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  N°3306 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 3 de Novembro de 2009
tribuna
A onda dos amigos de Peniche

PEDRO MARQUES LOPES

Há uns anos, durante o Verão, correu um boato nas praias algarvias que dizia que se estaria a aproximar uma onda gigante. Alguma gente correu para locais elevados para ficar a salvo deste desarranjo da natureza. Não houve onda gigante nenhuma, como é do conhecimento geral.
Mais que provavelmente, os inventores deste boato não tinham outra intenção que não fosse divertirem-se um bocado à custa de uns lorpas (como eu). Podia, também, dar-se o caso de se querer instalar o pânico para atingir objectivos menos risíveis.
Agora ponham-se três ou quatro personagens, muito sérias e muito preocupadas com o futuro do partido e do País, a dizer, ao mesmo tempo, nas rádios, televisões e jornais, que existe um salvador para o PSD.
Mais, que já existe uma corrente de “muitos milhares de militantes” (este momento é enfatizado com a nota de que centenas e centenas de mails e mensagens telefónicas foram enviadas) a envidarem todos os esforços para que esse profeta prescinda do seu bem-estar e com enorme sacrifício pessoal desça à Terra. Este ser quase divino não só vai devolver o poder ao partido como afastará os outros perigosos candidatos que, impressionados com a sua inteligência e visão, fugirão com o rabo entre as pernas.
O cidadão social-democrata estremece.
Na dúvida, telefona aos seus companheiros de partido a fim de saber se se está a passar alguma coisa de transcendente. Ninguém parece particularmente entusiasmado.
Reencosta-se na cadeira e recorda-se que aqueles que anunciam o novo Messias foram os mesmos que não duvidavam nem por um instante de que seria a dra Manuela Ferreira Leite a conduzir o PSD a extraordinários resultados eleitorais. Mais um cigarro, e lembra-se que foram estes mesmos cavalheiros que ajudaram a desenhar a estratégia do partido nos últimos tempos.
Já confuso, pergunta-se: “Mas estes tipos não podiam ter ido dizer isto no Conselho Nacional do partido?” “E se pregam tanto a união por que Diabo aproveitaram os tempos de antena para insultarem outros candidatos?”
Em maré de memórias, o cidadão lembra que quem agora diz que é preciso um programa foram aqueles que apregoavam a falta de necessidade de planos e projectos. Ou melhor, quando se chegasse ao poder logo se veria, e o que era importante era falar de algo que nunca compreendeu bem, cujo nome era asfixia ou claustrofobia democrática ou lá o que era.
O tempo vai passando e a onda teima em não aparecer.
Percebendo que, com amigos destes, o salvador não precisa de inimigos, resolve reflectir sobre o dito.
Não foi ele que disse que não estava disposto a concorrer à presidência do partido por, no fundo, não estar com disposição para se confrontar com outros candidatos num imaginário ringue? Não foi esta pessoa que disse que gostava muito do poder que diz ter como comentador? Não foi este o mesmo cavalheiro que já foi presidente e saiu sem que nada tivesse ficado melhor? Não foi ele que ainda mal estavam fechadas as urnas já admitia estar a ponderar se deveria ponderar candidatar-se? E onde estão os programas e os objectivos? E, afinal, onde está a onda?
Qualquer semelhança com a história da “vaga de fundo” para levar Marcelo Rebelo de Sousa à presidência do PSD com a “onda gigante” algarvia não é mera coincidência. De facto, tal como a onda, esta “vaga” não existe mas o efeito que se quer obter é, neste caso, claro.
É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa nada tem a ver com aquela historieta para enganar tolos. Fosse o professor o autor e teríamos uma história como deve ser. Meteria umas iguarias, umas conversas secretas, uns telefonemas a meio da noite e uns truques esquisitos. Seria provavelmente tão fantasiosa como a outra mas muito mais bem contada e, sobretudo, mais divertida.

JTM/DN



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