000primeira
010especial
020opiniao
030local
050desporto
070actual
081jete
090cambios
091tempo
092ultima


 



 
  N°3389 (Nova Série), Sexta-Feira, 19 de Fevereiro de 2010
os desatinados
Indústrias criativas e culturais e os números

ALBANO MARTINS*

1. Não tenho nada contra os que defendem a ideia de a tão desejada diversificação passar pelo desenvolvimento das indústrias criativas e culturais, embora se saiba que o seu conceito é como o sabão (ou sabonete) molhado e escorregadio.
Em sentido matemático e linguístico (eu uso o primeiro para chegar ao segundo, quando as dúvidas me atormentam), estamos perante indústrias que sendo criativas são também culturais (daí o e”), pois, como se sabe muitas daquelas, por exemplo, a arquitectura, pouco ou nada têm de cultural. Ou, em sentido inverso, poder-se-á sempre encontrar uma indústria cultural que não seja criativa, pelo menos teoricamente, embora neste momento, confesso, não estar a ver alguma.
Ora, esse sentido restrictivo da expressão indústria criativa e cultural, que em matemática se chamaria conjunto intersepção (ainda escrevo com p antes do ç, que só com o tempo consigo beber o famoso acordo ortográfico), onde só ficam os elementos comuns aos dois, para quem não percebe nada de teoria de conjuntos, torna bem mais complicado o desiderato de o seu universo, agora bem mais minguado, porque comum, poder ser alternativa produtiva.
A verdade é que não acredito que, em Macau, essa alternativa tenha pernas para andar. Nem acho que tenha expressão em parte alguma do mundo, em matéria de diversificação.
Parece-me, apesar dessas minhas dúvidas, que só valem para mim, está claro, mas que nem são metódicas, que, quem quiser tomá-las em consideração para funcionarem como produto alternativo, e resta saber o que isso significa (20, 30 ou mais por cento da produção, no mínimo?), em primeiro lugar é necessário que elas apareçam como actividade organizada, produtiva e comercialmente.
Ou seja, que se constituam em empresas ou instituições sujeitas às regras de mercado, ou se quiserem, que facturem, mas em valor suficientemente expressivo para poderem ter alguma expressão na produção (ou seja no PIB que, em Macau, que eu saiba, não há estatísticas que nos dêem o produto nacional, nem o líquido nem tão-pouco o bruto, embora o segundo tenha apenas mais as chamadas amortizações, pelo que, conhecido um, quase certo que se chega ao outro).
Continuando, terão de ser empresas ou instituições que consigam sobreviver nesse louvável objectivo que é diversificar, o que em linguagem mais terrena é o mesmo que dizer, que tenham lucros ou resultados positivos, naturalmente depois de um ou dois anos no vermelho, que o normal, para quase todas as actividades produtivas, é perder-se dinheiro na fase de arranque.
O que é preciso é depois recuperá-lo, e daí o conceito de pay-back period (ou período de recuperação) dos investimentos.
Que vem chateando muita gente grande, como o Venetian, a Galaxy, a Melco (esta terá perdido segundo notícia do HM de três do corrente, convertida para a nossa unidade cambial, qualquer coisa como 2,5 mil milhões de patacas só em 2009!) e a MGM que, estando do lado contrário da barricada das indústrias criativas e culturais, não sabem bem quando irão recuperar a massa toda que, gananciosamente, puseram do próprio bolso, ou do bolso alheio dos financiadores, que a vida moderna é mesmo assim, e para isso serve o sistema financeiro (o mercado monetário) e o mercado de capitais (também denominado bolsa de valores), nos investimentos que fizeram!
Com alguma criatividade, já que disso também falamos, até que poderíamos ver aqui o conceito de ilusão monetária em sentido mais restricto do termo, ou seja, quando aplicado à ilusão das grandes receitas, que terá feito muita gente perder a cabeça, que os custos esses também são bem grandes e o imposto sobre as receitas é, matematicamente, tenho repetido vezes sem conta, embora ninguém me ligue patavina, um imposto também sobre os custos.
Vejam como a matemática é coisa bonita, se R (receitas) = C (custos) + L (lucros), então IR (imposto sobre receitas) = I(C+L) ou pela distributiva da multiplicação em relação à adição, IR (imposto sobre receitas) = IC (imposto sobre Custos) + IL (imposto sobre lucros), ou seja, um imposto sobre a receita é um imposto não só sobre os lucros como também sobre os custos!
Para quem ande naufragado da realidade empresarial, um imposto de rendimentos “normal” (um IRC, imposto de rendimentos sobre pessoas colectivas, ou em Macau, na nossa versão fiscal mais primária e, convenhamos, mais benevolente, um imposto complementar de rendimentos) incide apenas sobre lucros, não sobre custos.
Ora, só com muita eficiência se conseguem minorar os custos e, daí, aumentar os lucros. Mas minorar os custos, aumentando o lucro, não retira uma pataca sequer ao imposto que o governo cobra, apenas permitindo aumentar a remuneração do capital, ou seja alterar a distribuição de rendimentos!
Continuando, que a matemática é uma ciência exacta, embora também haja quem garanta que não será bem assim, para as indústrias criativas e culturais ocuparem uma fatia de 20 por cento do PIB, o que já começa a ser interessante, é preciso que produzam anualmente qualquer coisa como 35 mil milhões de patacas!
Pois, e vem agora a minha eterna dúvida, qual é a expressão das indústrias criativas e culturais em Macau?
Talvez que, no máximo, de 100 milhões de patacas, arrisco, que estatísticas também não as há.
Ou seja, qualquer coisa como 0,06 por cento do nosso PIB, se o meu feeling não anda muito por baixo (ou por alto)!
Convenhamos que é muita areia para a nossa camioneta.
2. Lia-se há cerca de três semanas neste jornal, mas podia ter sido também em qualquer outro, que penso que a notícia foi geral, que as nossas emissões de CO2 teriam baixado 50% em 2009, pelo que Macau teria respirado melhor.
Pois, à custa de não termos produzido electricidade localmente.
Porque a teríamos importado da China, naturalmente.
Curioso esse mundo, onde também a juzante ninguém mija para o rio, que há estações de tratamento que cuidam disso de forma civilizada, mas a montante toda a gente, ou quase toda, descarrega o dito cujo para as mesmas águas, que acabam por nos banhar.
Quem se convence que a poluição do continente passa por nós sem nos beliscar?
Este é um mundo global, para o bem e para o mal.
Se calhar mais para o mal do que para o bem, penso.

* Economista.
Escreve neste espaço às sextas-feiras.


 [Alto] [Anterior] [Voltar] [Próximo]




HOME  .  E-MAIL  .  FICHA TÉCNICA  .  EDIÇÕES ANTERIORES  .  PUBLICIDADE  .  PRIMEIRA

Copyright (c) Jornal Tribuna de Macau, All rights reserved
Design and maintainence by Directel Macau Ltd