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  N°3306 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 3 de Novembro de 2009

UNG VAI MENG em entrevista ao JTM

UNG VAI MENG ESTÁ A FAZER INVESTIGAÇÃO SOBRE RETRATOS EM LOCAIS DE CULTO
“Gostávamos de dar mais à Festa da Lusofonia, mas não temos recursos financeiros ilimitados”

As experiências passadas ensinaram-no a alcatroar caminho, aprendendo a balançar os ditames do coração e da realidade. Ung Vai Meng responde, por isso, às críticas de algumas das associações envolvidas no Festival da Lusofonia com a necessidade de gerir o orçamento e de distribuí-lo pelas mais diversas iniciativas. Se pudesse, dava mais, garantiu, em conversa com o JTM. Nos papéis traça, sempre a carvão, as inúmeras contas e notas soltas, sobrando espaço para os desenhos. Nos fins-de-semana, foge rumo a aldeias chinesas e pesquisa sobre retratos que compõem locais de culto. O sonho concretizado virá – nas palavras de Ung Vai Meng - em forma de livro pousado sobre a estante de uma biblioteca

- Está a decorrer actualmente o Festival de Internacional de Música e acontece também todos os anos o Festival de Artes de Macau. Estes são dois dos principais eventos culturais do território. Tem notado grandes diferenças com o passar dos anos?
- São duas iniciativas importantes e que costumo acompanhar como espectador. Este ano não pude assistir a muitos espectáculos do Festival Internacional de Música de Macau, porque só regressei de Portugal há poucos dias. Fui a Lisboa para realizar uma exposição de fotografia sobre Macau, no âmbito dos dez anos da RAEM. Notei uma grande evolução nas últimas duas décadas, sem dúvida. Comecei, em 1983, a trabalhar no Instituto Cultural [entidade organizadora de ambos os festivais] e lembro-me muito bem que, nessa altura, a nossa equipa era muito reduzida, éramos apenas umas 15 pessoas. No início, só 20 pessoas é viam espectáculos de ópera no Fórum, ainda me lembro... Hoje os bilhetes desaparecem no primeiro segundo. No primeiros tempos, quase ninguém ia ao Festival Internacional de Música de Macau...Houve uma enorme evolução, basta olhar atentamente para o passado.
- O recém-falecido Francisco Figueira fazia parte dessa equipa do Instituto Cultural...
- Oh! O Francisco! Tão importante. Património Mundial? A visão dele foi decisiva. E isso já acontece há 20 anos! O grupo era muito pequeno, mas a verdade é que foi aí que começámos a proteger o património de Macau... Imaginem, apenas 15 pessoas... A década de 80 foi muito importante.
- Sente-se orgulhoso por fazer parte desse fragmento de história?
- Além de funcionário público, também participei em muitas actividades. Fui um fundador do Círculo dos Amigos da Cultura de Macau – só seis amigos – e aprendi muito com a associação. Aprendi sobre essa questão de pedir subsídios, organizar coisas... Essa experiência tem-me ajudado nos cargos que tenho ocupado. A responsabilidade social não é só do Governo, por isso defendo sempre que a educação e a colaboração entre sectores é muito importante.
- Considera que deve haver uma maior aproximação entre a sociedade e o Executivo?
- Este departamento é uma espécie de carro que tende a transformar-se em algo muito maior e multifunções, semelhante ao que acontece em alguns filmes [risos]. Vejamos o caso do Festival da lusofonia, temos de ajudar a gerir a organização, mas a responsabilidade não é só nossa. Por exemplo, a Associação de Moçambique ou a Casa de Portugal em conjunto com muitas outras associações têm um enorme papel na organização da festa. A organização depende sempre da conjugação dessas diferentes forças. Temos procurado essa interacção nas mais diversas áreas. Estou bastante feliz por participar neste movimento.
- Tem falado muito do Festival da Lusofonia. Este ano, algumas associações lamentaram a redução dos apoios. Porque é que esta edição não esteve integrada na “Semana Cultural” como aconteceu no ano passado?
- No ano passado, o Fórum de Macau participou e levou consigo muitos recursos. Nós temos um orçamento para todo o ano. O ano passado, em que o Festival esteve integrado na Semana Cultural, foi um caso muito especial, nunca tinha acontecido antes. Apesar deste ano o Festival não ter tido essa dimensão, também foi muito bom, recebeu mais pessoas – 15 mil visitantes – e aumentámos o dinheiro. É preciso salientar que a verba atribuída este ano foi superior à dos anos anteriores. Na minha opinião, o Festival estava ainda mais bonito do que no ano passado. As pessoas estão a organizar com o coração, com muita paixão e todos tentaram fazer o seu melhor. Nós gostávamos de dar mais, mas também não temos recursos financeiros ilimitados. Se dermos quatro milhões para o Festival, corremos o risco de não poder organizar outras actividades, em ocasiões como o Ano Novo Chinês ou a passagem de ano. Temos um orçamento anual que somos obrigados a saber gerir...
- Sendo artista deve ser complicado para si fazer esse tipo de gestão... Porque deve querer sempre fazer a melhor actividade possível e apoiar ao máximo...
- O tempo ensinou-me a perceber bem o conflito que pode existir. Mas a realidade é para respeitar e, se não houvesse controlo, era perigoso. A experiência de quando participava no Círculo dos Amigos da Cultura foi muito útil, porque agora consigo ver as coisas dos dois lados.
- Enquanto artista, o que é que ainda podemos esperar do seu trabalho? Continua a conseguir conciliar estas duas vertentes?
- Não tenho tido tempo para a pintura. Fico triste por isso. Estou a fazer uma investigação sobre retratos. É algo que tem sido esquecido e que é muito importante. Estou a dedicar-me a pesquisar sobre o retrato porque a China é um país cheio de cultura e artisticamente é um Continente imensamente rico. Temos uma história muito vasta por isso é de grande interesse estudar os antepassados. Nas aldeias ou nas cidades existem muitos locais de culto. A pintura de retratos que aí existe é muito importante. A imagem tem características muito específicas, é sempre um rosto muito sério, rígido, possui uma série de particularidades que ninguém estuda. Estou a fazer investigação por iniciativa própria. Durante os fins-de-semana, vou visitar muitos templos nas aldeias. Muitas vezes vemos a pintura só de um ângulo, somente se é ou não bonito, mas estes retratos contêm uma importância que vai muito para além disso, têm uma importância para a sociedade onde se inserem. O trabalho que estou a fazer passa por classificar os retratos segundo os períodos em que se inserem, se é Dinastia Ming, Qing, etc... O meu sonho é publicar um livro e vê-lo numa estante da biblioteca principal. Quando terminar esta investigação, acredito que aí terei mais tempo para voltar a pintar. Tenho desenhado sempre, agora quando estive em Portugal, por exemplo, desenhei imenso, mas não tenho pintado muito. Isto acaba por acontecer porque desenhar leva menos tempo. Se algum dia deixar a arte, morro... Na minha mesa, está sempre o lápis, preciso da textura do papel. Procuro colocar toda a sociedade nos meus desenhos, não desenho só para mim [risos].
- Qual é a análise que faz dos últimos dez anos? Nota grandes alterações socais?
- Ainda não estou habituado a todas estas mudanças, porque Macau era tão tranquila, tão calma... Mas, claro, há também um lado bom em toda esta evolução... Acho que ainda é uma cidade pura, ainda é muito fácil comunicar...A atmosfera também é boa...Por isso, estou feliz, embora nunca chegue, gostava de ver Macau a crescer ainda mais, a ser cada vez mais próspera...

