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  N°2587 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 25 de Setembro de 2007
Leituras
Os Maias
RUY REY*

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete”. A partir desta introdução entramos num livro inesquecível. A casa está ligada ao problemas das relações femininas, e por lá passam os principais personagens que Eça faz retratar na sociedade portuguesa dessa época. E o que sustenta estas duas questões através do livro, lhe confere emoção, interesse e rigor, é a excepcional qualidade da prosa de Eça de Queiroz, simultâneamente realista mas imaginativa, ornamentada aqui e ali na fronteira do lirismo, e a sua característica fundamental que é o apagamento do narrador.

Sobre as relações femininas, apesar de Maria de Monforte nunca ter entrado no Ramalhete, por causa de Pedro da Maia ter casado com ela contra a vontade do pai, Afonso da Maia, e assim ser obrigado a sair de casa, aquele só lá voltou para se suicidar não aguentando o desgosto de Maria ter fugido com um rapaz italiano que convalescia em sua casa quando Pedro acidentalmente o ferira numa caçada. Nessa fuga Maria de Monforte levou a filha (Maria Eduarda) mas deixou o pequenito Carlos Eduardo que o velho levou para a quinta de Santa Olávia no Douro e lá o criou espartanamente. O Ramalhete ficou assim fechado durante vinte e cinco anos. Na data acima referida calculando Afonso da Maia que o seu neto, ora formado em medicina, não quereria ir exercer para a província mandou efectuar obras no Ramalhete, e para lá se mudaram. Carlos da Maia, mais tarde vem saber que a mulher com que namorava e dormia e escolhera para casar, era a sua irmã. Mesmo assim, durante uns dias, numa luta tremenda entre a moral e o corpo, recusando-se a aceitar o destino visita ainda a irmã. É demais para o coração de Afonso da Maia, que não resistiu.

Quanto aos personagens que regularmente visitam o Ramalhete, brilhantemente traçados por Eça, o autor realiza a crítica e expõe os defeitos quer das correntes literárias (realismo/naturalismo v romantismo), das elites e da falta de criatividade e interesse da sociedade em geral pelos valores da cultura e da razão. Assim, além do granítico Afonso da Maia, temos as auto projecções de Eça nos dandis Carlos da Maia e no hiper eléctrico e inconstante João da Ega, o romântico Tomás de Alencar, o insuportável Dâmaso Salcede, Craft, Eusébiozinho, os Gouvarinhos, os Cohens, etc, cada um na sua vida cada um caminhando inexoravelmente para a sua derrota. Na coerência do romance, com a descrição acumulativa dos capítulos, sobressai a prosa de Eça oscilando entre a realidade e a fantasia, a ironia nos diálogos e o seu estilo de se expressar que mantém qualquer leitor interessado na história apesar da sua extensão, que em qualquer edição ronda as setecentas páginas. A aquisição desta bonita edição do Círculo de Leitores agora possível nas livrarias da Bertrand, foi o pretexto para esta releitura. A Professora Esther de Lemos no seu magnífico Estudos Portugueses (Elementos Sudoeste/Porto Editora, 2003), no comentário sobre a leitura de Os Maias, escreve o seguinte : “O que faz ontem como hoje, o encanto desta obra onde regressamos sempre com um prazer renovado - é a dominadora presença de um estilo - que não é só o original e eficaz tratamento da palavra - um estilo que é o homem, a presença subtíl, mais insinuada do que afirmada, nunca expressa numa primeira pessoa gramatical. É essa presença que buscamos. O melhor é não dizer mais nada. Abrir Os Mais e ler”.

* Jurista na RAEM. Faz neste espaço
às terças-feiras, recensão de livros para o JTM


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