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  N°3100 (Nova Série), Sexta-Feira, 20 de Maro de 2009
EFEMÉRIDE

HENRIQUE MANHÃO*

Relembrando “Caminhos Longos”

Foi em 1955, quando o almirante Joaquim Marquês Esparteiro governava Macau, então recentemente declarada como “Província Ultramarina Portuguesa”.
No mesmo ano em que nasceram o Chefe do Executivo Edmundo Ho, o Procurador Ho Chio Meng e o presidente do Instituto de Estudos Europeus, Sales Marques, na altura em que foi criado o Colégio Mateus Ricci e acabaria por falecer Sir Robert Ho Tung.
A neutralidade de Portugal na segunda Grande Guerra tinha ajudado a que Macau prosperasse como porto franco, e o grande acontecimento era o II Grande Prémio de Macau que levara a que durante a Primavera e início do Verão, a totalidade da parte interior do circuito fosse encerrada ao trânsito para ser asfaltado. Escreveu-se que ajudou Robert Richie, de Hong Kong, a vencer a prova de 60 voltas, num Austin Healey 100, com um tempo de quase quatro horas. Menos de um segundo depois, terminou o Mercedes 190 SL de Douglas Steane.
No jornalismo local, destacava-se Deolinda da Conceição, e o “Clarim” passava a bi-semanário. Ainda longe da ideia de celebrar o quarto centenário do estabelecimento dos portugueses em Macau que viria a causar fricção entre Portugal e China, rodava-se uma longa metragem com produção da Euro-Ásia Filmes, com o título “Caminhos Longos”.
Foi uma longa metragem, filmada, totalmente em Macau, falada em português, inglês e em mandarim, que apresentava lindas paisagens do antigo Macau e com cenas rodadas no vapor Fat San que nessa altura fazia carreiras entre Macau e Hong Kong, sendo estreado no Teatro Vitoria.
Com o apoio do governador Marques Esparteiro e de José Pedro Lobo, José Silveira Machado foi o produtor e o argumentista do filme e Eurico Ferreira assegurou a sua realização. O professor Serra de Almeida assegurou os diálogos em português.
Os protagonistas eram na maioria amadores com excepção de Chung Ching e Wong Hou, actores chineses de grande prestígio. Joaquim Camacho Rufino fazia o papel dum cabo que se apaixonava por uma moça de Macau, representada por Irene Botelho. O Sargento Salgueiros protagonizava o Chefe do Estado Maior e Manuel Sapage fazia de médico. António Pedro fez o papel do Inspector da Judiciária e a Irene Matos fazia o papel da filha do casal de refugiados de Xangai com que começava o filme a bordo do Fat San.
O enredo tinha duas “linhas” fortes: uma era centrado num contrabandista chinês, casado com a enfermeira Teresa, que estava em maus lençóis com as autoridades policiais. Implorado pela esposa do delinquente, o inspector Baptista conseguiu livrá-lo de prisão; a outra era o namoro dum cabo com uma macaense. O cabo tinha dificuldades em renovar a sua comissão de serviços para continuar em Macau. Tudo acabava em bem graças aos bons ofícios do Chefe do Estado Maior.
Margarida Saraiva no site da UBI-Universidade da Beira Interior comentaria que “de enredo romântico, marcado pelos acontecimentos da China moderna, tais como a guerra e a chegada a Macau, cidade refúgio, o argumento falava-nos do amor de dois jovens num contexto de paz podre, a paz possível. O filme insinuava a fuga, a miséria, a prostituição, o contrabando, construindo uma imagem negativa, embora exótica, da cidade de Macau”.
Algumas cenas foram filmadas no aquartelamento militar de Mong Há em que o cabo sonhava, constantemente com a sua namorada; na antiga residência da professora Celestina Melo no Chunambeiro que servia de escritório do médico, representado pelo Manuel Sapage; no campo do Canídromo antes duma partida de “Soft-Ball”; no cabaret do hotel Kuoc Chai em que se destacava a presença do agente de polícia Reis, mais conhecido por “Bacalhau”, dançando ao som da musica, executada por uma orquestra composta por filipinos, acompanhada pela cantora Lola Young Peng, que mais tarde decidiu comprar uma granja em Coloane e por lá permaneceu algum tempo.
E Margarida Saraiva recorda: “após uma semana em exibição no teatro Vitória, o filme foi retirado de circulação. O produtor do filme, Silveira Machado, garantiu-nos que a obra tinha graves problemas de som e que foi esse o motivo pelo qual se decidiu enviar a película para Hong Kong para “uns acertos finais”. Sabe-se que a cópia enviada para Portugal (nomeadamente para a Lusomundo) nunca chegou a ser exibida e que a que foi enviada para Hong Kong deu origem, segundo se conta, a uma nova versão do filme, incluindo apenas as passagens faladas em chinês.”
Escreve a académica que “o certo é que o filme perdeu-se. Luís Pina insinua, num texto publicado pela Cinemateca Portuguesa por ocasião da realização do Ciclo “Macau em Busca do Retrato Perdido”, que a película tenha sido simplesmente “censurada”, dado a imagem negativa que transmitia da cidade de Macau, acrescentando que a Cinemateca tem procurado em vão o seu paradeiro.”
*Colaborador regular do JTM

JTM/Diário de Notícias

 


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