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  N°3389 (Nova Série), Sexta-Feira, 19 de Fevereiro de 2010
PAULO AIDO
“A comunidade macaense é o maior monumento da passagem de Portugal por Macau”

Paulo Aido tem 48 anos e é jornalista há mais de 20. Foi o jornalismo que o levou a Macau em 1987. O Território “era ainda uma aldeia” e o entrevistado desta semana “tinha casado há poucos dias.” Passou pela rádio e pela televisão e ajudou a fundar um jornal. De regresso a Portugal prosseguiu o interesse pela temática religiosa tendo assinado várias obras de referência. Mais recentemente estreou-se na política

JOÃO BOTAS
Em Portugal

JTM - Esteve em Macau de 1987 a 1992. Como era Macau nessa época?
Paulo Aido - Macau era ainda uma aldeia, apesar de todos os arranha-céus que já existiam. Quando cheguei, impressionei-me com os néons das ruas à noite, com o gigantismo da cidade, com a língua estranha, o trânsito caótico, mas depressa descobri que ainda havia muita aldeia por trás de tantos prédios. E havia. Especialmente na Taipa e em Coloane, que depressa passaram a ser lugares de refúgio. Os portugueses viviam separadamente, havia lugares de passagem, espaços de culto, sentia-se, entre a nossa comunidade, um sentimento de liberdade que é dado aos expatriados. 
JTM - Como é que surge a oportunidade de rumar até Macau?
P.A.- Foi o meu amigo Paulo Reis quem me desafiou. Eu era assessor do vereador da Cultura da Câmara de Lisboa, o arq. Víctor Reis — o presidente era o eng. Kruz Abecassis — quando ele me escreveu. É preciso recuar no tempo. Estávamos em 1987, não havia telemóveis, as comunicações eram caras e muito mais raras e ele escreveu-me uma... carta. A desafiar-me. E assim andámos durante uns tempos, entre cartas para cá e para lá. Até que ele me disse que havia um lugar num jornal local. Tinha-me casado há dias, juntei uns trocos, perguntei qual era a viagem mais barata para Macau — era pela Air Índia — e fui. Comigo foi, também, o Pedro Reis, irmão do Paulo, também ele garimpeiro de novos horizontes. Lembro-me ainda hoje do cheiro a caril no avião da Air Índia e de termos viajado, antes, na TAP, até Frankfurt, na companhia da equipa do Guimarães, que ia para uma prova europeia, e de Amália  Rodrigues, que até ali, no corredor do avião, se revelava uma senhora distinta, uma fadista, a fadista.  
JTM — Como jornalista esteve nos jornais, televisão e rádio. Quer especificar cada um desses percursos...
P.A.-
Comecei, à experiência, no Comércio de Macau, e acabei por ficar um ano. No final desse tempo, a TDM — Televisão de Macau — veio convidar-me, mais o Pedro Dá Mesquita, para a redacção.
Fomos. A partir daí o meu percurso foi quase “non-stop”. Rádio Macau, Revista Macau, Expresso do Oriente... até que, com o Carlos Carvalho, entre outros, fundei o Ponto Final. 
JTM —Como surgiu o Ponto Final?
P.A.-
O jornal nasceu em 1991, da vontade do Carlos Carvalho e de mim próprio, à altura jornalistas da Rádio Macau, em fazermos uma revista/jornal que preenchesse a lacuna da informação relacionada com cultura e espectáculos. No entanto, depressa nos apercebemos que não havia ‘mercado’ para essa ideia e o projecto derivou para um jornal.
A primeira edição foi experimental, tratou-se de um número integralmente dedicado a Timor e, após mais uns ajustes arrancámos com a edição semanal. O primeiro director foi o pintor macaense Herculano Estorninho e, depois da sua saída, em resultado de algumas pressões que foram exercidas sobre o jornal, avancei eu próprio para a direcção, até Julho de 1992, quando fomos forçados a vender o Ponto Final por nos encontrarmos numa situação de absoluta asfixia económica.
JTM - Qual o episódio da sua vida pessoal e profissional em Macau que mais o marcou?
P.A.-
O nascimento da minha filha, a 18 de Junho de 1989 e a fundação do Ponto Final em 1991. Recordo ainda um episódio curioso, salvo erro em 1989, em que correu o boato de que o Governo ia avançar com uma acção de legalização de imigrantes ilegais e, de um dia para o outro, o território foi invadido, literalmente, por milhares de chineses que entraram em Macau ou que saíram da penumbra e acorreram aos postos de legalização. Foi estranho ver centenas e centenas de pessoas a acotevelarem-se numa quase desordem e perante a quase impotência das autoridades.
JTM - Macau foi amor à primeira vista?
P.A.-
Foi, seguramente, um deslumbramento. Lembro-me que, sempre que podia, me deixava perder por entre as ruas do Porto Interior, por exemplo, vivendo uma mistura de sentimentos de quem é da terra e é estrangeiro e, ao mesmo tempo, está ali como turista. Lembro-me de ir à Catedral e de lá ficar durante “eternidades” quando por lá não estava ninguém, assim como em alguns templos budistas. Recordo-me de fazer vezes sem conta a marginal da Praia Grande com os pulmões cheios de paisagem e não me esqueço dos fins de tarde, em esplanadas, junto da estátua de Ferreira do Amaral, com o ar carregado, quase sufocante, em que limpávamos as gargantas com as “Cásibég” do costume, assim como me recordo de aos fim-de-semana rumar para Coloane ou Taipa para um almoço demorado com a minha mulher e, mais tarde, após o nascimento da Sofia, de ficarmos o resto da tarde num parque infantil... 
JTM - É uma terra de oportunidades?
P.A.-
Julgo que sim. Era, no tempo em que lá estive, e será cada vez mais, até pela importância da China  nas relações económicas mundiais. O facto de Portugal ainda perdurar de alguma maneira em Macau é um sinal específico de que somos únicos. Macau é, sempre o disse, o nosso porta-aviões no Sudeste Asiático. Poucos países podem dizer o mesmo... 
