“Media” portugueses com interesse reduzido

Na sua segunda visita oficial a Portugal, Edmund Ho passou praticamente despercebido à imprensa portuguesa que lhe dedicou apenas algumas linhas e, quase sempre, descontextualizadas

Na Câmara Municipal de Lisboa, primeira etapa de três dias de intensos contactos, Edmund Ho ainda foi confrontado com a relativa curiosidade de alguns órgãos da comunicação social (OCS) portuguesa - RTP, Lusa/TV, Antena 1, Rádio Renascença e Público foram presenças notadas - mas, atendendo ao teor das questões colocadas ao Chefe do Executivo da RAEM e à predilecção manifestada pelo presidente do município, Carmona Rodrigues, cedo se percebeu que a visita oficial não iria ocupar muito espaço na imprensa de Portugal.

Sendo certo que alguns encontros incluídos no programa da visita atraíram jornalistas portugueses, importa sublinhar que esse aparente interesse acabou invariavelmente por ser direccionado para os governantes anfitriões, muitas vezes instados a pronunciarem-se sobre questões perfeitamente alheias à ocasião, com destaque evidente para a evolução da crise política em Timor-Leste ou matérias de política interna.

Nem mesmo o facto de Edmund Ho ter sido recebido pelas principais figuras de Estado foi suficiente para que os jornais portugueses lhe tivessem dedicado uma cobertura noticiosa digna desse nome sendo que, nalguns casos, não foi feita sequer qualquer referência aos encontros com Cavaco Silva, José Sócrates ou Jaime Gama.

Exemplos flagrantes de um alheamento quase total foram as edições de sexta-feira - dia posterior aos encontros de Belém e São Bento - com o Chefe do Executivo a ficar fora das páginas de “O Independente” e “Semanário Económico” ou a merecer breves referências nas restantes publicações e, mesmo nesses casos, com o seu nome a aparecer associado essencialmente à presença em Portugal do empresário Stanley Ho.

O “Público” foi uma das raras excepções ao dedicar um quarto de página à visita do Chefe do Executivo, com um texto intitulado “Sócrates e Edmund Ho discutem posição de Portugal como ‘ponte’ para a China”. Apesar da abertura do escritório de representação do Banco Seng Heng - controlado por Stanley Ho - ocupar os dois primeiros parágrafos do artigo, o jornal não deixa de salientar, ainda que de forma imprecisa, que Edmund Ho trouxe a Portugal questões sensíveis como a mudança de instalações da Escola Portuguesa de Macau e o caso dos funcionários portugueses a trabalharem com licença especial no território. 

A questão das licenças especiais não deu direito a mais do que dois parágrafos no “Correio da Manhã”, que apenas cita Sócrates, e a um pequeno artigo no “Diário de Notícias”, cujo suplemento de Economia apresenta uma foto de Edmund Ho e Stanley Ho, mas somente para ilustrar os projectos de investimento revelados pelo empresário do Jogo na sua passagem pela capital portuguesa.

Idêntico tratamento foi dado pelo “Jornal de Negócios” que destaca a vontade expressa por Stanley Ho de aumentar a sua participação na EDP dos actuais três por cento para até 10 por cento.

A imperiosa necessidade de “despachar” serviço a tempo do fecho das redacções em Macau impediu os membros da delegação da imprensa da RAEM de acompanharem atentamente os noticiários das estações televisivas portuguesas mas, a avaliar pelo que se pôde ver durante os três dias da estadia em Portugal, o panorama terá sido idêntico ao da imprensa escrita ou ainda mais sombrio.

Em contrapartida, Edmund Ho sempre terá evitado ver o seu nome ser referenciado sistematicamente a cargos como “presidente da R.A.E. de Macau” ou “chefe do executivo do governo de Macau”.

S.T.