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  N°3129 (Nova Série), Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009
FALAR DE NÓS
Para a memória do desporto macaense

jorge A. H. Rangel*

“Lembrar os projectos, as realizações, os protagonistas e os momentos mais significativos do rico e acidentado caminho percorrido é também promover um melhor conhecimento de Macau e das suas gentes...”

“Desporto em Macau 1981-1985 – Contributo para um melhor conhecimento” é o título do livro de Fernando Vinhais Guedes, lançado no passado dia 26 de Março, numa bonita e bem participada sessão no Clube Militar. Edição do Jornal Tribuna de Macau, a obra teve patrocínios e apoios do Banco Nacional Ultramarino (Macau), do Instituto Internacional de Macau e do C & C Multimédia.

Contributos para a memória

Por amável deferência do autor, o livro insere um pequeno prefácio meu e fiz uma breve intervenção naquela sessão, para realçar a importância de trabalhos que possam contribuir para a memória de Macau, desafiando as entidades oficiais a incentivarem mais estudos e publicações que permitam alcançar este objectivo. Acho, por isso, que devemos saudar o aparecimento deste livro e felicitar o seu autor, competente técnico na área da motricidade humana que, no início da década de 80 do século passado, ainda jovem, assumiu responsabilidades cimeiras no organismo oficial coordenador e orientador da actividade desportiva, empenhando-se, com a valiosa colaboração de outros qualificados quadros, na criação de condições mais favoráveis ao correcto e eficaz desenvolvimento do desporto, em todas as suas vertentes.
Tive o privilégio de, como membro do Governo, tutelar as áreas da Administração Pública, da Cultura, do Turismo, da Educação, da Juventude e do Desporto e, assim, acompanhar de perto os desafios colocados e a forma como foram vencidos. O Dr. Vinhais Guedes iniciou funções em Macau alguns meses após a minha posse, em Maio de 1981. Escolhido pelo meu antecessor, mantive a sua nomeação depois de o conhecer em Lisboa, quando me procurou no então Hotel Penta (agora Marriott). Estava ali hospedado para participar no I Congresso das Comunidades Portuguesas, em vésperas de integrar o elenco governativo do Contra-Almirante Vasco de Almeida e Costa.
A determinação, o entusiasmo e as qualificações daquele técnico, bem como a equipa que já estava a reunir, fizeram-me apostar na sua colaboração e confirmar a sua designação para a chefia da então Repartição da Juventude e Desportos, subunidade orgânica da Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Embora os meios humanos e materiais fossem ainda muito escassos, queria o Governo dar um novo impulso a áreas governativas bastante negligenciadas, como eram as da cultura e do desporto, até então contando com limitada intervenção oficial e reduzidos sustentáculos financeiros e técnicos. Foi assim que, pouco depois, se criou o Instituto Cultural de Macau, ao mesmo tempo que, com o desenvolvimento que a Repartição da Juventude e Desportos foi dando ao sector, se preparava o diploma que visava a institucionalização de uma nova entidade responsável pelo desporto, saindo as duas áreas do âmbito dos Serviços de Educação.

Um percurso que é justo enaltecer

Na introdução ao livro, Vinhais Guedes sintetiza deste modo o percurso dos organismos responsáveis pelo desporto:
“A primeira estrutura responsável pelo Desporto de Macau foi o Conselho Provincial de Educação Física, órgão composto por personalidades nomeadas pelo Governo, que reuniam, principalmente, para atribuir subsídios a clubes e associações, bem como autorizar as deslocações a países vizinhos. Era um órgão pago somente com senhas de presença. Dispunham de um adjunto técnico que elaborava as respectivas actas com as decisões tomadas, fazendo-as chegar ao representante da tutela, para este tomar as decisões em causa. Tendo como último presidente o professor Silveira Machado, teve como membros o professor Viana e os senhores Chui Tak Kei, Mário Robarts, Peter Pan, Adé Ferreira e Morais Alves.
Convém reconhecer que um órgão a trabalhar nestas circunstâncias tinha grandes limitações e sempre que os escassos recursos financeiros esgotavam, a sua actividade cessava.
Ao único adjunto técnico que lhes dava apoio cabia ainda a responsabilidade de fazer o planeamento da distribuição das instalações gimnodesportivas, solicitadas pelas associações e clubes desportivos do território.
O Conselho Provincial de Educação Física foi substituído pela Repartição da Juventude e Desportos e esta substituída, no início de 1986, pelo Conselho dos Desportos, órgão transitório, já com a separação do Desporto Associativo do Desporto Escolar e Actividades da Juventude. Um ano mais tarde, em 1987, foi criado o Instituto do Desporto de Macau (IDM), agora designado com o mesmo nome, ao que foi acrescentado da ‘Região Administrativa Especial de Macau’ (RAEM).”
Foi, de facto, de altíssimo mérito a acção do Conselho Provincial de Educação Física, funcionando em precaríssimas condições e alcançando resultados positivos graças à devoção dos seus membros a uma causa em que acreditavam e que, por isso, mobilizava energias e dedicações de muitos. Com vontade política e meios substancialmente acrescidos, foi possível, mais tarde, promover o salto qualitativo desejado.

