Domingo, 11 de Dezembro

HENRIQUE SENNA FERNANDES RECORDA CANTÃO DOS ANOS 30

“Chineses e estrangeiros não se misturavam”

O escritor e advogado, Henrique Senna Fernandes, regressou a Cantão, depois de ter vivido cerca de um ano na capital da província de Guangdong, nos anos 30. Encontrou uma cidade muito diferente, mas ainda reconheceu alguns locais que permanecem de pé após seis décadas

PEDRO MANUEL RIBEIRO
Em Cantão

“Era uma época de guerra”, começa por dizer o escritor e advogado, Henrique Senna Fernandes, sobre o tempo em que viveu em Cantão, nos finais da década de 1930. Henrique Senna Fernandes recordou ontem em conversa com o JTM, à margem da visita a Cantão do grupo da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, a passagem de cerca de um ano pela cidade onde permaneceu na zona da concessão francesa.

“Isto sofreu uma grande destruição por parte dos japoneses”, recorda o escritor. A ocupação deixou marcas no povo chinês que foi muito “mal tratado pelos japoneses”.

“Aquilo não era forma de se conquistar um povo”, afirmou Senna Fernandes. Um dos episódios que ficaram retidos na memória do escritor foi “o espancamento de uma velhota com um pau”, explicou. “Foi uma coisa brutal e sem sentido”, afirmou Henrique Senna Fernandes, acrescentando que “o ressentimento dos chineses pelos japoneses é justificável por ocupações deste género”.

“Como era português os japoneses não me faziam nada”, referiu o escritor, acrescentando que, apesar disso, ainda passou “por algumas dificuldades”. A forma como os estrangeiros participaram na ocupação da China também contribuiu para “o ressentimento que os locais sentiam na altura”, afirmou.

Cantão estava ocupada por Tóquio e a ilha de Shamiin estava dividida em duas concessões, uma francesa e outra britânica. O escritor residiu na zona francesa, onde existia uma pequena comunidade portuguesa de cerca de 100 pessoas.

“Existia um jardim na ilha que tinha uma placa na entrada que proibia a entrada a cães e chineses”, salientou Senna Fernandes. Em Shamiin apenas entravam os chineses “que fossem criados de algum estrangeiro”, sublinhou, havendo uma clara separação entre os locais e os residentes da ilha.

Apesar do desenvolvimento da cidade e das alterações que foi sofrendo, com a reconstrução depois da guerra e a partida dos estrangeiros, o escritor ainda encontrou alguns lugares que permaneceram imaculados ao passar dos anos. “O único edifício que reconheci foi a antiga alfândega chinesa”, referiu. No entanto, o advogado conseguiu ainda recordar alguns dos locais que deixaram de existir como o “Victoria Park, que ficava na zona onde está hoje o hotel ‘White Swan’”, salientou.

Henrique Senna Fernandes, um dos membros mais proeminentes da comunidade macaense, falou ainda da importância da cidade em relação a outras capitais de província. “Cantão sempre foi importante, não era só Xangai e Pequim”, salientou o escritor, que reencontrou uma cidade “diferente, um pouco caótica e com menos jardins”, mas que continua a manter “o seu estatuto e grandeza”, concluiu.