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  N°2539 (Nova Série), Segunda-Feira, 6 de Agosto de 2007
falar de nós
Anders Ljungstedt e a História de Macau
JORGE A. H. RANGEL*

“... relacionou-se com os numerosos estrangeiros que aqui se dedicavam, uns ao comércio e outros ao estudo de Sinologia, apaixonando-se, então, pela história da expansão portuguesa no Extremo Oriente, mas muito em particular pela de Macau.”

            Luís Gonzaga Gomes, “Páginas da História de Macau”, 1966, pg. 219

OLeal Senado atribuiu o seu nome a uma avenida dos Novos Aterros do Porto Exterior e procurou estreitar a cooperação com Linköping (ou Linkoeping), a sua terra natal, na Suécia, mas muita gente, quando passa por essa via pública e lê a placa toponímica, continua a perguntar quem foi Anders Ljungstedt e qual a sua relação com Macau. Por isso, no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Luís Gonzaga Gomes, quisemos trazer para este espaço um artigo por ele escrito em 1959, a propósito do 2o. centenário de Ljungstedt:

“Ocorreu, no dia 23 de Março de 1959, o 2o. centenário do nascimento de Andrew Ljungstedt, autor dum esboço histórico sobre os estabelecimentos portugueses na China que, não obstante a personalidade do seu autor, as inúmeras inexactidões que o desvalorizam em grande parte e as precipitadas conclusões que levaram vários autores estrangeiros a formarem juízos erróneos sobre diversos acontecimentos referentes à história de Macau, foi, no entanto, noutros tempos, obra de muito apreço, pois não existia outra que versasse, com o mesmo desenvolvimento, idêntica matéria.

Nascido em Linkoeping, na Suécia, em 23 de Março de 1759, após a conclusão dos seus estudos na sua cidade natal, Ljungstedt emigrou para a Rússia, onde, durante uma década, exerceu a profissão de preceptor. Era, certamente, pessoa de alguma consideração e larga cultura, pois, consta que fizera parte do luzido séquito de Gustavo IV, de Suécia, quando este rei se deslocara a S. Petersburgo para conciliar as boas graças da corte russa.

Com a idade de 38 anos, isto é, em 1797, Ljungstedt conseguira, mercê da sua ilustração e valiosas recomendações, colocação na Companhia Sueca da Índia Oriental, tendo, por este motivo, de embarcar, para a China, no barco ‘The Queen’, pois fora provido no cargo de sobrecarga dessa companhia em Cantão e, pouco depois, nomeado seu representante em Macau.

Quando a Companhia Sueca da Índia Oriental liquidou os seus negócios na China, Ljungstedt estabeleceu-se, definitivamente, nesta cidade, onde fundou uma firma sua, vindo, com a prática e os conhecimentos que adquirira do comércio chinês, a constituir uma considerável fortuna. De ânimo generoso distribuiu com rasgada liberalidade quantiosos donativos pelas instituições de caridade locais, não se esquecendo da sua cidade natal, onde existe uma escola técnica, mantida com os fundos da Fundação Ljungstedt, por ele instituída, motivo que justifica plenamente o qualificativo de filantropo, que se lê no epitáfio da sua lápide tumular.

Como nessa ocasião não existisse ainda uma embaixada sueca na China, Ljungstedt, foi, em 1816, nomeado Cônsul Geral da Suécia na China e, em consequência da sua elevada posição social e porque fosse homem culto, relacionou-se com os numerosos estrangeiros que aqui se dedicavam, uns ao comércio e outros ao estudo de Sinologia, apaixonando-se, então, pela história da expansão portuguesa no Extremo Oriente, mas muito em particular pela de Macau.

Teve, assim, de conviver com quem melhor lhe poderia fornecer os mais seguros informes e de consagrar grande parte do seu tempo aos trabalhos de investigação e ao estudo de documentos, conseguindo, três anos antes do seu falecimento, fazer imprimir, nesta cidade, a obra que o tornou lembrado na posteridade, intitulada ‘Contribution to an Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China principally of Macau, of the Portuguese Envoys & Ambassadors to China, of the Roman Catholic Mission in China and of the Papal Legates to China, Macau, 1832’, obra de excepcional raridade, porquanto do prelo local só saíram 100 exemplares. Após o seu falecimento, publicou-se, em Boston, em 1836, uma nova edição desta obra, porém, inteiramente refundida, com o título ‘An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China’.

Nesta nova edição, o nome do autor apareceu antecedido do título honorífico britânico ‘Sir’, contra o qual reponta C.A. Montalto de Jesus, na nota em roda-pé da página 27 da 2a edição do seu ‘Historic Macau’, dando a entender que esse título inglês era abusivamente usado, devendo o seu portador julgar-se com direito a ele, tão somente pelo facto de ser cavaleiro da ordem sueca de Wasa.

