Ulanbator “esgota-se” direcção ao campo

No primeiro dia de feriado nacional, a população da capital mongol deixou Genghis Khan no alto da montanha e foi gozar das belezas cénicas e as atracções turísticas do campo. Onde os estrangeiros pagam bastante mais, talvez por usarem o ar puro da Mongólia...

Ontem foi o primeiro dia feriado após as festividades nacionais que este ano estão associadas à eleição de Gengis Kahn, e boa parte da população da capital fez o que parece ser o “sonho” de todos os fins de semana no Verão - ir passar o dia ao campo.

Para quem não tiver automóvel, ou amigos com transporte, isto é mais fácil de dizer do que fazer, uma vez que o sistema público de autocarros, que em Ulanbator sofreu uma notável melhoria nos últimos dois anos, é verdadeiramente rudimentar para fora da capital.

Isto não parece fazer desistir ninguém. Talvez pela mistura das raízes nómadas, com os difíceis tempos da “ocupação” soviética, a população apresenta um notável sentido gregário, de modo que há sempre uma família amiga que dispõe de um carro e o normal é as viaturas irem carregadas até mais não poderem, apesar da decrepitude do parque automóvel.

Na verdade, neste momento, mesmo as famílias pobres têm uma viatura: são carros em variadíssimas “mãos”, vindas das cidades russas ou chinesas e, segundo consta, nem todas legalmente importadas.

Logo de manhãzinha, pela estrada fora, a cidade “esgota-se” em direcção ao campo, milhares e milhares de veículos em festa e grande velocidade, para, cerca de 40 quilómetros depois, sairem da estrada e através de pequenos caminhos, fixarem-se nas zonas preferidas. Daí a “corrida” matinal, aparentemente sem significado.

A estrada é estreita (no máximo três veículos a par) e o piso francamente deplorável - neste momento não há nada parecido em Portugal - razão porque é vulgar verem-se carros na berma com suspensão partida, e vários dos ocupantes a darem dicas de como se deve fazer para resolver o problema. Sem assistência, o problema acaba por se resolver, quando aparece alguém conhecido que sabe da poda, mesmo que seja já na hora do regresso, quando o frio passa  a ser “o dono” do “campo”.

O curioso é que a certa altura, os carros são obrigados a parar num posto, onde, de cada lado, um indivíduo à civil, mas devidamente identificado recebe dinheiro dando um talão. “É a portagem da auto-estrada”, explicam-me, embora não veja nenhuma auto-estrada, mas apenas a continuação da estrada anterior de péssimo piso. Pacientemente concluem-me a explicação: “há alguns anos estamos a pagar não a auto-estrada feita, mas a que se há-fazer, embora haja quem acredite que o dinheiro será desviado e nunca chegaremos a ter auto-estrada ou estrada de boa qualidade, que era tudo o que se necessitava”. 

PRAIAS FLUVIAIS. Fora de Ulanbator o cenário é maravilhoso, para quem aprecie a Natureza e o mundo rural. Com excepção de algumas pequenas vilas cuja população se dedica à agricultura, o resto são quilómetros e quilómetros de campos verdejantes onde pastam vacas e cabras, sob o olhar atento de pastores.

Nesta altura as temperaturas atingem o máximo de 22º e está um sol aberto com céu azul. Não surpreende, por isso, que depois da correria matinal, os habitantes da capital se dispersem em pequenos grupos por locais anteriormente preferidos, muitos deles nas margens de pequenos rios de água límpida e bastante fria para o gosto dos portugueses.

Não vi ninguém a tomar banho, mas quase todos os homens estavam em tronco nú e calças arregaçadas. Eles e elas, atiram água uns aos outros, ouvindo-se uns gritinhos de horror das jovens, que mais parecem de prazer pela atenção que lhes dedicam, já que a maior parte do tempo os homens parecem interessados em perscrutar o fundo do rio. A certa altura, começam a comer e beber, o que farão até ao regresso, com uns jogos de cartas e uma soneca pelo meio...

Outros sobem a determinadas colinas, algumas das quais têm rochas com feitios de animais que a tradição liga a lendas antigas de sorte, felicidade e boa vida.

Não tive tempo para comprovar a veracidade das lendas, mas posso garantir que para já, pelo menos a sorte e boa vida é um facto para os locais que à custa dessas rochas, montaram negócios para prolongar a estadia dos turistas nacionais.

Ali se pode montar em cavalo “alheio”, uns para aprender ou para mostrar habilidades de infância a que fugiram, comer especialidades tradicionais (num dia como o de ontem a procura era tão grande que a previsão de espera era de duas horas), comprar bebidas frescas ou mesmo tirar fotografias vestido de “Khan” (rei) e “Hathan” (rainha), embora o negociante só forneça o “ger” - a tenda real está tão ornamentada que até tem luz eléctrica- e as vestimentas, incluindo as botas. A máquina da fotografar é dos clientes...

Parte deste mundo rural encontra-se sob a supervisão das autoridades florestais de forma a ser devidamente cuidado. Para isso, nas estradas de acesso há umas portagens a obrigar ao pagamento de uma taxa. Insignificante para os mongóis, exorbitante para os estrangeiros, mesmo que estejamos a falar de três US dólares. Deve ser taxa por levarem nos pulmões o ar fresco e não poluído da Mongólia...

CAMPOS DE TURISTAS. Devidamente assinalados, há dezenas e dezenas de campos de turistas, todos em locais de grande beleza cénica.

Todos têm “gers” para alugar ao dia ou à semana - o turismo está a sofrer uma evolução tão enorme que o preço triplicou este ano e uma noite que custava 10 dólares custa hoje mais de 30 -, restaurantes - que só servem aos clientes “da casa” e um vasto programa de actividades ao ar livre que vai do “tracking” pela montanha, até ao aluguer de cavalos.

São muitos, mas estão com boa clientela, na sua maior parte europeus, já que os locais que admiram o campo regressam ao fim da tarde à cidade.

Muitos alemães - não consegui ainda perceber porquê, mas é dominante a sua presença no receptivo da Mongólia - mas também muitos ingleses, e depois entre os asiáticos, os japoneses e os sul-coreanos, estes direccionados para os campos de golfe que mais recentemente vieram dar novas alternativas ao turismo da Mongólia.

Espaço é o que mais há, mão de obra e chuva também não faltam e mesmo no Verão os “greens” estão sempre com um espantoso verde. Abertos entre Abril/Maio até Outubro/Novembro (conforme os micro-climas locais) dão oportunidade de praticar a modalidade a milhares de japoneses e coreanos que nos seus países teriam que gastar muito mais dinheiro, com o “benefício” de irem conhecer outro país.

Esses campos resultam de “joint-ventures” com capitais externos e estão meticulosamente organizados não havendo nenhum indício de algum “deixa andar” que está associado à vida mongol.

Tendo tido oportunidade de passar todo o dia fora da cidade, posso dizer que esse mundo está fervilhante de negócios, e os turistas, sejam nacionais, sejam estrangeiros, estão a passar muito dinheiro para um nascente sector de serviços, cujos recursos humanos vêm do mundo rural.

Uma transformação que também se registou nos países europeus, há algumas décadas, dando a ideia de que, apesar do notório “boom”, como está no início a indústria do turismo na Mongólia.