000primeira
020opiniao
030local
050desporto
081jete
090cambios
091tempo
092ultima


 



 
  N°2587 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 25 de Setembro de 2007
tribuna
Tremor na turbulenta
história financeira
JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Os mercados internacionais andam nervosos há semanas. Todos os bancos mundiais se ressentem, muitas instituições foram castigadas severamente e teme-se uma derrocada global. Os riscos económicos são justificadamente assustadores. A opinião comum é que estas situações são causadas por loucos especuladores brincando com o dinheiro dos outros. Mas, em Finanças, perigos destes costumam assinalar grandes descobertas.

Mecanismos que hoje consideramos banais surgiram no meio de horríveis catástrofes. O nascimento dos bancos modernos gerou, entre outras, a dolorosa Mississippi Bubble de 1720. A vulgarização do papel-moeda esteve ligado a hiper-inflações, como a francesa de 1795-96 e a americana de 1861-65. A política monetária contemporânea adveio da Grande Depressão de 1929-33. Desta vez a criatividade financeira e as oportunidades da globalização criaram poderosas inovações que prometem revolucionar o crédito mas, ainda mal conhecidas e controladas, criaram uma situação muito perigosa. A nova ideia é uma engenhosa combinação de banca e bolsa para alargar o acesso ao mercado de capitais. Consiste em conceder créditos, por exemplo para gestores comprarem a sua empresa ou inquilinos a sua casa, dispersando depois o risco desses empréstimos pela venda de título cujo valor depende da rentabilidade dos créditos originais. Através desta “titularização”, o primeiro credor passa a outros parte do negócio. A ideia pode ser repetida sucessivamente, com os compradores desses títulos a emitir outros títulos “derivados”, cujo valor depende dos primeiros, dispersando ainda mais o risco. A enorme vantagem desta novidade está não só na versatilidade e especialização financeira mas também na democratização e popularização do acesso ao crédito. Como o investidor não suporta todo o risco, pode abrir a negócios novos. A prudência tradicional da banca criava muitas injustiças afastando do mercado largos sectores por simples preconceito, como o microcrédito já demonstrara. Este novo método alarga o mercado, sobretudo aos mais necessitados. Mas, se não for controlada, a dispersão pode aumentar muito a incerteza potencial do sistema. Do excesso de cuidado na avaliação dos devedores passou-se à temeridade dos “créditos na hora e sem perguntas” e dos empréstimos a desempregados sem rendimento.

O pior, no entanto, é que esta pulverização do risco tornou muito difícil a avaliação da solidez individual das instituições. Como os novos títulos podem ser adquiridos por qualquer um, até pelos emissores iniciais, às tantas já ninguém sabe bem quem tem a responsabilidade e sofrerá com a falha de pagamentos. A multiplicação dos “derivados” entrecruzados tornou possível que um enorme buraco numa instituição não só passe despercebido mas se espalhe por entidades que nem suspeitam estar ligadas a ela. O principal problema actual é, pois, a opacidade do mercado, visto ninguém conhecer com segurança a situação patrimonial de nenhum operador. Um susto pontual pode espalhar o desastre como fogo na mata. A situação é conhecida e há anos que os analistas avisam dos perigos. O mercado tem mecanismos de defesa e os bancos centrais sabem lidar com crises destas. Isso não significa que seja fácil. Não só cada caso é único, mas existe a eterna questão da oportunidade: se o banco central intervier demasiado cedo amnistia maus pagadores e incentiva futuras imprudências; demasiado tarde só encontra escombros, como em 1929. Este é o dilema fundamental das autoridades monetárias que, insolitamente, surge agora em acusações mútuas dos tradicionalmente lacónicos governadores.

A confusão é pois bastante séria. Ninguém sabe se a conjuntura gerará uma derrocada global ou um pequeno susto menor. Como em todos os marcos da história financeira, as excelentes potencialidades dos novos instrumentos têm de ser disciplinadas por hábitos e regras prudenciais que mantenham sólido e transparente o mercado. Esperemos que este ano não fique na história com a crise necessária para nos relembrar isso.

JTM/DN


 [Alto] [Anterior] [Voltar] [Próximo]




HOME  .  E-MAIL  .  FICHA TÉCNICA  .  EDIÇÕES ANTERIORES  .  PUBLICIDADE  .  PRIMEIRA

Copyright (c) Jornal Tribuna de Macau, All rights reserved
Design and maintainence by Directel Macau Ltd