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  N°2836 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 17 de Junho de 2008

tribuna

Procura bom negócio? Aposte no armamento

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Nelson Mandela disse um dia à BBC que os Estados Unidos eram a maior ameaça à paz mundial. Por seu lado, George W. Bush pensa que é o Irão. Mas uma sondagem encomendada pela Comissão Europeia aponta antes o dedo a Israel. E uma outra, junto de britânicos, canadianos e mexicanos, identifica Ussama Ben Laden. Mas se a mesma pergunta for feita ao Papa Bento XVI a resposta será a proliferação nuclear, a poluição e as desigualdades económicas. E para a ONU nada hoje se compara ao risco gerado pela alta desenfreada dos preços dos alimentos. Já para a China, no seu tradicional estilo críptico, a maior ameaça à paz são “a hegemonia e as políticas de poder”.
Com tal diversidade de ameaças à paz mundial não surpreende que a nova corrida às armas seja uma realidade. Na última década, as despesas militares do planeta cresceram 45%. E só em 2007 o negócio registou uma progressão na ordem dos 6%, bem acima do crescimento da economia global segundo as estimativas do FMI. Não admira pois que as duas maiores empresas de armamento mundiais estejam a anunciar lucros recordes. A divisão militar da Boeing registou um aumento de 10% nos dividendos logo no primeiro trimestre de 2008 e a Lockheed Martin, que fabrica os caças F-16 e os mísseis Patriot, mostra igualmente bons resultados. Ambas são americanas, como aliás quatro das cinco maiores do sector (a intrusa é britânica). No que diz respeito a fornecedores e clientes neste mercado das armas, notam-se velhas e novas amizades: os americanos vendem a sul-coreanos e israelitas, os russos a chineses, indianos e venezuelanos.
Só por si, os Estados Unidos representam 45% do 873 mil milhões de euros destinados a armamento no ano passado, um valor que representa 2,5% da riqueza mundial e 132 euros por habitante do planeta. É sobretudo a reacção aos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 que explica a enorme fatia de dinheiro gasta pelos americanos em material bélico, um montante sem equivalente desde a Segunda Guerra Mundial, como revela o relatório do instituto sueco SIPRI que compila todos estes dados e que foi tornado público há dias em Estocolmo. Mas se os americanos têm a desculpa dos conflitos no Iraque e no Afeganistão, já a Rússia, cujas despesas militares cresceram 15% em 2007, aproveita os rendimentos dos hidrocarbonetos para reconstruir um poderio militar desaparecido juntamente com a URSS. Também a esforçar-se por modernizar as suas forças armadas está a China, cujas despesas militares triplicaram numa década (mas que graças ao forte crescimento económico do país não valem mais que 2,1% do PIB).
O irónico é que só existam 14 pontos de conflito armado no mundo actualmente. E que desde a invasão americana do Iraque em 2003 não tenha acontecido mais nenhuma guerra a sério entre dois países.

JTM/Diário de Notícias


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