“APROVEITAR A BOA REPUTAÇÃO DA SELECÇÃO DE FUTEBOL”

“Diplomacia económica” portuguesa
chega à República da Mongólia

Se não houver mais nenhum atraso, em Setembro toma posse o consul honorário de Portugal na Mongólia, o primeiro representante português no país de Genghis Kahn. Enkh Amglan foi bem escolhido. É vice-presidente do maior grupo empresarial da Mongólia, está orgulhoso de ter sido escolhido e confiante que consegue desenvolver as relações comerciais entre os dois países

O grupo empresarial, que nasceu em 1993, emprega 1600 funcionários e tem os mais diversificados negócios, desde a construção e manutenção de infra-estruturas energéticas, ao imobiliário (tem em construção, na capital, o Hotel Sangrila), passando pelas telecomunicações e mesmo o “franchising” da Coca-Cola, da Tiger Beer e de diversas marcas de vodka.

Enke Amglan é vice-presidente deste grupo (o maior contribuinte do país) e CEO do sector electrónico e foi o escolhido pelo Governo de Lisboa para ser o primeiro representante português “honorário” na Mongólia.

Toma posse em Setembro, no decurso de uma visita do Secretário para a Cooperação, António Braga, a primeira deslocação de um governante português à Mongólia, mas no seu escritório já está defraldada uma enorme bandeira portuguesa. É que estava tudo preparado para a posse suceder há algumas semanas, e só a substituição de Freitas do Amaral à frente do Palácio das Necessidades veio adiar a visita.

Enke Amglan está por dentro do assunto. Durante as comemorações dos 800 anos da elevação de Genghis Khan, o embaixador Santana Carlos esteve em Ulanbator, na sua qualidade de embaixador português acreditado na RPC e Mongólia.

“Percebi que a mudança de ministro não alterou a estratégia política do Governo e que vai haver continuidade, o que é muito bom” disse ao JTM Enke Amglan, num inglês perfeito que é pouco comum entre os seus conterrâneos.

A presença do embaixador português, por outro lado, “foi uma boa oportunidade para conversarmos um pouco mais sobre as possibilidades do relacionamento entre Portugal e a Mongólia que até este momento é praticamente inexistente”, situação que se pretende inverter.

O mega-empresário Enke Amglan, que nunca visitou Portugal (“mas não vai demorar muito”- frisa) está manifestamente satisfeito por ter sido escolhido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português. “Na Mongólia, a história de Portugal é bastante conhecida e muito boa a reputação dos portugueses como povo afável e amigo”, salienta, para reconhecer que a história recente da Mongólia provocou o seu total isolamento, pelo que “é normal não haver grandes relações com Portugal, como também não existem com outros países europeus”.

VINHO DO PORTO TEM FAMA. Em termos  de relacionamento bilateral, até agora inexistiu, mas na linha da “diplomacia económica” há um tempo preconizada por Lisboa, Enke Amglan começa logo por falar das relações comerciais, salientando que o único produto português que se vende na Mongólia é o vinho do Porto - “muito apreciado há muitos anos e com fama”, talvez por influência da nomenklatura pró-soviética que dirigiu o país durante sete décadas.

O empresário mongol sabe agora que há outros vinhos portugueses “com a mesma qualidade dos vinhos franceses” e com “preços razoáveis”, considerando que a Mongólia tem um largo mercado para produtos deste tipo.

Fala-nos também da “fama” da indústria das “rolhas de cortiça”, que também podem interessar à Mongólia, que produz muitas bebidas alcoólicas.

O mesmo se diga do “calçado português”, de que também ouviu falar nas suas deslocações a Pequim e que considera como potencialmente “interessante” para venda na Mongólia, um país que está com um  crescimento económico anual de cerca de sete por cento.

“Encontro-me ainda num estado inicial de conhecer as potencialidades portugueses, e nos próximos meses vou estudar questões mais concretas com o adido comercial da Embaixada Portuguesa em Pequim”, revela, considerando que “seria um passo importante se as delegações de empresários portugueses que de vez em quando vão a Pequim pudessem também deslocar-se à Mongólia para se aperceber das potencialidades, quer em termos de exportações, quer em importações”.

Um encontro entre membros da Câmara do Comércio da Mongólia e da sua homóloga portuguesa é um dos seus objectivos mais prementes, pois considera que “um encontro entre empresários traz sempre novas ideias e oportunidades de negócio, com interesse para ambas as partes”.

MACAU PODE AJUDAR. Neste aspecto, o primeiro consul honorário de Portugal na Mongólia também julga que “Macau pode desempenhar um papel importante”. “Sei que há empresas portuguesas em Macau e na Região Administrativa Especial há ligações muito estreitas com Portugal e os países que falam português, pelo que a visita de empresários de Macau também poderia ser interessante para haver mais informação sobre os produtos portugueses”, disse.

Na realidade, não se vê qualquer incompatibilidade. Os principais produtos da Mongólia decorrem da transformação dos seus recursos naturais (agricultura e minerais) e alguns deles já entraram em Macau através da RPC, um parceiro privilegiado no comércio mongol. Por outro lado, a Mongólia teria também “muito que aprender com os empresários de Macau quer no relacionamento com a Europa e países lusófonos, quer mesmo no sector de serviços nomeadamente no turismo”.

APROVEITAR  A SELECÇÃO DE FUTEBOL. Para o consul honorário de Portugal em Ulanbator, “está tudo em aberto”, mas há “uma enorme vontade de criar um bom fluxo de negócio entre os dois países”, que depois “naturalmente se estenderá a outros sectores como o cultural, até agora também inexistente”.

De uma coisa Enke Amglan está seguro. “As exibições da selecção portuguesa de futebol foram muito apreciadas na Mongólia e, também por isso, este é um momento muito especial para fazer promoção dos produtos portugueses”.

O curioso é que na Mongólia não há futebol federado e mesmo entre a garotada o mais comum é dedicarem-se à prática do basquetebol.

Porém, e tal como outros dos seus conterrâneos, Enke Amglan abre imediato sorriso quando fala da participação portuguesa no Mundial de futebol da Alemanha.

“Toda a gente conhece o Ricardo e o Maniche” destaca-nos, enquanto os mais novos falam sempre de Cristiano Ronaldo e isto apesar dos jogos mais tardios do Mundial da Alemanha terem começado às 4 horas da madrugada locais.

Mas Enke Amglan não está interessado nas defesas de Ricardo aos penalties ingleses, cujas imagens passam constantemente num dos 52 canais de televisão, que difundem por todo o país. A sua ideia é “aproveitar este momento de euforia sobre a selecção portuguesa para fazer promoção do país na Mongólia”, o que traduz como “meio caminho andado na aceitação da marca Portugal”.

Para já, espera que em Setembro chegue o Secretário de Estado para lhe dar posse formal - “será outro momento promocional importante” - e deseja que com ele possam também  chegar alguns empresários e a possibilidade de apresentação de produtos portugueses.

Bem escolhido pelo MNE português, Enke Amglan não tem, nem parece disposto a ter tempo a perder...