Balanço das comemorações com muitas críticas

No regresso ao trabalho após os dias de festa, a população da Mongólia começa a fazer o balanço, e as autoridades ouvem críticas sobre a falta de organização

Em profundo contraste com  a semana de festa anterior, de sol aberto e céu azul, ontem - no primeiro dia de trabalho depois do Nadaam Festival - começou a chover em Ulanbator e a temperatura desceu dos 20 graus anteriores.

Muitos turistas fizeram como o jornalista do JTM - tomaram os aviões de regresso, e por isso, o modesto Aeroporto Internacional Genghis Khan parecia ontem bastante mais cosmopolita do que no dia da chegada.

As lojas de artesanato fizeram bom negócio, porque os preços (exagerados, é verdade) são semelhantes aos que se encontram nas lojas do centro da cidade ou mesmo no campo, que os comerciantes mongóis não facilitam.

De uma forma geral, todos traziam histórias para contar, sendo certos que os mais contentes eram os que tinham por fito utilizar o “eco-turismo”, isto é o turismo que se baseia na Natureza da Mongólia, em larga medida “intocado” na vastidão do seu mundo rural, que não junto das duas principais cidades onde o regime pró-soviético provocou a desflorestação maciça para ali construir grandes aglomerados industriais estatais, hoje “elefantes brancos” para um sistema económico mais competitivo.

Grace, uma chinesa de Hong Kong que estava acompanhada de um grupo de amigos, mostrou-se surpreendida com a beleza natural do campo que nunca tinha visto, “verdadeiramente super”, ela que sempre escolhia cidades como destinos de férias. Diz-me que “os arredores de Londres são muito bonitos com o verde do campo e os animais, etc, mas assim uma paisagem vasta tão maravilhosa e não estragada pelo homem como há na Mongólia, confesso que nunca imaginei ser possível encontrar nesta altura”.

Duas alemãs de meia idade (não quiseram dizer os nomes, e naturalmente não lhes perguntei a idade) vinham impressionadas com a afabilidade do povo mongol. Contaram-me que são amigas de infância e fazem férias conjuntas desde que vivem sózinhas (não lhes perguntei se por separação, divórcio ou morte de outrém), e estão habituadas a “grandes passeios” nos “plateau” do seu país e Suiça. Confessam-me que “somos verdadeiras admiradoras da Natureza, e também estivemos em regiões da China muito bonitas, porém cada vez mais estragadas por construção, enquanto que aqui na Mongólia tudo se encontra num estado mais natural”. No seu entender, “até só apreciar as caras das pessoas, em especial, as mais velhas no campo é um espectáculo”. Concluiram, dizendo que levam centenas de fotos com rostos.

Steve, um americano que trabalha em Macau foi desafiado e “embora a algum custo porque sou homem da cidade” aceitou passar uns dias num campo de turistas que aluga “gers”.

Conta que “o primeiro dia foi uma aventura inesquecível porque estava um dia de sol muito bonito, fizémos longas cavalgadas pela planície, onde parece que o tempo parou, tomámos banho no rio de água límpida, secámo-nos ao sol, enfim, foi extraordinário”. O pior foi depois. “A noite não foi nada agradável” diz, para explicar que “o ger tem todos os confortos, certamente por ser dedicado a turistas, mas ao lado ficou um grupo de jovens que passou a noite toda a beber e a cantar, pelo que não dormimos nada e de manhã decidi regressar à cidade”. A aventura de Steve acabou num jantar tardio no Restaurante Kalifornia, onde por acaso também me encontrava...

APOSTA NO ECO-TURISMO. A boa impressão que os turistas levam da Mongólia tem muito mais a ver com a recepção amiga que o povo lhes faz, do que com a qualidade das estruturas e serviços. O turismo mongol, apesar de todos os esforços feitos, tem ainda a marca dos anos de sonolência soviética, e está longe dos níveis do que já existe, por exemplo, nos maiores centros da RPC.

Esta situação foi bem visível nesta semana em que se comemoravam os 800 anos da elevação de Genghis Khan e o Nadaam Festival, cujos resultados estiveram longe dos esforços feitos pelas autoridades locais. Os hoteis que deixaram de aceitar reservas por estarem ocupados acabaram com muitos quartos vazios por brusco cancelamento de grandes grupos - o Hotel Bayangol de um dia para o outro ficou com 40 quartos a mais -, o mesmo sucedendo com a ocupação dos aviões que esteve aquém do que se previa.

Numa palavra, o meio milhão de turistas que era a previsão inicial, logo corrigida para 400 mil pelas autoridades de Ulanbator, acabaram por não aparecer. A imprensa local (bastante activa, deve dizer-se) culpa as tardias acções de promoção feitas na Europa e na Ásia, por um gabinete expressamente nomeado para as comemorações.   

