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  N°3306 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 3 de Novembro de 2009

UNG VAI MENG em entrevista ao JTM

UNG VAI MENG ENTENDE QUE A CULTURA EM MACAU “NÃO CHEGA”
“A mudança não depende apenas da Administração, mas de todos nós”

Mais do que criticar, Ung Vai Meng prefere procurar soluções. É homem sonhador quando os olhos se colam à tela e os dedos às tintas, mas chama o pragmatismo sempre que tem de assumir a face de gestor cultural. Foi director do Museu de Arte de Macau e é actualmente chefe dos Serviços Culturais e Recreativos do IACM, o que o leva a fazer agora um trabalho no fundo dos “courts”. Os alicerces para uma base cultural estão a ser moldados de dia para dia, acredita. Em entrevista ao JTM, Ung Vai Meng não tem dúvidas de que se vive numa fase de experimentação, onde o nascimento de uma escola de belas artes toma a forma de imperativo. O futuro, esse deve ser cantado a várias vozes, numa trança entre o Executivo e a restante sociedade

DIANA DO MAR
RAQUEL CARVALHO

- É desde o ano passado, chefe dos Serviços Culturais e Recreativos...
- Sim, desde 1999 que comecei a trabalhar no Museu de Arte de Macau e no ano passado transferi-me para este departamento do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM).
- Podia falar-nos um pouco dessa mudança? Qual é o balanço que faz destes quase dois anos de trabalho no IACM?
- Como todos sabem, o meu ‘background’ é artista, gosto bastante de pintar, de desenhar e, por isso, criei desde cedo uma forte ligação à arte e cultura de Macau. Isto para além da minha ligação ao território, que existe desde sempre. Tanto como director do Museu de Arte de Macau, como agora enquanto chefe do departamento [de Serviços Culturais e Recreativos do IACM] estou muito feliz, porque é uma área muito próxima, muito relacionada com o que sou. Do ponto de vista do trabalho, a diferença entre aquilo que fazia no Museu de Arte de Macau e aquilo que faço agora pode comparar-se a uma pirâmide do Egipto. O museu era o topo da pirâmide...Organizámos exposições com peças vindas do Louvre, do Palácio de Pequim, de artistas como Pablo Picasso ou Joan Miró...Trata-se de um trabalho em que uma das funções é atrair pessoas, para que estas vão lá ver, aprender... Já aquilo que faço no departamento é mais um trabalho de base. Aqui, temos cinco bibliotecas em vez de uma, envolvendo toda a comunidade: existem bibliotecas no Iao Hon, Camões, Toi San... É bastante importante, porque são espaços direccionados para todos os cidadãos. Por isso, somos obrigados a pensar em muitas actividades. Todos os fins-de-semana, por exemplo, temos uma secção para contar histórias aos miúdos. Também há muitas crianças e jovens nesta biblioteca a fazer voluntariado. A principal ambição é ensinar, isso é para nós o mais importante. Na realidade, o departamento possui, essencialmente, três áreas de acção: organizar exposições; actividades diversas (na rua, na praça, no Ano Novo Chinês, o Festival da Lusofonia); dinamizar bibliotecas e museus. As nossas actividades são necessariamente muito ricas e muito variadas.
- Com tão vastas exigências, não é um trabalho demasiado desgastante?
Por vezes, é muito cansativo. Mas é um trabalho tão diferente e com uma vertente social tão vincada que acabamos por esquecer o cansaço. Além das bibliotecas, também temos quatro piscinas e campos livres (por exemplo, na Ilha Verde) aproveitamos qualquer sítio para futebol e outros desportos. Estamos a construir uma base para a cultura e, para isso, temos de usar os mais diversos recintos.
- Então acha que agora faz um trabalho muito mais de base, enquanto que no Museu de Arte de Macau era mais específico...
- Sim. A experiência no Museu foi muito interessante e é-me agora bastante útil, ajudando-me no trabalho deste departamento. Ser chefe de um departamento não é só mandar, exige - neste caso - um conhecimento profundo sobre arte e cultura e, nesse sentido, todas as experiências que tive anteriormente estão agora a ajudar-me. Ainda assim, o tipo de direcção que aqui tenho de assumir é muito diferente, a orientação é muito importante... Por isso, tenho muito prazer neste novo cargo.
- Relativamente ao Museu de Arte de Macau, têm sido tecidas algumas críticas por ter poucas exposições de arte contemporânea. Como é que vê essa orientação?
- Organizar um Museu não é tão fácil como pode aparentemente parecer. É preciso ponderar as oportunidades e, por outro lado, pensar sobre o que é importante para Macau. Mas agora estou fora do Museu, penso que não é correcto falar sobre o assunto.
