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  N°3096 (Nova Série), Segunda-Feira, 16 de Mar¬o de 2009

Dossier

Biografia do último eunuco chinês revela uma vida tumultuosa

Castrado aos oito anos de idade, Sun Yaoting estava destinado a uma vida de luxo no interior da Cidade Proibida. Em vez disso, ele experimentou as intrigas palacianas, a guerra, a revolução, o desprezo e, finalmente, o reconhecimento

De acordo com a notícia do “China Daily” que deu conta do lançamento da edição em inglês da sua biografia, Sun Yaoting foi castrado aos oito anos de idade, com um simples golpe de navalha executado pelo seu próprio pai.
Estavam em 1911, e a China encontrava-se em total turbulência. Apenas alguns meses mais tarde um dos vários grupos de rebeles depôs o Imperador, derrubando séculos de tradição e estabelecendo a República.
“O nosso menino sofreu para nada”, terá dito o pai, chorando e batendo o peito, quando soube que o Imperador tinha sido destronado. “Eles não vão precisar mais de eunucos!”.
Mal ele sabia, no entanto, que a criança acabaria por ganhar um lugar na história chinesa. A corte imperial foi ressuscitada durante o tempo suficiente para dar uma oportunidade a Sun de servir a esposa de Pu Yi, então apenas uma criança mas que mais tarde seria o último Imperador.
Ganhou assim a distinção de ser o último eunuco ao serviço do último Imperador chinês, primeiro no interior da Cidade Proibida onde os republicanos, divididos em múltiplos grupos, deixaram “enterrada” a família Imperial, a viver no ócio e na esperança-temor de qualquer alteração.
Depois de os comunistas chegarem ao poder em 1949, Sun e outros eunucos sobreviventes foram desprezados como símbolos do passado feudal. No final dos anos 60, Sun quase acabou por ser morto durante a Revolução Cultural, e tal como outros eunucos tiveram tanto temor da perseguição que jogaram fora os seus “bao”, ou seja “o tesouro”: os órgãos genitais cortados que eunucos mantinham numa jarra para que pudessem ser enterrados como homens completos.
Só nos últimos anos de sua vida, é que Sun foi reconhecido como um “legado vivo” da história chinesa. Nestes meados de Março foi finalmente traduzida para Inglês, a sua biografia baseada em horas de entrevistas durante os anos anteriores à sua morte, em 1996.
Ao mesmo tempo, Pequim está a terminar a instalação de um museu dedicado aos eunucos, construído em torno do túmulo de um século 16. Se a programação for cumprida, em Maio dar-se-á a abertura deste museu inédito.
Seja por interesse lascivo ou académico, a verdade é que tem aumentado a curiosidade sobre o papel desta figuras no interior da corte Imperial chinesa, o cento de Poder da China durante muitos séculos.
A castração foi pensada para tornar os eunucos como “não pessoas”, “seres” sem ambição ou ego, de modo a que a sua presença nas zonas mais íntimas do palácio imperial, não violavam a privacidade do imperador.
“O eunucos eram muito misteriosos e nalguns aspectos até mais interessantes que os Imperadores, em si”, disse Jia Yinghua, biógrafo de Sun.
Jia conheceu-o quando estava a fazer investigação para escrever um livro sobre Pu Yi. Pouco tempo depois, conseguiu a aprovação do ex-eunuco para poder gravar as conversas com ele, de onde resultaram mais de 100 horas de registo.
A biografia, “O Último Eunuco da China – A Vida de Sun Yaoting”, contém tudo o que uma pessoa, académico ou mero curioso, pode querer saber sobre as terríveis provações de um homem chinês se tornar um eunuco, juntamente com muito do que, provavelmente, nunca pensou ficar a saber.
Basta dizer que os meninos passavam pela imensas dores da castração sem benefício de anestesia (excepto sumo de pimentos, em alguns casos). A juntar a uma vida de impotência, muitas vezes sofriam de incontinência tudo em troca de entrada para o palácio.
Sun foi um caso especial: inspirado por um eunuco mais velho da sua aldeia, que se tinha tornado rico, decidiu por si próprio que era esse caminho que queria seguir. Pouco tempo depois, o Imperador foi deposto, mas então já não havia qualquer hipótese de recuar na decisão, uma vez que a castração o deixara demasiado fraco para trabalhos agrícolas, o único trabalho que poderia fazer se ficasse na aldeia.
