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  N°3256 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 1 de Setembro de 2009
tribuna
Escrever o hino de dois países mas ser fiel à mesma pátria

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Escreveu os versos do hino soviético por ordem de Estaline, recriou-os depois da desestalinização e viu ainda Vladimir Putin encomendar-lhe uma versão para a Rússia pós-comunista. Só não ofereceu os serviços também aos czares porque tinha apenas quatro anos quando a revolução bolchevique triunfou. Como o próprio Serguei Mikhalkov gostava de proclamar, as ideologias não interessavam, apenas servir o Estado. Morreu na semana passada, com 96 anos, fiel a esse princípio. Os críticos dirão até que demasiado fiel. Nos tempos da União Soviética, esteve na primeira linha dos ataques a dois Nobel da Literatura, Boris Pasternak e Alexander Soljenitsyne. Acusados de traição aos ideais comunistas, o primeiro recusou o prémio, o segundo acabou destituído da nacionalidade. Mikhalkov também não se livra da suspeita de oportunismo pela publicação em 1937 do poema Svetlana. Explicou depois que era dedicado a uma namorada e não à filha de Estaline, mas a verdade é que despertou o interesse do líder soviético pelo jovem autor de O Tio Stiopa, gigante que fazia boas acções e ainda é popular entre as crianças da Rússia. Finalmente, em 1944, o hino soviético, com versos de Mikhalkov e música de Alexander Alexandrov substituía A Internacional. Estaline, claro, era idolatrado. Um dos versos pode ser lido hoje de novo na Kurskaia, estação do metro de Moscovo reinaugurada dois dias antes da morte do poeta: “Estaline inspirou-nos a fé no povo, no trabalho e nos grandes feitos.”
Mesmo esquecendo a mudança de versos feita em 1977 para limpar as referências a Estaline (após duas décadas de versão só instrumental), Mikhalkov escreveu dois hinos em teoria para dois países. Depois do interregno de uma década por decisão de Boris Ieltsin, os russos voltaram a ouvir a música do velho hino, o tal que em Seul, nos últimos Jogos Olímpicos onde esteve a União Soviética, fora o mais tocado (55 medalhas de ouro, contra 36 dos Estados Unidos). Chegado à presidência, Putin, ex-agente do KGB, encomendou a Mikhalkov nova letra para os acordes de Alexandrov. E o poeta fê-la. Comparável só Tagore, cujos versos dão os hinos da Índia e do Bangladesh. Mas o Nobel de 1913 já morrera quando esses países se tornaram independentes .
Pode-se admirar Mikhalkov pelo seu amor à pátria, seja qual for a ideologia. Ou criticá-lo por ter sabido estar bem com Deus e com o Diabo (ou vice-versa, pois a nova letra fala da ortodoxia). Mas a sua história, como a de Putin, serve para relembrar um facto: o Império de Pedro o Grande, a União Soviética de Estaline (mesmo sendo georgiano) e a Rússia do Presidente Dmitri Medvedev e do agora primeiro-ministro Putin é no essencial o mesmo país. Uma grande potência, autocrática, com ambições a liderar o mundo. Só durante a era Ieltsin foi possível acreditar que seria diferente - uma Rússia frágil, democrática, conciliadora com o Ocidente. Nesse tempo o hino era também outro e isso não foi mera coincidência. Sobre o legado de Mikhalkov, uma achega: dois grandes nomes do cinema são seus filhos: Andrei Konchalovski e Nikita Mikhalkov.

JTM/DN

 


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