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  N°3146 (Nova Série), Sexta-Feira, 8 de Maio de 2009
Efeméride
RECORDANDO OS INTERPORTS DE FUTEBOL MACAU/HONG KONG
Quando “um jovem” derrotou uma selecção

Estamos no ano de 1953 e Hong Kong trouxe a Macau talvez o mais forte conjunto de sempre. Mas nesse dia, quem brilhou foi um jovem que segundo o próprio presidente da Associação de Futebol de Hong Kong derrotou a sua equipa. Chamava-se Augusto Rocha e ainda hoje é o melhor jogador de futebol de sempre nascido em Macau

henrique manhão*

Os encontros de futebol mais importantes no calendário da Associação de Futebol de Macau eram os “Interports” entre a selecção de Macau e a da cidade vizinha de Hong Kong.
Iniciados em 1937, os “Interports” eram realizado, alternadamente em Hong Kong e em Macau.
Antes do desafio o Governador e/ou um representante da cidade anfitriã deslocavam-se ao terreno do jogo para serem apresentados aos jogadores e aos membros da equipa de arbitragem. Logo a seguir, e por uma banda, eram tocados os hinos nacionais da Grã-Bretanha e de Portugal.
À noite, realizava-se o jantar de confraternização, altura propícia, para os presidentes das Associações de Futebol de Macau e de Hong Kong tecerem vários comentários sobre a situação da modalidade nos territórios, terminando por fazerem um pedido aos presentes que os acompanhassem num brinde pela amizade Anglo-Sino-Portuguesa.
Nas semanas anteriores ao dia dos jogos, não se falava de outra coisa, quer em Macau, quer em Hong Kong, e a própria imprensa da época dava o maior destaque aos possíveis intervenientes e à forma que as equipas apresentavam.
Em Macau o tema chegava a tornar-se o mais importante do território e a possibilidade de vitória era discutida ao mínimo pormenor pelos chamados “treinadores de bancada”.
Os jogos eram realizados no então denominado Estádio “28 de Maio”, hoje Campo do “Canídromo”. Nesses dias, era garantido que se esgotava a lotação, sendo a multidão de adeptos constituída por civis de ambas as comunidades e militares do Exército e da Marinha.
“A Voz de Macau” então o único diário em língua portuguesa em Macau nessa altura publicava umas páginas especiais dedicadas aos eventos, com fotografias do treinador e jogadores da equipa de Macau. E quando a equipa local ganhava havia festa rija e jantares em sua honra.
Os dois primeiros “Interports”, foram ganhos por Macau sem dificuldades, porque Hong Kong foi representada por uma selecção constituída por jogadores da Segunda Divisão.
Já em 1941, meses antes da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, a oposição foi muito diferente porque na equipa foram integrados o consagrado jogador chinês Lei Vai Tong e alguns dos melhores futebolistas militares britânicos.
Mesmo assim Macau conseguiu vencer por uma bola a zero, facto que foi considerado como uma façanha. É que aquela foi a única derrota da selecção de Hong Kong daquela época.
Do conjunto de Macau, faziam parte Artur dos Santos(Cascais), António Colaço, Américo Córdova, Alexandre Airosa, Ip Pou Tou, Leung Sui Wah, Gomes, e Delfim de Carvalho(KingKong) autor do tento.
Devido ao segundo grande conflito armado mundial, os “Interports” ficaram interrompidos de 1942 a 1945, tendo sido retomados em 1946, quando Macau foi derrotado por 3-2. A representação de Macau teve como base a equipa da Policia.
Em 1947, Macau voltou a ganhar por 4-2, apesar de, ao intervalo estar a perder por 2-0. Na reviravolta do resultado salientou-se Tiago Badaraco que fez um “hat-trick” sensacional..
Em 1948, 1949 e 1950 Macau foi sempre derrotado.
O melhor resultado conseguido por Macau nas séries dos “Interports” foi em 1951, ganhando por 3-0. Alinharam por Macau, Teixeira, Cheong Siu Lin, Tou Lin Kai, Alfredo Cotrim,Koc Seac, Lou Hon San, Mário Alberto, Abel Chung, Joâo Rocha, Carlos Paulo e Lei Ian Veng que marcou um lindo golo. Lei Ian Veng foi logo cobiçado pela equipa do “South China” de Hong Kong, como era tradicional acontecer a todos os locais que sobressaíam nas partidas.
Em 1952, Macau perdeu outra vez em Hong Kong por expressivos 4-0, mas no ano seguinte tudo se transformou.
O jogo foi em Macau e a selecção local venceu por 3-2, uma poderosa equipa de Hong Kong, que integrava o guarda-redes Granger, considerado o melhor de todos os tempos de Hong Kong, o ídolo Iu Cheoc In e os defesas Amstrong e Stones.
Sem o saberem, esse “Interport” marcou ainda a consagração do mais valioso jogador de Macau de todos os tempos, esse “pequeno gigante” Augusto Rocha que “passeou” a sua classe nos relvados portugueses chegando a integrar a selecção nacional em 1966, quando Portugal alcançou o terceiro lugar no Mundial de Inglaterra.
Da equipa de Macau, treinada pelo capitão Palmela, faziam parte Afonso, Francisco Cunha, Luís Cunha, Filomeno da Rocha, Baptista, Alfredo Cotrim, Abel Chung, Carlos Paulo, João Rocha e Augusto Rocha, mas foi este o herói do encontro, marcando dois golos.
Para alem dos golos, tal foi a sua influência no decurso do jogo, que no jantar em honra dos visitantes, o presidente da Associação de Futebol de Hong Kong disse que tinha sido “aquele jovem” que derrotara, completamente a equipa de Hong Kong.
Augusto Rocha iria rapidamente para Portugal, onde ingressou no Sporting Club de Portugal que um ano mais tarde o deixou ir para a Académica de Coimbra de onde nunca mais saiu
Em 1954, Macau perdeu em Hong Kong por 7-4 e em 1956 por 5-3 em Macau, não se tendo realizado o Interport de 1955, por razões que desconheço.
A partir de 1956, os “Interports” deixaram de ter a mesma importância. O futebol começou a ser gerido por várias Comissões Administrativas, nomeadas pelo Governo.
Em 1957, Pao Ma Chong foi eleito presidente da Direcção da AFM - o primeiro chinês a ocupar este cargo. Durante a sua presidência, visitaram Macau, o Sport Lisboa e Benfica, com o famoso Eusébio, o Sporting Clube de Portugal e o Varzim. Em 1956, já cá tinha estado a equipa dos “Ferroviários de Lourenço Marques” que foi convidada para a inauguração do Estádio de Futebol de Hong Kong.
A Associação de Futebol de Macau foi estabelecida em 1939 e reconhecida pela Federação Portuguesa de Futebol como sua filial.
João Havalanche, então presidente da FIFA, acompanhado do seu secretário, visitou Macau em 1971 a convite de Henry Fok e foi nessa altura que a AFM apresentou a sua candidatura à FIFA.
Orgulho-me de ter feito parte desse processo.

* Colaborador regular do JTM

 


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