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  N°2924 (Nova Série), S­bado, 13 de Setembro de 2008
memória
A Festa do Bolo Lunar Bate-Pau

leonel barros*

Macau celebra amanhã o Festival do Bolo Lunar

A China, é um país eminentemente agrícola e portanto a maioria das festividades encontra-se sempre ligada às estações, à produção rural.
Por assim ser, os chineses espalhados por todo o mundo celebram o chamado T’Chang-Chau-Chit isto é o décimo quinto dia, do oitavo mês lunar, marcando o equinócio do Outono, que significa o fim das colheitas.
A Lua, segundo a opinião dos chineses, nesse dia, encontra-se mais redonda e mais brilhante. Reza a filosofia oriental que, nesta altura do ano, a harmonia dos elementos do yang e do ying, respectivamente masculino e feminino, começa a alterar-se, pendendo para o feminino. A essência do yang, começa a enfraquecer-se com o tempo do Verão, sendo a altura do ying exercer o seu domínio até final do Inverno, quando esse cede lugar à energia do renascimento, na Primavera.
A Lua redonda e luminosa simboliza a feminilidade e união familiar. Era costume, antigamente, familiares afastados regressarem ao lar para celebrar essa festividade da mesma forma como faziam com a passagem do Ano Novo Lunar.
São os deuses que determinam a curva da existência de todo o chinês e por isso, é da maior conveniência e utilidade estar em boas relações com eles, oferecendo-lhes ricos presentes, humilhando-se diante dos seus rostos severos e queimando em seus altares pivetes e velas, para que eles façam prosperar as suas vidas e os seus haveres. Essa tradição, essencialmente religiosa, vai passando de pais a filhos, como uma herança de família que é necessário conservar rigorosamente em todas as suas praxes.
Assim se explica o facto do novo povo chinês viver ainda agarrado a uma tradição de milénios e celebrar todos os anos, como o fazia há milhares de anos, todas as suas festas subordinadas ao calendário do ano lunar.
A mais importante, porém, a mais típica, é talvez ainda a festa do Bolo Lunar cujo nome vem dos característicos bolos, que, nesta ocasião e conforme determina o rigoroso código de etiqueta chinesa, se permutam entre parentes, amigos e conhecidos.
Metidos, quatro a quatro, em caixas de papelão, cuja tampa representa um motivo das várias lendas que se contam acerca da invenção e criação deste bolo, saem das pastelarias da especialidade, em grandes quantidades para irem deleitar o paladar dos convivas, em reuniões familiares ou de carácter social.
Estas reuniões constituem a forma mais expressiva de celebrar esta festividade. As reuniões familiares, geralmente realizadas nas varandas ou nos terraços voltados para a Lua, iluminadas apenas por lanternas cujas silhuetas, projectando-se nas paredes produzem um efeito estranho e exótico, destinam-se sobretudo a proporcionar a todos os membros da família alguns momentos de alegre confraternização.
As mulheres e raparigas põem todo o seu cuidado nas oferendas que fazem visto que sendo a Lua o símbolo do propício feminino, dela depende toda a sua felicidade.
Entre as ofertas à Lua não faltam nunca as frutas de forma arredondada, e por isso, as toranjas, as carambolas, os diospiros, as maçãs e as laranjas são muito procuradas apesar do seu elevado preço, por não serem frutas da estação. Além das frutas, nota-se também a presença da castanha aquática leng-kock, porque tendo a forma muito parecida com o morcego chinês, é considerada um emblema de felicidade.
Antigamente, uma das características destes reuniões era a presença dos músicos cegos que entretinham as pessoas presentes.
Os chineses põem sempre um esmero especial na ornamentação, pois consideram-na de grande importância nesta festividade. Basta observar as suas moradias, as lojas comerciais, os clubes ou recintos públicos. Nas casas de habitação esse trabalho é confiado à habilidade e bom gosto das filhas mais velhas, orientadas pela mãe. Nas lojas comerciais são os empregados os responsáveis pela ornamentação. Constituem motivos de ornamentação, as lanternas chinesas sá-tang, de formas e feitios variados e de muitas cores, em que predomina o vermelho, as borboletas que são o símbolo da longevidade e as lagostas que dão alegria e tornam-nos resignados com a nossa sorte, meios de fortuna e condição social.
Os alunos das escolas ornamentam as classes com lanternas em forma de carpas e peixes dourados, que são animais que servem de estímulos nos estudos.
