num pseudo-respeito pela individualidade e liberdade de cada um deixa esta miudagem ao abandono.
Um outro aspecto, mais vexatório, é o da passividade feminina. No século XXI, após tanta luta pela igualdade de estatuto, o que explica que raparigas informadas, em permanente ligação com o mundo exterior, postas em rede, por assim dizer, desfrutando de liberdades dantes inimagináveis e teoricamente aptas a alcançar uma autonomia plena, possam continuar a personificar a mulher refém de um contexto socioeconómico e cultural que encheu a literatura do século XIX e XX?
Reli recentemente O Primo Basílio e, semanas depois, por puro acaso, Madame Bovary. Romances que a minha geração leu muito cedo e cuja leitura renovada, anos mais tarde, permite uma percepção claríssima da condição humana, da sua imutabilidade, nesse universo dos sentimentos onde a modernidade penetra tão dificilmente. Duas mulheres do seu tempo cuja ascensão social, embora tímida, permitiu vidas de ócio senhorial; corações palpitantes e cabeças atreitas à constante fuga do real, alimentadas por romances de cordel e libretos de ópera, notícias vagas de um outro mundo, mais intenso e mais excitante, cuja entrada não podiam franquear. Duas mulheres que não cresceram, protegidas por maridos cumpridores e aborrecidos, lançadas na voragem de uma fantasia que as destrói até à morte.
Mas as novíssimas Luísas do nosso tempo não têm dimensão romanesca nem dramática. São apenas personagens pré-marcados, de uma tragédia que já nada parecia justificar.

JTM/DN


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