Mongólia marca encontro com o futuro
através da ligação ao passado

A República da Mongólia está a comemorar 800 anos da eleição de Genghis Khan, não como um acontecimento histórico, mas como uma “plataforma” de lançamento para o futuro. Dá a ideia que os actuais dirigentes apostam no nome daquele que foi um dos grandes “conquistadores” do mundo, a “conduzi-los” no caminho do progresso. Sem o terror que inspirou no século 12, mas através da promoção turística, do comércio internacional das suas matérias primas e da atracção de investimentos

É a “febre” de Genghis Khan. A “porta de entrada” aérea da Mongólia - o pequeno aeroporto Buyant Ukhaa, de instalações “maciças” ao melhor estilo soviético, passou a chamar-se Aeroporto Internacional Genghis Khan, e já foi assinado um acordo com a Korean Air para fazer um aeroporto internacional moderno e eficiente.

Neste ano de todas as comemorações, algumas escolas, ruas, mais marcas de vodka e muitos recém-nascidos passaram a chamar-se Genghis Khan, havendo até quem considere que Ulanbator (“que significa “Herói Vermelho”) deveria passar-se a chamar “Genghis Khan City”.

À espera de 400 mil visitantes, foi inaugurada há dois dias, uma enorme estátua do grande conquistador, que alegadamente custou cinco milhões de dólares e obrigou a que os operários trabalhassem 24 horas por dia para a completar a tempo, o que não é muito usual num país, habituado a um ritmo bastante lento.

Erigida na zona onde se encontram as principais sedes do poder, a mensagem é clara: do cimo dos seus oito metros de altura, Genghis Khan indica caminhos para os menos de três milhões de habitantes da República da Mongólia: por um lado, a unidade - ao ser eleito Khan de forma bem democrática pelos chefes tribais, Genghis Khan conseguiu unificar a Mongólia antes de partir para a conquista de terras em dois continentes e o estabelecimento de um Império que durou 150 anos; por outro, o caminho da abertura ao exterior, agora fundamental após mais de sete décadas de domínio soviético, que deixou o país exaurido de riquezas naturais e num estado de total letargia socio-económica.

Tudo indica que desde Janeiro, a grande remodelação governamental que levou à substituição de um democrata (contudo inexperiente do mundo exterior) pelo líder reformista de um partido de “origem” soviética, mais conhecedor dos problemas e soluções das sociedades actuais, veio dar uma nova postura ao governo.

É que, a mudança govermental sucedeu após intensas manifestações na capital. Quinze anos após o fim do domínio soviético, o povo da Mongólia mostrou aos dirigentes que a liberdade não tinha consequências as nível económico e exigiu uma nova estratégia. Os dirigentes não tinham outra hipótese senão ouvir a população.

Por isso, na agricultura, na indústria e nos serviços, há hoje uma total abertura ao exterior, e enquanto a legislação ainda está para dar seguimento concreto às facilidades necessárias ao investimento externo, as “joint ventures” crescem um pouco por todo o lado - a última notícia é que o Hilton vai construir um hotel na capital.

Dá ideia que os dirigentes mongóis, com uma população de menos de três milhões, estudaram a fundo os exemplos dos dois grandes vizinhos: a Rússia e a República Popular da China que fizeram o “aggiornamento” do comunismo de forma diferente. Em termos políticos seguiram claramente a “rotura” que sucedeu no Kremlin e a liberdade política é tão evidente que, mesmo em frente da estátua de Genghis Kahn há grupos de cidadãos a protestarem pelo gastos, considerando que seria melhor que o dinheiro fosse utilizado para melhorar a vida da população; em termos económicos estão mais perto da iniciativa chinesa, no estabelecimento de um capitalismo nascente, por enquanto ainda sem todas as regras definidas.

Mas isto é tema para mais debate.

Por agora, o país está realmente em clima festivo, e em parte nenhuma, de forma mais clara que na capital e nas cercanias, onde contemporâneamente começou o Festival Nacional Nadaam, em que se promovem as capacidades guerreiras dos mongóis, seja na luta livre, nas corridas de cavalos (em que os jockeys são rapazes até aos 10 anos), ou nos concursos de arco e flecha, em que pela primeira vez, também há atletas femininas a competirem.

Este é um festival anual, mas que este ano ganhou nova força e os competidores surgem ladeados de populares em trajes garridos, numa promoção que não deixará de ter algum impacto internacional.    

PRESIDENTE QUER FESTA. O Presidente N. Enkhbayar deixou bem claro numa comunicacão televisiva ao país, que esta época tem que ser de festa, “mas com calma”. “Vamos unir-nos a cantar o hino nacional, e beber vodka de forma moderada”, disse.

Não foi por acaso que falou no vodka. O Parlamento amnistiou mais de 1500 dos sete mil prisioneiros, a maior parte dos quais por crimes de morte efectuados sob o álcool, uma dependência que atinge largos milhares de pessoas e afecta quer a sociedade, quer a economia do país. Por isso, 285 pessoas com alcooldependência reconhecida, foram mandados neste período para clínicas, e são os únicos que não podem estar presentes nestas festas que vão durar até ao fim de semana.

Quem não vai estar na festa são as estátuas de Lenine e Estaline que outrora simbolizavam o domínio soviético.

Também por isso, a figura de Genghis Khan é sinal de renascimento para os mongóis. É que, até 1990, as autoridades suprimiam tudo o que falasse no conquistador, conduzindo mesmo à morte algumas pessoas que se assumiam como longínquos descendentes de Genghis Khan.