Esta festividade é também celebrada com muita pompa e rigor pelos camponeses, pois tendo terminado as colheitas, coincide a mesma, com um longo período de descanso. Os plantadores de arroz, aproveitam esta ocasião para prestar o culto ao Deus dos Campos, a cuja benevolência devem a sua prosperidade.
Em Macau são as crianças que mais apreciam a festividade. Qualquer criança, seja ela filha dum rico ou pobre, traz consigo nesse dia a sua lanterna para iluminar a noite, passeando-se orgulhosamente pelas ruas, parques, jardins e praias. As lanternas aparecem em todas as formas que o artista consegue inventar e enchem-se as papelarias situadas na Rua dos Mercadores. São coelhos, Fénix, borboletas, peixes, caranguejos, lagostas, macacos, frutas exóticas, etc.
Em Macau existem várias casas onde o bolo bate-pau é confeccionado, sendo a mais conhecida a chamada In-Hor, estabelecimento antiquíssimo com duas entradas, sendo uma na Travessa do Soriano e outra na Rua dos Mercadores.
Este tipo de bolo é preparado nesse estabelecimento e seguidamente exportado para o Canadá, S. Francisco e Taiwan.
Servindo-se dum pau com formato dum pequeno remo com uma altura arredondada, mete-se nela a massa de farinha e os recheios, carregando seguidamente com a palma da mão para comprimir bem; e em seguida, bate-se o pau com força sobre a mesa, a fim de fazer expelir o bolo que depois é levado ao forno para ser assado. Uma vez pronto, o bolo apresentará uma crosta acastanhada dourada.
Os bolos mais saborosos e caros são os que possuem o recheio com sementes de uvas, acrescentando-lhes duas ou três gemas de ovo salgado.
Várias e interessantes lendas estão ligadas a esta festividade e a mais conhecida de todas é a que a seguir vamos descrever:
Conta-se que em tempos idos, governava uma das mais importantes cidades da China Central, um homem muito cruel, avarento e sanguinário, que tinha à sua disposição um regimento de informadores de tudo quanto corria pela cidade. Esses informadores, para o alegrar, não hesitavam em contar histórias sobre certos indivíduos, honestos cidadãos que nenhuma culpa tinham. As suas cabeças eram roladas na praça pública.
Tinham como acusação, que andavam a preparar uma rebelião ou tramando a sua morte. Essas medidas de déspota, traziam em sobressalto constante a pacífica população até que, num lindo dia de Outono, apareceu na cidade um homem com cerca de quarenta anos, que captou logo a admiração e simpatia das pessoas com quem falou, devido aos seus modos afáveis e conhecimentos demonstrados nas suas palavras de homem culto.
Andou pela cidade durante vários dias a fim de se inteirar, sobretudo nos bairros circunjacentes, da condição das classes pobres, abrindo uma modesta casa de pasto perto da praça pública.
Tal foi a enchente de gente a saborear as iguarias da nova casa de chá, destacando-se os comerciantes mais ricos e de maior influência da cidade, que o governador para lá mandou os seus informadores de confiança para descobrir o que se estava a passar.
Não havia dia em que dezenas de cabeças de indefesos não rolassem por terra. Essas cabeças eram colocadas sobre um enorme estrado na praça pública, a fim de meterem medo à população.
Tal foi o receio da população que foi necessário o dono da casa de chá, aquietá-los na certeza de que melhores dias chegariam muito em breve.
Resolveu então confeccionar um tipo de bolo saborosíssimo que seria oferecido a todos os residentes da cidade, mas com a condição de só poder ser comido no décimo quinto dia, da oitava lua, quando os relógios batessem meia-noite.
No interior de cada um desses bolos havia uma mensagem para o início duma revolta.
No dia indicado chegou finalmente o dia da libertação e todos os homens válidos fortemente armados de paus, tochas e lanternas compareceram na praça pública, a fim de enfrentarem tais informadores. Apanhados de surpresa, nada puderam fazer contra a força esmagadora da população inteira que de há muito esperava que alguém soltasse aquele grito de revolta e de libertação. A cabeça do governador e dos seus informadores rolaram pelas escadas do palácio.
A população cheia de alegria foi buscar o dono da referida casa de chá para lhe entregar o governo da cidade, mas não foi possível encontrá-lo.
O seu nome ficou na memoria de toda a população como símbolo de valentia em defesa dos humildes.

*Investigador do passado de Macau. Escreve neste espaço aos Sábados.


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