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  N°2663 (Nova Série), Segunda-Feira, 10 de Dezembro de 2007
FALAR DE NÓS
Silva Mendes
e o exercício da cidadania
JORGE A. H. RANGEL *

“Verdadeiramente só uma educação cívica e política é que poderia proporcionar uma evolução das mentalidades, uma maior sensibilidade cívica para os problemas de interesse comunitário. Silva Mendes praticou-a, viveu-a e doutrinou-a.”António Aresta, “Um Homem na Cidade”, “A Instrução Pública em Macau”, DSEJ, 1996

“Os conflitos na China alastravam-se, o descrédito da monarquia generalizava-se rapidamente e as humilhações impostas pelas potências imperiais fizeram acelerar a implantação da República, com Sun Yat Sen como presidente interino por curto período, seguindo-se décadas de confronto político e militar. Foi esta a China que Silva Mendes conheceu nos seus trinta anos passados em Macau. Todavia, a arte e a filosofia chinesas seduziram-no, a elas se entregando apaixonadamente.”

Já aqui falámos de Manuel da Silva Mendes, um dos mais notáveis intelectuais de Macau do primeiro quartel do século XX. Nasceu em S. Miguel das Aves, Santo Tirso, em Novembro de 1876 e chegou a Macau em 1901, como professor do Liceu. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu também a advocacia e foi juiz e procurador da República. A sua formação, capacidade e experiência dele fizeram administrador do Concelho e presidente do Leal Senado. Com a aquiescência dos seus colegas, foi também reitor do Liceu, cargo de elevado prestígio na época.
Grande coleccionador e estudioso da arte e da filosofia chinesas, a sua colecção particular constituiu o acervo central do então Museu Luís de Camões.
Publicou as seguintes obras: “Socialismo Libertário ou Anarchismo”, Coimbra, 1896; “Reflexões Jurídicas”, Macau, 1907; “Lao Tse e a sua doutrina segundo o Tao-Te-Ching”, Macau, 1908; e “Excertos de Filosofia Taoísta”, Macau, 1930. Colaborou intensamente em jornais e revistas e, após a sua morte, em 30 de Dezembro de 1931, foram feitas, graças especialmente aos aturados esforços e paciência de Luís Gonzaga Gomes, compilações dos seus numerosos artigos em sucessivos volumes, com os seguintes títulos: “Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes”, em três volumes, Macau, 1949; “Nova Colectânea de Artigos”, em quatro volumes, Macau, 1963-64; e “Sobre Arte”, “Macau: Impressões e Recordações” e “Sobre Filosofia”, os três publicados em Macau sem indicação da data. António Aresta, professor do ensino secundário, que fez um trabalho de grande valor, compilando documentos e investigando temas variados relacionados especialmente com a História da Educação, reuniu também artigos de Silva Mendes sobre o ensino, num volume intitulado “A Instrução Pública em Macau”, edição da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 1996. Alguns destes artigos, como outros que escreveu sobre diversificadas matérias, foram duramente críticos, com posições de vanguarda cultural e política, em sintonia com os novos valores da cidadania, inerentes a um republicanismo triunfante.
Na nota introdutória deste volume, António Aresta refere que “nos primeiros trinta anos da história contemporânea de Macau, agiganta-se a figura de Manuel da Silva Mendes mercê da sua porfiada intervenção cívico-política, da sua adesão à metafísica da perplexidade superiormente modelada na poética do taoísmo e da apurada sensibilidade com que dissecou as características nucleares da arte chinesa” e “para completar o retrato desta voz solitária, há, ainda, as magnas tarefas educativas em que se viu envolvido como professor, os cargos políticos que desempenhou e as actividades estritamente forenses, decorrentes da sua situação de advogado”.
Silva Mendes veio para o Oriente num tempo de mudaça, na viragem do século. Como lembra António Aresta “para trás ficava um Portugal pré-republicano, social e politicamente agitado. Era o fim de um regime que se anunciava”. “Quando chega a Macau, em 1991, o império chinês agonizava. A rebelião dos boxers fez estremecer a velha estrutura feudal chinesa, direccionando contra o ocidente, contra o imperialismo colonial do ocidente, toda a antipatia e todo o ódio contra os estrangeiros. O cristianismo foi especialmente visado, porque através da sua doutrinação era o espírito ocidental a insinuar-se nas mentalidades e na cultura”.
Os conflitos na China alastravam-se, o descrédito da monarquia generalizava-se rapidamente e as humilhações impostas pelas potências imperiais fizeram acelerar a implantação da República, com Sun Yat Sen como presidente interino por curto período, seguindo-se décadas de confronto político e militar. Foi esta a China que Silva Mendes conheceu nos seus trinta anos passados em Macau. Todavia, a arte e a filosofia chinesas seduziram-no, a elas se entregando apaixonadamente.
Em Macau participou, entusiasticamente, nas cerimónias da implantação da República, mas estiveram longe de ser concretizadas as suas expectativas quanto à instalação duma governação justa, democrática e eficaz. Nas três décadas aqui vividas viu ocupar a cadeira do poder nada menos do que 15 Governadores, com perfis, estilos e prioridades diferentes! As contradições do novo regime político e um prolongado desleixo em relação a Macau, agravado pela distância e pelo desconhecimento, foram acentuando a desnacionalização do território, o que o irritava extraordinariamente, uma vez que defendia o reforço da identidade portuguesa de Macau, em contraste com as facetas chinesas locais.
A sua posição crítica era, pois, assaz contundente, como se pode ver nestas passagens de um artigo (que António Aresta cita) escrito já quase no ocaso da vida e publicado no “Jornal de Macau” de 8 de Junho de 1929:
“Quando, há perto de trinta anos, eu desembarquei pela primeira vez em Macau, a cidade não tinha o aspecto que hoje tem. Tinha outro, melhor, interessantemente característico: chinês, em metade dela; português no resto” e “nunca vimos que tínhamos o que outros nestas partes orientais ambicionariam ter: alguma cousa que bem nos definisse, alguma cousa que só nossa fosse, alguma cousa que marcasse a nossa longa e persistente estada nestas partes do oriente, alguma cousa que fosse aqui o nosso ser, a nossa vida, a nossa história.”