D.M/ R.C.

Desenhar o mundo a carvão

Foge para desenhar, porque o lápis é elemento que se lhe cola às mãos desde tenra idade. Às vezes, como um menino arredio, galga escadas e desaparece de jantares para ir fazer desenhos, confessa Ung Vai Meng, enquanto folheia enormes folhas povoadas por pedaços de paisagens. Quanto à música que lhe compõe os dias é clássica, já a pauta das leituras tem sido preenchida pelos livros de retratos, assunto ao qual tem dedicado muitos pensamentos. Entre fugas em investigação e o afago da família é assim que Ung Vai Meng pinta os fins-de-semana. Em casa tem um cão adoptado na “Anima”, rebento que lhe faz arrancar milhões de gargalhadas. “Todos lá em casa gostam muito dele, tem o pêlo preto, é muito querido”, descreve, ao mesmo tempo que ri durante longos segundos. Quando parte, gosta de viajar pela Europa. Portugal tem na geografia do coração de Ung Vai Meng um lugar especial. “É um país muito lindo”, diz enternecido, contando que ainda lhe falta conhecer Mafra, por ter servido de inspiração para a Biblioteca do Leal Senado. Lisboa tem sido espaço de inspiração. As exposições sopram-lhe recordações, “muitas”, por isso não consegue escolher nenhuma. Mio Pang Fei e Konstantin Bessmertny são os nomes que lhe fazem brilhar os olhos quando se fala em artistas que povoam o território.

 


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