JTM - Que memória(s) guarda de Macau?
P.A.-
Tantas. Os cheiros, as ruas cheias de gente e de carros, os mercados, os tin-tins, a Vaquinha, onde comi as melhores sandes de ovo de sempre e os mais saborosos batidos, as idas à praia de Coloane no autocarro, levantar-me tarde no sábado e ir ao mercado comprar rebentos de soja para improvisar um almoço, a gravidez da minha mulher, a minha filha que nasceu e cresceu ali, “como uma índia”, as amizades, as aventuras profissionais. Macau ficou-me no ADN.
JTM - Que fascínio é esse que Macau tem sobre quem lá vive, mesmo que apenas de passagem?
P.A.-
Deve ser pela diferença de ser uma terra cultivada por várias mãos, por várias culturas, por muitos saberes. É única porque é especial.
JTM - Actualmente que tipo de relação mantém com Macau?
P.A.-
Além da saudade, que não me larga, continuo a ler tudo o que me chega de Macau e sigo a imprensa local. 
JTM — Tem lá voltado?
P.A.-
Nunca mais lá voltei e, curiosamente, nunca de lá saí! 
JTM - Está nesta altura a fazer algo relacionado com Macau?
P.A.-
Neste momento não estou a fazer nada, mas há alguns projectos em que penso trabalhar: um deles é um livro-reportagem sobre macaenses que deixaram o território e passaram a viver em Portugal, assim como a vida entre nós, das diversas associações de macaenses e de antigos residentes no território.
JTM - Tem mais um livro acabadinho de chegar às livrarias “As mais belas orações”. De onde vem este gosto pelo religioso?
P.A.-
É um gosto antigo que me tem acompanhado quase desde sempre. Mas é um sentido do religioso fora do conceito do beato. Ser-se religioso, ser-se crente, é agir com os outros, é ter preocupação social, é fazer comunidade, seja no prédio onde moramos, na empresa onde trabalhamos, na sociedade e na família. É esse sentido de intervenção que me leva a escrever os livros - este é um dos defeitos da profissão - mas que me tem levado, ao longo da vida, a ter intervenção em diversas organizações como voluntário. Aliás, deixo aqui esse apelo: é no voluntariado, na doação gratuita aos outros, que podemos e devemos ajudar a construir uma sociedade melhor.
JTM - Actualmente é vereador sem pelouro na autarquia de Odivelas. Como é que chegou à política?
P.A.-
Isto está a ser uma aventura. Acontece que sou amigo de há mais de trinta anos do jornalista Hernâni Carvalho e acontece que ele, tal como eu, nasceu em Odivelas e, no ano passado, foi sondado para ser cabeça de lista de uma coligação PSD/CDS/PPM/MPT à Câmara de Odivelas. E acontece que aceitou o desafio. Quando chegou a altura de fazer as listas, perguntou-me se eu estava disponível para integrar a coligação. Disse que sim e fui eleito. Sou vereador sem pelouro porque o PS ganhou as eleições (com pouco mais de mil votos...) e decidiu negociar directamente com o PSD a atribuição de pelouros para conseguir uma maioria estável no executivo, passando por cima e não dando cavaco ao cabeça de lista, o Hernâni Carvalho. Ou seja, a política no seu melhor! Para mim, nada deste edificante episódio me causa confusão. As pessoas tendem, principalmente na política, a serem assim. É nas derrotas que se vê a dignidade das pessoas, dizia eu desde sempre e agora digo-o com mais reforçada convicção. Mas não faz mal. Um dos lemas da minha vida é que devemos saber usar o nosso metro quadrado de influência em tudo na vida. Mesmos sem pelouro, podemos condicionar o poder autárquico em Odivelas. E já começámos a fazê-lo. E há dezenas de pessoas que têm vindo ter connosco e que se mostram disponíveis para nos ajudarem nesta caminhada, que se mostram solidárias, que querem fazer deste trabalho um exemplo. A ver vamos, mas garanto-vos que está a valer a pena!
JTM - Este ano assinalou-se o 10 aniversário da transferência de soberania. Que balanço faz, ainda que à distância…
P.A.-
Parece-me um balanço positivo. Ainda lá estamos, não só nos nomes das ruas mas também nos seres vivos que teimam em lá viver, na comunidade macaense que é o maior monumento da nossa passagem por lá, como em tudo o que está inscrito naquelas pedras, naquelas ruas, em tudo o que ali foi feito. É impossível apagar a nossa presença de Macau e, se alguma vez o fizerem, é Macau que matam, definitivamente. Pode sobrar uma cidade moderna, mas nunca será uma cidade com história. 
JTM - Acha que a realidade de Macau é suficientemente abordada na sociedade portuguesa?
P.A.-
Julgo que não. Durante o tempo em que estive em Macau registei o início de um trabalho desenvolvido por Carlos Monjardino e a “sua” Fundação Oriente, na aproximação dos dois territórios a nível cultural mas ignoro o desenvolvimento desse trabalho. A verdade é que passaram duas décadas, e a Portugal chegam poucas notícias sobre a realidade de Macau, a não ser os impressionantes resultados da indústruia do Jogo.
JTM - Macau mudou muito na última década. Para melhor ou para pior?
P.A.-
Não voltei lá, não posso responder. Mas julgo que é como tentar saber se alguém cresce para melhor ou para pior. As pessoas crescem. E o crescimento é sempre bom e mau...
JTM - Perspectivas sobre futuro de Macau…
P.A.-
Desejo que Macau não passe a ser apenas um casino. Sei que há muita gente a trabalhar para que isso não aconteça, como o meu amigo padre Luís Sequeira, dos Jesuítas. A ver vamos... 
JTM - Numa frase ou numa palavra… o que é para si Macau?
P.A.-
Sofia (o nome da minha filha). 
JTM — Qual é o ‘postal’ de Macau? As ruínas de S. Paulo, a Penha, a Guia, a antiga Baía da Praia Grande?
P.A.-
A antiga baía, vista da Taipa, ao entardecer, claro!