Mais adiante, no mesmo artigo, denunciou, com dureza e frontalidade, o “mistifórdio arquitectónico” de Macau:
“Temos sido coveiros de nós mesmos. Mais do que isso: temos ensinado a profissão à população chinesa que, paredes meias, connosco vive. Eu bem sei que Macau nunca foi uma Florença nem, em beleza arquitectónica como Pekim ou Hangchao. Todavia muito de bem português e de bem chinês, muito mais de nacional do que os outros europeus na China têm, Macau teve. E tudo, quase tudo, tem sido destruído por nós... coveiros de nós mesmos! Eu me recordo bem de ser toda a Praia Grande, a Rua do Campo, as ruas do Hospital e de S. Domingos, o Leal Senado, a Sé e o mais que em linha até à Barra vai, tudo português. E hoje o que é isso? ... Um mistifórdio arquitectónico, incaracterístico, reles.
Residências chinesas, levantadas por antigos ‘tai-pans’, de linhas puras, de sumptuosa e, por vezes, mui artística decoração, havia muitas: havia-as como não as há em Hong-Kong nem em Shanghai. Wong Pu decorou algumas delas. Restam hoje poucas, afogadas sobre a sombra de circumjacente casario informe.
Deste ruimento vandálico da história, da estética, do bom-senso, salvaram-se os templos budistas”.
Muito exigente consigo mesmo e, por isso, também com os seus concidadãos, queixava-se de em Macau não haver opinião pública digna desse nome e de não haver “cidadãos, ou antes, sociedade que muito se importe com os interesses públicos” (“O Macaense”, de 20 de Junho de 1920).
Num outro artigo, publicado em “O Macaense” de 3 de Agosto de 1919, lamentava, igualmente, as formas de actuação do governo da colónia: “Tivemos muita fé outrora no desabrochar de virtudes grandes em regime de democracia e por ela fomos dos que não menos combateram. Dizem-nos que é em democracia que agora estamos e assim o cremos, porque oficialmente e extra-oficialmente a maioria no-lo afirma. De crer, porém, a compreender, vai, para nós, no caso, distância tal, que, para transpo-la, é de evidência que forças nos escasseiam. Com outra democracia foi que nós sonhámos. Esta apanhou-nos de surpresa — surpresa que nos tem sido dolorosa, pois que, havendo-nos ficado, apesar de tudo, firme afeição à democracia, à verdadeira, em embaraços nos temos por vezes visto para responder a adversários, quando essa, a que temos, no-la insinuam como regime... de patifaria...”.
A sua desilusão com os comportamentos de pessoas com responsabilidades cívicas e políticas foi crescendo até ao fim da vida: “fomos sempre desastrados em administrar”, desabafou no artigo já referido atrás, de 20 de Junho de 1920.
O volume “A Instrução Pública em Macau” reúne dez artigos de Silva Mendes, importantes para a História da Educação em Macau e para se compreender o porfiado empenho do autor em assegurar uma educação para a cidadania. São eles: “A Nova Reforma da Instrução Pública em Macau”, “Instrução Pública”, “Edifício Escolar”, “Escolas a Mais e Organização a Menos”, “A Instrução em Macau”, “Liceu de Macau (quatro nomeações)”, “O Ensino da Moral nas Escolas Primárias”, “O Liceu e o Conselho do Governo”, “O Ensino da Língua Portuguesa de Macau” e “Co-educação no Liceu de Macau”. Esta edição foi mais um contributo muito meritório de uma equipa liderada pela então subdirectora dos Serviços de Educação e Juventude, Albina Santos Silva, que reuniu e apreciou, na década de 90, documentos relevantes para um melhor conhecimento das políticas educativas e dos caminhos e opções no longo percurso da Educação em Macau.

*Presidente do Instituto
Internacional de Macau.
Escreve neste espaço às 2as feiras


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