FEBRE DO MUNDIAL CONTAGIA EMIGRANTES
Um português, uma bandeira

Com a Alemanha tão próxima, a paixão pelo futebol está instalada em Bruxelas, muito por culpa das inúmeras comunidades imigrantes que emprestam um colorido especial à capital da Europa, enfeitando restaurantes e residências com faixas e bandeiras dos respectivos países. Mas, verdade seja dita, ninguém o faz como os portugueses

SÉRGIO TERRA
Enviado especial

Está muito calor na Bélgica... nos termómetros e no ambiente humano. Com pouco mais de um milhão de habitantes, Bruxelas tem retirado proveitos do seu estatuto de capital da diplomacia europeia e de uma valiosa oferta turística para atrair diariamente milhares de visitantes de todo o mundo mas, por estes dias, vive em crescente azáfama. “Bruxelas está sempre cheia de pessoas mas, desde que começou o Mundial de Futebol, tem sido demais”, confessa Vicente, o inexcedível condutor/guia que tem acompanhado a delegação de jornalistas de Macau.

O “andaluz de Córdoba”, como faz questão de sublinhar, não sabe para que lado pende o coração “futebolístico” dos belgas - afastados da fase final do Mundial - nem isso parece ser mais o factor mais importante em Bruxelas, onde cada esquina, praça ou restaurante serve como ponto de encontro para adeptos chegados de todos os cantos do planeta e as montras das lojas estão repletas de bandeiras, cachecóis e outros acessórios representativos das diferentes selecções que estão a disputar a maior competição do deporto-rei.

Na breve visita que alguns jornalistas de Macau efectuaram ontem aos principais pontos de interesse de Bruxelas, não passaram também despercebidas as buzinadelas esporádicas de pequenos grupos de adeptos mas sobretudo as inúmeras bandeiras desfraldadas nos varadins e janelas de residências ou nos toldos de restaurantes. Da Itália à Inglaterra, do Brasil à Espanha, são muitas as nações que também aqui se encontram de bandeira à janela, mas nenhuma o faz de forma tão evidente como a comunidade portuguesa.

No percurso que nos levou do Hotel Holiday Inn à sumptuosa Grand Place oitocentista, com passagem pela sede da Comissão Europeia e pelo famoso Atomium - grande ex-libris de Bruxelas, fruto da primeira exposição mundial no período subsequente à 2ª Segunda Guerra Mundial - perdemos literalmente a conta às largas dezenas de bandeiras portuguesas que animam cinzentos e seculares edifícios e não deixam dúvidas sobre a forma apaixonada como a vasta comunidade lusa radicada na Bélgica tem vivido as prestações da selecção das quinas.  

João Gaspar, um nortenho convicto que há 14 anos trocou Portugal pela Bélgica “à procura de uma vida melhor”, explicou ao JTM que a euforia dos emigrantes é normal sempre que se trata de futebol. “Estamos todos com a nossa selecção, e o nosso país.  A selecção enche-nos de orgulho e ajuda-nos a matar as saudades de casa”, acrescentou o empreiteiro de 35 anos, que reside na cidade de Charleroi e já constituiu família na Bélgica.

Mas, a omnipresença dos emigrantes portugueses começou a ser visível ainda antes da chegada a terras belgas. Providencial para retemperar forças depois das 12 horas passadas no avião que nos trouxe de Hong Kong, a escala feita em Frankfurt serviu também para os jornalistas se informarem sobre as incidências do Portugal-Irão e perceberem que a expressão de felicidade do empregado de mesa que nos atendia num restaurante do aeroporto tinha afinal razão de ser. “Sou da Marinha Grande”, frisava alto e a bom som o Fernando Vicente, orgulhoso por ver que “há portugueses em todo o lado” e pela vitória de Figo e companhia. Mais à frente, já na zona do “check-in”, novo encontro lusitano, desta vez com um trio feminino recém-chegado de uma visita “terrível” à Rússia mas feliz pelo triunfo frente ao Irão.

Em português voltou-se a falar nas escadas rolantes do aeroporto de Bruxelas, onde dois adeptos lusitanos não escondiam o seu optimismo sobre a caminhada dos comandados de Scolari, depois da exibição de “categoria” que tinham acabado de assistir “in loco”, em Frankfurt. “Estavam mais de 20 mil portugueses no estádio e parecia que estavamos a jogar em casa; a jogar assim podemos ir longe”, realçou um dos adeptos, que aproveitou o facto de estar de visita à filha, residente na Bélgica, para dar uma “saltada” à vizinha Frankfurt, situada apenas a 400 quilómetros de Bruxelas.

Bem menos efusivo revelava-se um adepto iraniano que, porém, não perdeu o “fair-play”, sorrindo perante os vivas a Portugal enquanto empunhava orgulhosamente a bandeira do seu país.

O mesmo espírito dominava ainda um grupo de dezenas de mexicanos de Guadalajara que, em plena visita ao Atomium, não se cansaram de elogiar a equipa das quinas e pedir “pelo menos um empate” para o jogo com Portugal. “Suerte, mucha suerte”, repetiam os mexicanos enquanto embarcavam em dois autocarros vindos de uma Alemanha cuja proximidade está a contribuir para alterar o quotidiano da pacata Bélgica.