“Panis et circus”

O Estádio Central de Ulanbator foi ontem o ponto central das comemorações do “Naddam Festival”, este ano transformado num momento de unidade nacional mongol e da promoção internacional da figura de Genghis Khan

Ao fim da manhã (a noite anterior fora de bem “regada” festa) todos os caminhos começaram a ir dar às bancadas do estádio relvado onde, ao meio dia em ponto, se deu início ao muito aguardado torneio de luta livre.

As estradas ficaram “entupidas” - o conceito de estacionamento de veículos na Mongólia, é bastante livre, pelo que cada um tapa o primeiro “buraco” que encontra - enquanto os milhares de peões faziam “corta-mato” pela relva rasa das últimas chuvas.

Num ápice, o estádio encheu-se e, se a certa altura era claro que nem todos estavam preparados para ver as cinco horas de espectáculo, a verdade é que as bancadas estiveram cheias até ao fim, significando que houve uma renovação dos espectadores à medida que as horas passavam. Isto apesar de quatro canais de televisão estarem a dar o evento em directo, com um “feed” geral fornecido pela estação estatal, mas melhorados com resportagens ao vivo próprias.

Em si mesmo os combates de luta livre são bastantes simples. Depois de umas mesuras do tipo dos atletas de sumo japonês, os lutadores atiram-se um ao outro, procurando derrubar o adversário, com as mãos e os pés e não com a cabeça como aconteceu no Mundial2006, com Zinedine Zidane. O primeiro que cair perde, mas talvez porque “os truques” sejam conhecidos, os combates nem sempre são rápidos, e como não há tempo limite, há combates que acabam com os atletas totalmente esgotados.

Esta é uma regra da luta livre mongol que difere de modalidades semelhantes noutros países; a outra - ainda mais única -é que não há divisões de peso, pelo que os “plumas” lutam contra os pesos “bastante pesados”, sem haver a certeza que ganhe o mais forte, uma vez que há ali alguns truques de judo, em que se procura aproveitar a força alheia para vencer o adversário.

Os que perdem vão sendo eliminados; quem ganha cinco combates é considerado como “Falcão”, quem vence sete é “Elefante” e dos dois lutadores que disputam a final, o vencedor geral do torneio é elevado à categoria de “Leão”, designações que só por si, revelam o enquadramento histórico de um torneio nascido numa sociedade rural.

O torneio, contudo, tem outros aspectos muito curiosos, já que se assemelham aos que levavam os romanos ao Coliseu: há invocações divinas, por parte dos atletas, rituais majestáticos por parte dos júris de campo, e em especial, pelo Grande Júri que se encontra na bancada e que, um pouco como o Imperador, manda tocar a música e dita a sentença final.

Faltavam menos de cinco minutos para as cinco horas quando foi “decretado” o “Leão do Torneio de 2006, que foi à bancada receber um troféu comemorativo, e saiu em ombros pela porta grande, acompanhado por um cortejo de cavaleiros vestidos a rigor, ao som de marchas de tom militar e do aplauso unânime dos milhares de espectadores.

Antes de “fechar o pano” - para o ano há mais - todos acompanharam o hino nacional, com um fervor patriótico que parece dar razão às autoridades que apostaram neste 800º aniversário de Genghis Kahn, para dar um grande impulso à auto-estima do povo mongol.

Parece que já ninguém inventa nada de novo: o “pão e circo” de outras eras, continua a dar resultado neste início do século XX1...

J.R.D.