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  N°2836 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 17 de Junho de 2008
LEITURAS

Fora do mercado

Ruy Rey*

Não sei porque peguei neste livro, talvez por que aqui há uns tempos conheci uma mulher muito interessante e de me lembrar que o autor sem se ter divorciado, manteve longas relações com três mulheres.
Mas mais interessante é com certeza a história descrita na dedicatória a Stella “Ford” Bowen, onde Ford conta que um sargento-ajudante do seu regimento que regressava de uma licença, apareceu transtornado: - Santo Deus homem, o que é que lhe aconteceu ?
- É que fiquei noivo anteontem, mas na viagem vim a ler O Bom Soldado.
Por quase uma década John e Florence Dowell, americanos, convivem estreitamente com um casal inglês, Edward e Leonora Ashburnham. Ao fim de nove anos e seis meses, e após a morte de Florence, Leonora pensando que John Dowell também tinha sofrido (em silêncio) tudo o que esta sofrera ou, pelo menos, permitido o que ela tinha permitido, deixa cair um tanto solidariamente : - E é estranho pensar que se a sua mulher não tivesse sido amante do meu marido, provavelmente nunca o John teria cá vindo. “Foi assim que soube da notícia, em cheio na cara, assim mesmo”. Não admira que os cabelos do militar noivo tenham ficado em pé. “Ao cabo de quarenta e cinco anos a conviver com o semelhante já devia ser capaz, por hábito, de saber qualquer coisa sobre o semelhante. Mas não.”
A história está muito bem contada, e é um dos mais belos romances que podemos ler. Diz o narrador logo no início que (This is the saddest story I ever heard) “Esta é a história mais triste jamais contada”, na tradução de Telma Costa (Teorema 2004), não muito correcta a meu ver, querendo dar a entender que não foi parte integrante dela, quando na realidade está implicado até à raiz dos cabelos. De nada sabia até que Leonora e Edward lhe contam tudo, e ele mentalmente vai revendo os pormenores e juntando dois mais dois.
Depois, com o suicídio de Edward e após o casamento de Leonora com um tipo chamado Rodney Bayham, e a compra por si da residência dos Ashburnham em Bramshaw, dispõe-se a contar o que aconteceu.
E para isso vai escrevendo e imaginando que na sala onde se encontra junto à lareira, “tem à sua frente uma alma compreensiva”, esse leitor que tratará por tu e com quem irá dialogando, explicando os factos e traduzindo os seus pensamentos, nomeadamente sobre a questão da poligamia. “Sim tenho ciúmes sem dúvida. No meu jeito mais fraco, parece que me vejo a seguir as pegadas de Edward Asburnham. Acho que gostaria de ser polígamo : com Nancy, e com Leonora e com Maisie Maidan, se possível até com Florence. Sou sem dúvida igual a qualquer outro homem”.
Mas no fundo é também um sentimentalista, vejamos. “… é impossível acreditar na constância de qualquer paixão precoce. O amor de determinada mulher é algo da mesma natureza de uma expansão da experiência. A cada nova mulher por quem um homem se sente atraído, parece surgir uma expansão do olhar ou, se se quiser, a aquisição de novos territórios. Um arquear de sobrancelhas, um tom de voz (eu gosto da voz de Demi Moore por exemplo), um gesto característico curioso, todas essas coisas são como outros tantos objectos no horizonte da paisagem que tentam um homem a ir além desse horizonte, explorar”.
Mas também o anseio do homem se identificar com a mulher que ama (será isso que talvez procura nas outras), porque “não há homem que ame uma mulher e que não deseje estar junto dela para ver renovada a sua coragem, para resolver favoravelmente as suas dificuldades. E será esse o principal motor do seu desejo por ela. Todos temos muito medo, todos estamos muito sós, todos precisamos muito de receber de fora a garantia do nosso próprio direito a existir. Nessa paixão fruída o homem terá o apoio moral, o estímulo, o alívio do sentimento de solidão, a garantia do seu valor”. Mas considera que essas coisas passam, é triste mas é assim, … e no entanto acredita que para cada homem surgirá finalmente uma mulher … “É que para todos os homens chega finalmente uma época da vida em que a mulher que então imprimir o seu selo na imaginação deles o imprimirá para sempre. Ele não viajará por novos horizontes; não voltará a pôr a trouxa às costas; retirar-se-á desses cenários. Ficará fora do mercado”.
Sempre se aprende alguma coisa com Ford Madox Ford.

* Jurista na RAEM. Faz neste espaço,
às terças-feiras, recensões de livros para o JTM.


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