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  N°2587 (Nova Série), Ter¬a-Feira, 25 de Setembro de 2007
tribuna
Bananas têm outros preços além
do euro e picos por quilo
LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Jacobo Árbenz, um filho de suíços que chegou a presidente da Guatemala, ficou para a história como a mais famosa vítima do apetite dos americanos por bananas (75 em média por habitante/ano). Uma tímida reforma agrária valeu-lhe em 1954 um golpe de militar organizado pela CIA e patrocinado pela United Fruit, multinacional habituada a pôr e dispor na América Latina para que não faltasse nas lojas de Nova Iorque, Chicago ou Los Angeles o fruto tão apreciado. Meio século depois, a United Fruit chama-se Chiquita e, a partir da sua sede em Cincinnati, no Ohio, continua por vezes a misturar negócios com política. Um tribunal dos próprios Estados Unidos acaba de confirmar uma multa de 25 milhões de dólares pelos financiamentos a grupos paramilitares de extrema-direita na Colômbia entre 1997 e 2004. A multinacional argumenta que os pagamentos se destinavam a proteger os seus empregados. A mesma desculpa foi usada para justificar verbas dadas em tempos às FARC, uma guerrilha de extrema-esquerda que a Casa Branca classifica como grupo terrorista.

Árbenz não foi nem o primeiro nem o último político a pagar caro qualquer desafio às multinacionais da fruta. Nas primeiras décadas do século XX, a regra era estas imporem governos dóceis e apadrinharem políticos corruptos, sobretudo na América Central e nas Caraíbas. Foi assim que nasceu a expressão “República das Bananas”, usada até à exaustão no combate ideológico da Guerra Fria. Aliás, a própria banana esteve omnipresente no longo choque entre os EUA e a União Soviética. Enquanto americanos e europeus se habituavam a um fruto barato produzido na Colômbia, no Equador ou na Costa Rica (a Índia é o maior produtor mundial, mas quase não exporta), no bloco comunista a banana manteve-se sempre algo exótico, raro na dieta dos moscovitas. Um dia, Nikita Krutschev, num misto de orgulho e de lamento, até proclamou ser a banana “a única coisa que a URSS não é capaz de produzir”.

Fruto mais consumido no planeta, a banana (palavra africana que os portugueses ensinaram ao mundo) continua a mexer com demasiados interesses económicos. Há dias, estalou uma polémica sobre a elevada taxa de cancro da próstata nos habitantes da Martinica e de Guadalupe (provavelmente um em cada dois homens) e a sua relação com o uso ilegal de pesticidas nas plantações. E estas duas ilhas das Caraíbas estão longe de poderem ser chamadas de “Repúblicas das Bananas”: são ambas territórios ultramarinos franceses. Mais um caso recente a somar ao da Chiquita e os paramililitares da Colômbia para nos lembrar que, por vezes, as bananas têm outros preços além do euro e picos que pagamos por cada quilograma nos supermercados.

JTM/Diário de Notícias


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