Perfil

Nome: Paulo Aido
Local e data de nascimento: Odivelas, 9 de Outubro de 1961
Idade: 48 anos
Profissão/Ocupação actual: Jornalista e vereador da Câmara Muncipal de Odivelas (sem pelouro)
Período de tempo em que residiu em Macau: 1987-1992
Profissão/Cargos que ocupou: Jornalista do “Comércio de Macau”, da “Revista Macau”, da “Televisão de Macau” e da “Rádio Macau”. Colaborou com o semanário “Expresso do Oriente”, foi correspondente da BBC e fundou e dirigiu o semanário “Ponto Final”.

Jornalista, pintor, escritor e vereador

Paulo Aido foi um dos fundadores do jornal Ponto Final e o seu segundo director. A carreira de jornalista começara em Portugal.
No início da década de 80 fundou e dirigiu o Jornal de Odivelas. No final de 1987 vai para Macau e começa por trabalhar no “Comércio de Macau”. Seguiram-se a TDM (televisão e rádio)e a criação do jornal “Ponto Final”.
Na imprensa local foi colaborador da revista Macau, editada pelo Gabinete de Comunicação Social do Governo, nos anos de 1990 a 1992.
No regresso a Lisboa fica correspondente do semanário Ponto Final desde Outubro de 1992 até 1995. Volta à televisão (RTP) por pouco tempo e em 1993 torna-se colaborador permanente da revista Tele-Guia até ao seu encerramento, em 1996.
Ao mesmo tempo que mantém outras colaborações na imprensa regressa à televisão, desta vez na TVI. Uma curta passagem interrompida com o início do século XXI. Desde 2004 é editor da revista TV Guia.
O seu interesse e dedicação à temática religiosa levaram-no a escrever livros como “O peregrino de Fátima” (2008),“A mensagem da irmã Lúcia” (2007), “Há horas de sorte: histórias de milionários no jogo” (2001), “Em nome do Pai” (2000) e “Ferreira do Amaral: uma vida em obra” (2000).
A obra mais recente foi editada no final de 2009. Intitula-se “As mais belas Orações” e recolhe algumas das mais inspiradoras mensagens das diferentes religiões do mundo com textos de Dalai Lama, Buda, Madre Teresa, Maomé, Ghandi e Cristo.
Como pintor autodidacta,Paulo Aido participou nas exposições colectivas de Artes Plásticas, Amostra 79 e Amostra 80, em Odivelas, nos anos de 1979 e 1980, e no II Salão de Outono, em Setembro de 1997, no Espaço Venteira, na Amadora.
A estreia na política aconteceu nas últimas eleições autárquicas em Portugal. Aceitou o desafio de um amigo de longa data, concorreu e actualmente é vereador sem pelouro na Câmara Municipal de Odivelas.

J.B.


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