Eu diria que ainda bem que os 400 mil turistas se não materializaram. É que, o diligente governo de Ulanbator se esqueceu de um pequeno pormenor - a capital (por onde todos têm que entrar e sair) tem apenas dois mil quartos licenciados como de cinco, quatro e três estrelas, e houve muita gente a recorrer ao aluguer de quartos a particulares. Por opção própria do turistas, ainda vá que não vá, mas por decisão do operador mongol é que já é menos aceitável. Aconteceu a uma empresária sueca baseada em Pequim, que se viu conduzida mais o marido para um quatro no apartamento do irmão do guia, enquanto os filhos foram dormir num “ger” no quintal do apartamento [a história vinha contada num jornal local].

É certo que muitos deles se dirigiram a outras cidades ou mesmo para campos de turistas, e embora não haja estatísticas oficiais sobre o seu número - há controlo governamental, mas muitos acabaram por estar prontos apenas nesta altura e o seu licenciamento só vai ser feito posteriormente - jamais poderia ter sido atingido o número previsto.

Ulanbator parece um “estaleiro” de construção civil, e há vários hoteis em construção, dois dos quais de cinco estrelas - das cadeias Shangrila e Hilton. O sector necessita, contudo, de grandes investimentos para “recuperar” alguns dos estabelecimentos já existentes e cujas infra-estruturas estão longe de corresponder às “estrelas” que lhe foram concedidas.

A internet está generalizada, nos quartos e fora deles, mas há cortes de energia frequentes e apenas no hotel (ao lado decorreu uma festa até altas horas) e houve até quem tivesse ficado durante alguns minutos, ensaboado na banheira, à espera que a água voltasse aos canos, já nem interessava se quente ou fria...

Também em termos de ocupação dos aviões, pode dizer-se que esteve abaixo do previsto. Há algumas semanas, as agências de Hong Kong e Macau não conseguiam confirmar as viagens para Ulanbator, mas pelo menos no “Air China” que me levou de Pequim a Ulanbator havia aí um terço de lugares vagos...

A imprensa local conclui em síntese e sem pretender basear-se em qualquer rigor estatístico que, em termos internacionais, as comemorações foram “um fracasso”, uma vez que “pouco vão fazer para promover o turismo da Mongólia”.

ONDE O QUE PARECE... NÃO É? Não temos dados para assumir posição sobre a matéria, mas nestes dias, percebemos situações contraditórias que só o tempo ajudará a esclarecer.

Em termos globais, nota-se que há uma intenção clara do Governo de apostar no “eco-turismo” e se as condições naturais da Mongólia estão absolutamente de acordo com esta aposta, é necessário que as pessoas que vivem na província alterem a sua mentalidade e haja mesmo mudanças profissionais, para que possa haver serviços de acordo com os preços que exigem.

Depois na grande capital, onde neste momento vivem dois terços dos 2,8 milhões de habitantes do país, há muitas coisas que realmente “não batem certo”.

Para além do que já se falou sobre a ocupação hoteleira e dos aviões, anote-se ainda que a maior parte do restaurantes, deixa de servir refeições às 23 horas.

Em Ulanbator há centenas de restaurantes e para todos os gostos, mas todos funcionam também como bares, de modo que sendo a componente de cozinha talvez a menos lucrativa, é ela que fecha sempre mais cedo, ou revela escassez de géneros.

Nalguns casos, houve cenas ridículas. Fora da capital, tivemos que bater “a várias portas” até encontrar um restaurante que servisse comida dentro de um  aceitável espaço de tempo; na cidade, no “coffe-shop” do Hotel Ginghis Khan (cinco estrelas), menos de duas dezenas de alemães que tinham ido a um tour fora da cidade, perderam a hora do jantar e estiveram uma hora e meia à espera de hamburgers, enquanto outros clientes eram recusados por temerem não haver pão para todos; noutros locais ou foi o pão e o queijo que tinham acabado ou a vaca que não dava bife, e mesmo um restaurante recusava servir sobremesas apesar de ter as fatias de bolo à frente dos clientes. Em todos os locais, porém, nunca ouvi alguém queixar-se da falta ou de atraso no serviço de bebidas alcoólicas.

Um dos melhores locais para se comer fora de horas acaba por ser a Discoteca “Strings”, neste momento “a coqueluche” da noite de Ulanbator, com o seu animado conjunto filipino e um grupo de “dance-jazz” claramente profissional que actua nos intervalos.

Integrado no complexo do “White House Hotel”, também aqui aconteceu coisa estranha. A lei geral obriga ao encerramento das discotecas à meia noite, mas ninguém parece cumprir. Há duas noites, apareceu uma carrinha da polícia de onde sairam uns cinco agentes, e o porteiro não deixou entrar mais ninguém.

Tive um “sexto sentido” e obriguei os meus amigos a esperarem. Os polícias sentaram-se numa mesa do lado de fora, de dentro veio alguém com atitude de quem sabe o que está a fazer e, não mais que três minutos, os polícias foram-se embora e a portou voltou a abrir-se.

Eram 2 horas e 15 quando saí do “Strings” para ir dormir!