- Uma vez que está a fazer um trabalho de base em relação à cultura de Macau, qual é que é a avaliação que faz do estado da cultura no território?
- Penso que em Macau a cultura não chega, mas a verdade é que o mesmo se pode dizer em grandes cidades mundiais como Lisboa ou Londres... Admitindo as falhas que são evidentes, o mais importante é estarmos a criar mais oportunidades para os cidadãos poderem ter uma vida mais rica a nível cultural.
- Disse que a oferta cultural não é suficiente. O que é que falta e porque é que existem menos actividades e diversidade se compararmos, por exemplo, com Hong Kong?
- Em Macau, de facto, já temos muitas exposições e muitos concertos. O que falta é, se calhar, capacidade de observação e apreciação. Admito que existam exposições, por exemplo de arte abstracta, que não sejam tão fáceis de interpretar...É preciso trabalhar para dar instrumentos às pessoas, mas como é evidente este trabalho não se faz num dia ou em dois...é algo que nasce no dia-a-dia.
- Falou da grande oferta ao nível de exposições e concertos, já as artes performativas parecem ser formas artísticas preteridas no território. Isso explica-se com a falta de mais locais com as características do Centro Cultural de Macau?
- Não sei. É evidente que mais espaços e oportunidades para ver eventos diferentes é sempre algo positivo. Contudo, não nos podemos esquecer de locais públicos que já existem, como praças, e que podem ser aproveitados para apresentações de dança, por exemplo.
- Ao olhar para os últimos dez anos, entende que é possível falar-se em evolução artística no território?
- Sim. Exemplo disso são as diversas actividades, nomeadamente de origem popular, que têm surgindo ultimamente. Por exemplo, o Art Base. Não foi o Governo que organizou aquele centro criativo. Trata-se de uma iniciativa popular. Estamos a ver a luz ao fundo do túnel... e a ganhar experiência... Diferentes instituições têm organizado diversos ‘workshops’ e a verdade é que existem imensos estudantes interessados que querem aprender gravura, desenho, aguarela. Além disso, amanhã [sábado] vai organizar-se, pela primeira vez, um curso de teatro. Isto prova que, hoje em dia, existem mais oportunidades para aprender. Estamos claramente numa fase de experimentação. Mas penso que Macau precisa de uma Faculdade de Belas Artes! É algo extremamente necessário. Para mim, a educação assume um papel preponderante.
- Uma faculdade de belas artes tinha de partir de uma iniciativa governamental... Devia o Executivo assumir um papel mais activo na promoção da cultura?
- Penso que essa responsabilidade não é só do Governo. Por exemplo, o Instituto Inter-Universitário de Macau lançou, no início deste ano lectivo, o primeiro curso de Arquitectura do território...Denote-se que esta não foi uma iniciativa governamental. O que quero dizer é que a mudança não depende apenas da Administração, mas de todos nós.
- Para além de faltar uma faculdade de belas artes em Macau, essa questão da educação também não passará por uma formação artística ainda no ensino básico e secundário?
- Quando falamos em educação não podemos estar a falar só de escola. Há muitas outras oportunidades para as pessoas aprenderem. Há actividades ao ar livre como o Festival da lusofonia, que é uma maneira não de ensinar de forma directa, mas de promover a arte e cultura. E isso já por si tem a sua importância e o seu peso, porque vai influenciar a mentalidade das pessoas. Por isso, durante as mais diversas festividades – como o Ano Novo Lunar – organizamos muitas actividades na rua, numa tentativa de promover o contacto social.
- A seu ver, os jovens interessam-se pelos assuntos culturais?
- Temos que tentar aproximar-nos da juventude e dos seus interesses. O jovens revelam grande interesse relativamente a áreas como a da animação. É a cultura da juventude. Gostam muito de banda desenhada... É algo que está mais perto da vida deles, esse interesse deve ser estimulado.
- Qual a importância dos novos espaços que têm surgido, como o Art Base ou o Albergue da Santa Casa da Misericórdia? O que é que têm trazido de novo a Macau?
- Este é um período para experimentar. Como disse há pouco não é um trabalho para um só dia. É preciso procurar, observar, perceber como tomar o primeiro passo. Penso que este início é muito bom, porque há várias instituições e unidades a mexerem-se. E se começam a mexer-se e a agitar a cidade, é sinal de que já têm futuro.

 


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