Contudo e contra toda a lógica, os Republicanos mantiveram o Imperador a governar a Cidade Proibida (o resto da China estava-lhe vedado) e o jovem Pu Yi e os seus conselheiros mantiveram o anterior aparato de poder no interior dos muros palacianos.
Por isso, Sun chegou a Pequim aos 14 anos, ainda com a longa trança que na altura era usada pelos rapazes chineses. Começou por trabalhar directamente com um dos tios do Imperador, e mais tarde com a primeira mulher de Pu Yi.
Até 1932, teve tempo para conhecer as intrigas palacianas que eram feitas pelos eunucos, pelas mulheres, pelos familiares do Imperador, cada um a tentar ganhar uma fatia do modesto poder que Pu Yi tinha dentro da Cidade Proibida, onde apesar de tudo as convulsões políticas e militares da China eram desconhecidas, nomeadamente a invasão japonesa.
Em 1932, seguiu com a família imperial para a Manchúria após Pu Yi ter sido colocado, pelas forças japonesas, como Imperador do estado “fantoche” da Manchúria, a zona mais rica de toda a China.
Sun privou de perto com os mais íntimos segredos do Imperador, que depois de uma primeira fase de satisfação por se ter libertado da “prisão” da Cidade Proibida, rapidamente se apercebeu que o seu “trono” na Manchúria não era mais que uma “gaiola dourada”, ao serviço dos ocupantes japoneses.
Então Sun teve acesso a todos os segredos da casa imperial, a dependência do ópio, os casos amorosos e a gravidez da primeira esposa do imperador, Wan Rong, alegadamente de um oficial japonês e a própria ambivalência do Imperador sobre a sua própria sexualidade. Sun disse ao seu biógrafo que Pu Yi estava menos interessado na sua mulher do que num determinado eunuco, que “parecia uma menina bonita com a sua alta, esguia figura, rosto bonito e cremosa pele branca.” A propósito, Sun recordou que os dois eram “inseparáveis do corpo e da sombra.”
Depois das forças de Mao Tse-tung chegarem ao poder, a maior parte dos eunucos ficou pobre e marginalizada. Alguns afogaram-se, ou foram afogados , nos poços da Cidade Proibida. A Sun, um dos poucos que tinha estudado, acabaram por lhe oferecer um lugar como zelador de um templo, onde viveu até à sua morte.
As lembranças de um filho adoptivo e um neto, juntamente com a biografia, fazem dele um dos mais documentados eunucos dos tempos modernos e a sua biografia constitui-se como uma invulgar memória da história recente da China.
UMA DIFERENTE IMAGEM. Sabe-se que o eunuco Cai Lun tem sido creditado como o inventor do papel no ano de 105 e o almirante Zheng He tornou-se no século XV,um dos maiores exploradores marítimos da China. Normalmente, porém, os eunucos são representados na literatura chinesa como intriguistas e gananciosos, os vilões do poder palaciano que advinha dos favores atribuídos pelo Imperador.
Daí a importância das actuais autoridades chinesas terem avançado na criação de um Museu do Eunuco, afinal uma figura vinda das classes mais baixas da sociedade chinesa.
O Museu está guardado por figuras de pedra, situado num cemitério onde se encontra sepultado o eunuco Tian Yi, que se celebrizou na dinastia Ming e morreu em 1602. Os eunucos não eram autorizados a ser enterrados com as suas famílias, pelo que vários outros importantes eunucos encontraram o seu repouso final na zona do túmulo de Tian Yi’s, no sopé das colinas a oeste de Pequim.
Escondido por trás do que fora uma escola primária, os túmulos conseguiram escapar à destruição durante a Revolução Cultural e a zona foi dada a conhecer ao público, pela primeira vez, em 1999.
Com a criação do Museu passaram a estar expostas, pinturas de eunucos, uma colecção de fotografias sobre a vida de Sun Yaoting e outros eunucos mais importantes no século XX, e objectos como as facas curvas que usavam para os castrarem.
“Os eunucos são parte de uma longa tradição chinesa, que continua até hoje e pela qual as pessoas normais tinham que fazer tudo para servir o todo-poderoso governo central”, disse Cui Weixing, um crítico literário e cultural que tem escrito sobre eunucos.
“Talvez por isso o governo chinês não esteja tão ansioso para publicar algo sobre eunucos. Mas é um bom começo que tenhamos este museu, para que as pessoas possam começar a aprender.”

J.R.D.

 

 


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