Montalto de Jesus, nesta sua obra, que contém também muitas falhas e não poucas inexactidões, agride, indignadamente e com grande severidade, o escritor sueco, dizendo: ‘Ljungstedt esquiva-se ou adultera com consumada subtileza. As suas prevaricações são tanto mais odiosas quanto o seu Esboço Histórico, em grande extensão, não é senão resultado de penosas pesquisas efectuadas por dois homens de letras portugueses. Do professor Miranda e Lima, que projectara ele mesmo escrever uma história de Macau, Ljungstedt obteve valiosos documentos e do Bispo Saraiva, acesso a numerosos documentos de grande interesse histórico. Como esses documentos foram tratados nas suas mãos, avalia-se pela forma como ele se aproveitou das narrações de diversos autores’ (Vide ‘Historic Macao’, 2a edição, Macau, 1926, pg. 28).

A 2a edição do trabalho de Ljungstedt foi vertida para português e publicada em folhetins, no hebdomadário luso-chinês ‘Echo Macaense’, propriedade de Francisco Hermenegildo Fernandes, cuja administração estava situada na Rua da Casa Forte, No 3, tradução esta que foi, depois, novamente publicada, na íntegra, no volume ‘Impressão Confidencial e Reservada dos Documentos Respeitantes à Península de Macau e suas Dependências’, Macau, Imprensa Nacional, Junho de 1909.

Não obstante terem sido bastante deploráveis o antagonismo de Ljungstedt a esta terra que tão galhardamente o agasalhara, as acintosas deturpações históricas a que se entregou e factos por ele erroneamente interpretados, nem por isso, a sua obra deixa de ter merecimento, sendo o seu testemunho bastas vezes invocado, por diversos autores, à falta de outros depoimentos disponíveis, para reforço de certas hipóteses ou para esclarecimento de vários pontos obscuros sobre os prístinos tempos da fundação dos diferentes estabelecimentos portugueses nestas paragens, hoje, em grande parte aclarados, graças aos conscienciosos trabalhos de diversos investigadores nacionais e estrangeiros.

A passagem do segundo centenário do nascimento deste escritor não passou despercebida, pois que, a cidade de Linkoeping, onde ele viu, pela primeira vez, a luz do dia e a Escola de Ljungstedt, por ele fundada, incumbiram o Cônsul de Suécia em Macau e Hongkong, Torsten Christian Bjoerck, de depositar, em piedosa romagem, uma coroa de viçosas flores, em homenagem de gratidão a quem, em vida, tanto bem lhes fizera”.

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Este artigo de Luís Gonzaga Gomes, que teve por título “O 2o centenário do nascimento de Andrew Ljungstedt” e integra o livro “Páginas da História de Macau” (colecção “Notícias de Macau”, 1966), termina com uma referência ao epitáfio, em inglês e em sueco, gravado na lápide sepulcral que cobre os restos mortais de Anders Ljungstedt, no velho Cemitério Protestante de Macau.  Nele estão indicadas as datas do seu nascimento (23 de Março de 1759) e falecimento (10 de Novembro de 1835).

Em 1992, a editora Viking Hong Kong Publications deu à estampa uma nova versão do livro de Ljungstedt, com mais um capítulo, sobre Cantão, e atribuindo-lhe um novo título: “An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China and of the Roman Catholic Church and Mission in China & Descriptions of the City of Canton”. Na capa, manteve-se a gravura com uma vista da Praia Grande, da edição de 1936, e, para chamar a atenção do leitor, juntou-se-lhe esta referência: “The classic book on the history of Macau, Canton and the East India trade”. Corrigiram-se gralhas das edições anteriores e foram feitas notas de esclarecimento ou correcção de erros detectados na versão original.  Além dos prefácios das edições de 1932 e de 1936, foi inserida uma breve nota de apresentação, escrita pelo Pe. Manuel Teixeira em Janeiro de 1992, com um rasgado elogio à obra de Ljungstedt, refutando as acusações de Montalto de Jesus e de Jack Braga e asseverando que o historiador sueco é merecedor da gratidão e do reconhecimento de Macau e dos Portugueses.  Na biblioteca do Instituto Internacional de Macau está disponível, para consulta, um exemplar deste livro, da edição de 1992.

A única versão completa, em língua portuguesa, desta obra foi publicada em 1999, por iniciativa do Leal Senado, mas levando já a chancela da Câmara Municipal de Macau Provisória.  É uma edição com boa apresentação gráfica e adequadas ilustrações, coordenada por José Carlos Félix-Alves, com tradução de Ilídio A. de V. Félix Alves.  Contém uma introdução do coordenador, com uma breve biografia do autor e referências à obra, indicando que “depois de homenagens anteriores que conduziram à geminação de Macau com Linköping, cidade natal do autor, e da inauguração de uma rua com o seu nome, a divulgação da sua obra em língua portuguesa - um livro que se lê com prazer e proveito histórico e cultural - é a homenagem justa que Macau ainda devia a Anders Ljungstedt.”

Daqui a dois anos completam-se 250 anos que Ljungstedt nasceu. Será certamente oportuno e útil que o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais renove os

*Presidente do Instituto Internacional de Macau.
Escreve neste espaço às 2as. feiras


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