Um notável desenvolvimento

Os vários capítulos do livro referem as principais acções realizadas, nos sectores escolar e associativo, no desporto para todos, com uma resposta entusiástica da população, na formação, no aproveitamento de espaços e na criação de novas instalações, sendo também apontadas medidas para o desenvolvimento do desporto em Macau. Uma selecção de fotografias, gráficos e recortes complementa o texto.
No que respeita a instalações, são desse tempo o bem sucedido aproveitamento da colina da Guia como infra-estrutura modelar para a prática do desporto para todos, a construção do Fórum de Macau, do pavilhão de Mong-Há, do complexo desportivo de Hac-Sá e da piscina de Cheok-Van, assim como melhoramentos significativos instroduzidos nos espaços desportivos da Caixa Escolar e das escolas oficiais, no Estádio 28 de Maio (Canídromo), no campo de hóquei (Campo Coronel Mesquita), no Centro Náutico e no Ténis Militar, além de estudos que conduziram, depois, à aprovação de novos recintos, como o Estádio de Macau (na Taipa) e a Piscina do Canídromo.
Este trabalho de base, consistentemente preparado na primeira metade da década de 80, foi da maior utilidade e, de certo modo, determinante para a grande expansão que o desporto teve em Macau na década de 90, o que lhe permitiu ganhar, logo a seguir, um lugar prioritário na acção governativa, no dealbar do século XXI, na vigência da RAEM.

Breve nota sobre o autor

Licenciado pelo Instituto Nacional de Educação Física, Fernando Vinhais Guedes chefiou a Repartição da Juventude e Desportos de 1981 a 1985, dando ao desporto macaense um impulso reformador e uma coordenação consistentemente estruturada, com o apoio de uma equipa de técnicos qualificados e o envolvimento de quadros locais, a quem foi dada a necessária formação. De 1986 a 1988, foi o dinamizador e depois director do Fórum de Macau, organismo dependente do então Leal Senado.
A sua obra mais emblemática, a que dedicou o maior dos entusiasmos, foi o aproveitamento da Colina da Guia para a prática desportiva e actividades de recreio e lazer, empenhando-se no seu constante desenvolvimento e intensivo funcionamento.
Estudioso do fenómeno desportivo, é co-autor do livro “Olhares sobre o Desporto”, conjuntamente com os Professores Manuel Sérgio e Gustavo Pires, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, e com o Mestre André Escórcio, que foi meu colaborador em Bissau, quando ali dirigi, em 1973-74, a Escola Marechal Carmona, a maior da então Guiné Portuguesa, com mais de quatro mil alunos.
Vinhais Guedes escreve regularmente nos semanários “Transmontano” e “Desporto na Madeira” e dá colaboração pontual ao Jornal Tribuna de Macau.
Trabalhos como “Desporto em Macau 1981-1985” valem bem como subsídios para a História do desporto macaense. Lembrar os projectos, as realizações, os protagonistas e os momentos mais significativos do rico e acidentado caminho percorrido é também promover um melhor conhecimento de Macau e das suas gentes, em fases diferentes da vida deste singular território, hoje região especial da República Popular da China.

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2as feiras

 


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